• No results found

Industry and public policy implications

In document Knowledge-based IT & software (sider 77-85)

Havia certo clima de agitação no ar e a cor verde-amarela nas camisas e adereços de alguns transeuntes indicavam que era o futebol o motivo daquele burburinho que se avizinhava. Mais uma Copa do Mundo chegara e desta vez, nós éramos os anfitriões. Tínhamos que fazer bonito no campo e fora dele. Foi esse ânimo que encontrei no Terminal do Antônio Bezerra nos dois dias de jogos do Brasil que decidi assistir no bairro. Eram os jogos contra a

77

Croácia e o México. Optei por assisti-los juntamente com os moradores do Antônio Bezerra, contrariando minha tradição de assistir aos jogos da Seleção junto com os meus.

O terminal estava bem iluminado. A recente reinauguração tornava-o mais amplo do que efetivamente era, porque contrastava com a imagem que eu guardara das outras vezes que ali estivera, quando os ônibus e pedestres dividiam seu espaço com tapumes e materiais de construção. O impacto foi positivo e guardei aquela sensação enquanto entrava no ônibus. Nas duas ocasiões, desci na Rua Perdigão Sampaio, logo após atravessar a Mister Hull. De lá, sempre ia andando a pé, olhando cada quarteirão e ruela por que passava.

Na primeira vez, a impressão foi frustrante, não encontrei bandeirinhas e nem ruas pintadas. Com exceção de uma ou outra casa, a maior parte dos espaços nada lembrava a agitação de Copa do Mundo. E agora? Pensei, apreensiva por não encontrar uma reprodução do que disseram alguns dos meus interlocutores. As ruas não estavam em festa e muito menos seus moradores, que mal surgiam nas calçadas. Lembrei a conversa que havia tido com Inácio, quando perguntei qual seria o melhor lugar para eu ver o jogo do Brasil no Antônio Bezerra.

Na hora, ele me disse que não sabia ao certo, não tinha certeza nem se cobriria a festa desta vez. Quatro anos antes, ele havia pegado seu carro, o BABmóvel como costuma chamar o corsa que tem, e percorrido as principais ruas do bairro, registrando a animação dos moradores torcedores, que comemoravam as vitórias brasileiras. Mas, naqueles dias, as coisas não estavam tão animadas. “As pessoas estão meio contrariadas com esse negócio de Copa... por causa do ano passado.”. Ele me dissera se referindo às manifestações que haviam acontecido na Copa das Confederações um ano antes, em 2013.

Estava a poucas horas da vitória do Brasil sobre a Croácia. Andei em direção à rua Hugo Vitor – há poucos quarteirões da Perdigão Sampaio. Minha esperança era de que lá o clima fosse verde-amarelo, afinal, Léo havia dito que “o pessoal do Rondinelle” ia fazer festa na rua. Então, fui à procura da casa de dona Margarida e dos seus vizinhos. Era cedo e a rua estava calma. Mas, em tamanho gigante, uma bandeira brasileira e a mascote da Copa, um tatu- bola chamado Fuleco, coloriam o asfalto em frente à casa da família de Rondinelle.

Indecisa sobre o que fazer, ainda tentei ligar para o Inácio, mas ele não atendeu; e ensaiei bater na casa de dona Margarida, mas fiquei com vergonha. Durante toda a pesquisa, sempre foi difícil para mim adentrar na intimidade dos meus interlocutores. Nos momentos das entrevistas não, sentia-me à vontade, mas antes, no primeiro contato, sempre foram um tanto tortuosos.

Resolvi, então, dar outra volta pelo bairro. O mesmo cenário, quase nenhum morador na rua e pouquíssimos sinais da torcida canarinho. Naquele final de tarde, senti uma

78

desolação ao olhar as ruas... Eram as mesmas pelas quais já havia passado, mas a minha expectativa frustrada de encontrar um ambiente festivo as deixou mais escuras. Senti até certa tristeza e um mau presságio de que não veria, naquele ano, o hexa brasileiro. Melhor não pensar nisso, poderia atrair o azar!

Tive medo de descer até a rua Salgado Filho, onde mora dona Carol e os filhos; e resolvi voltar e me instalar no Copacabana (que fica numa rua paralela e entre a Hugo Vitor e a Perdigão Sampaio). O restaurante fora indicação de Paulo como um bom lugar pra ver jogo e onde eu almoçara naquele dia, pois chegara ao bairro no começo da tarde. O comecinho da noite tinha chegado e as seleções brasileira e croata se perfilavam para os hinos nacionais.

Aí, não teve jeito, a torcedora tomou conta do meu coração, deixei a pesquisadora de lado e fui vibrar, torcer, gritar pelo Brasil. Mas, entre um lance e outro, observava o restaurante que àquela altura estava com a maioria de suas mesas ocupadas por famílias inteiras. Percebi que clientes (principalmente os homens) e garçons se tratavam pelo primeiro nome e/ou apelido, indicando intimidade de quem já frequentava o lugar.

Fiquei até o final do jogo, saí de alma lavada e feliz pela vitória brasileira. Tão animada estava que as ruas vazias já não me incomodavam... Resolvi voltar à Hugo Vitor e o caminho pareceu-me mais alegre, não apenas por causa do meu estado de espírito, mas também porque fui encontrando moradores na calçada, comemorando.

A festa estava montada na Hugo Vitor. Dois quarteirões bem movimentados – aquele das casas de dona Margarida e da família do Rondinelle e também do GRAB; e o quarteirão do campo Rio Branco, e do conjunto de pequenos bares (como box de mercado, oito botecos estavam cheios de gente, bebendo, comendo e comemorando). Fiquei feliz, mas me senti deslocada da festa que tinha um ar totalmente familiar. Era uma festa de vizinhos que invadia a rua e demarcavam o seu pedaço, as suas áreas. Senti-me intrusa... Peguei o ônibus e fui embora, já pensando no próximo jogo, que seria contra o México.

Durante a semana que seguiu, vi as fotos que Inácio tirou da comemoração naquela rua... mas, uma coisa me incomodou. As pessoas nas fotos me pareceram tão artificiais, tão enquadradas em poses padrão de fotos para coberturas de festas que esvaneceram aquele clima de família e vizinhos que eu sentira no jogo anterior. No próximo jogo, eu tiraria minhas próprias fotos e registraria a informalidade e espontaneidade dos moradores...

Mas, aquele meu objetivo não se concretizaria, o Brasil empatou, foi um sufoco o jogo e, talvez por isso, a festa não aconteceu. A arrumação de horas antes se perdeu e, exceto aqueles que trocaram a euforia do futebol pela euforia do álcool, a maioria dos torcedores voltou para suas casas.

79

Entretanto, não serei justa se ignorar o clima gostoso de quem arruma a casa para festa que encontrei quando cheguei à rua Hugo Victor. Algumas horas antes de começar o jogo contra o México, quase todas as casas daqueles dois quarteirões estavam com as portas abertas. Em algumas, televisão e cadeiras foram para a calçada. Em outras, bandeiras dos times locais foram estendidas e dividiam espaço com as cores do Brasil.

Alguns moradores varriam as calçadas e até parte da rua! Outros faziam as gambiarras para posicionar as antenas de TV. Havia também um telão na rua e sons de carro se misturavam com os primeiros fogos de artifícios. Os bares próximos ao campo Rio Branco acompanhavam o vai e vem da organização, mas nem todos abriram, pelo que eu sondei, os quiosques que permaneceram fechados foi por opção de seus donos, que resolveram assistir ao jogo e não trabalhar.

Sentei em um daqueles bares e puxei conversa com uma senhora simpática que esperava a filha voltar de casa para poder ir se arrumar e vir assistir ao jogo na televisão já instalada no balcão. Achei engraçado porque pedi uma coca-cola que não veio, mesmo eu tendo ficado cerca de duas horas conversando e observando aquela animação. A senhora estava muito mais interessada em saber quem eu era e o que eu queria ali, do que me vender os produtos de seu bar. Senti que não havia espaço para uma entrevista e mantive gravador e câmera fotográfica guardados, seria uma conversa informal. Ela me falou de outras Copas, de quando costurava e da longa bandeira que fez na Copa anterior. Ficamos lá, conversando e olhando o movimento.

In document Knowledge-based IT & software (sider 77-85)