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Ao contrário dos EUA, o fenómeno dos centros comerciais mortos é ainda uma realidade pouco conhecida na sociedade portuguesa. Apenas como nota, no decorrer desta investigação, quando dissemos ao comum dos mortais que em Portugal existem centros comerciais encerrados ou que existem centros a passar por uma situação de mal-estar, fomos confrontados com um sentimento de surpresa ou admiração, pois a imagem de centro comercial criada nas nossas mentes é totalmente oposta a isso. É certo que a vida que cada tipo de centro representa é diferente, muito pelas suas características. Provavelmente os centros comerciais integrados ocupam hoje por inteiro as nossas mentes, pois têm sido os protagonistas desta realidade ao longo das últimas décadas. De qualquer modo, o presente argumento é que, independente do centro comercial que temos associado à nossa mente, a imagem que passa é de vida, confusão, movimento, som, luz. De facto, esta vivacidade do centro comercial e o seu impacto nos sentidos do corpo humano são reconhecidos na literatura científica (Goss, 1993; Turley e Milliman, 2000; Ng, 2003).

O problema dos conceitos assume particular relevância no presente objeto de estudo. É importante reflectirmos sobre o conceito de centro comercial morto essencialmente porque de momento não existe na bibliografia um consenso sobre a definição desta realidade. Este termo surge nos EUA para classificar os empreendimentos que, por motivos de insucesso, encerraram as suas portas, ou que ainda abertos vivem numa situação de profundo mal-estar. A aplicação do adjetivo «morto» é obviamente metafórica. O seu sentido provém do entendimento que um centro comercial é um espaço de vitalidade, positivismo, harmonia, energia, festa, significando o seu encerramento o esfumar destes atributos. Assim, à primeira vista não nos parece excessivo o uso desta expressão. No entanto, não encontrámos na bibliografia qualquer razão que justifique a sua utilização. Contudo, dada a sua carga simbólica, parece-nos ser o termos mais adequado para ser utilizado. Embora a sua origem seja desconhecida, pensa-se que o mais provável é que esta expressão surja da línguagem

74 coloquial, que rapidamente se difundiu, em grande parte devido à sua circulação nos mídia e na internet (Redell, 2009).

De forma a verificarmos o consenso na aplicação do termo de dead mall nos EUA, analisámos a literatura existente sobre este assunto. O mesmo foi feito para Portugal, embora a informação encontrada seja mais escassa.

O termo que mais tem sido utilizado noutros países, sobretudo nos EUA, tem sido sem dúvida o de dead malls. No Reino Unido, o facto de se utilizar o termo shopping center em vez de mall, condiciona a possibilidade de existência deste termo. Após verificado em literatura que a utilização deste tipo de conceitos é escassa, foram analisadas algumas notícias de forma a verificar como é que este assunto tem sido abordado perante os media. Na recolha das notícias, utilizámos vários termos nos motores de busca de forma a assegurar uma pesquisa abrangente. Palavras como failling mall, decline of mall, foram utilizadas nas nossas pesquisas. Como resultado, constatamos que o “failling”, “decline” ou emitem menos resultados nas pesquisas. Dead malls, ou por vezes dying malls, é sem dúvida o termo que mais se tem aplicado tanto na literatura científica como na comunicação social (Tabela 5). Outro aspeto importante a referir é clara a existência de uma dualidade entre o que se encontra encerrado ou morto e o que está a definhar ou em declínio. Porém, quando investigadores ou autores das notícias se referem a centros em declínio, não se referem muitas vezes a centros comerciais que ainda estão abertos, usando o sentido da palavra para dizer que está encerrado ou morto.

A pesquisa que realizámos permitiu constatar que o corpo de literatura sobre dead

malls é ainda escassa. Em Portugal, até ao momento ainda não foram realizados estudos nesta

área. Talvez por se tratar de um fenómeno recente na realidade portuguesa. Porém, para países como os EUA, onde já encerraram muitos empreendimentos, ao ponto de se vaticinar a falência destes empreendimentos (Howe, 2013; Merrick, 2014); é curioso tal escassez. De forma a tentar colmatar esta situação, fizemos também uma pesquisa sobre as notícias que nos últimos anos têm saído sobre dead malls para Portugal. Importa referir que essa mesma pesquisa foi feita usando os mesmos termos em português nos motores de busca da internet.

Como resultado desta pesquisa, podemos observar que o consenso entre termos não é tão claro como na pesquisa anterior. Em primeiro lugar, a aplicabilidade do termos “morto” ou “sem vida” não é tão frequente. Ainda assim, existem algumas notícias, como podemos verificar na tabela 6 que utilizam estes termos (Reis, 2012; Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção do Património, 2013). Os termos que mais sobressaem nesta análise fazem referência ao declínio dos centros comerciais ou então ao abandono dos mesmos. Porém, importa referir que ao contrário das pesquisas além fronteiras, o termo

75 declínio é usado literalmente e, portanto, encontramos notícias de centros que não encerraram mas que se encontram numa situação vulnerável. Deste modo, o que verificamos é que as notícias em Portugal são ainda muito direcionadas para a situação de declínio dos centros comerciais e de crescimento destes, não estando a atenção focada para aqueles que já encerraram. Isto explica-se provavelmente pelo facto de os dead malls serem um fenómeno relativamente desconhecido, pouco visível e significativo.

Tabela 5 – Termos utilizados na literatura e nos midia para o encerramento de um centro comercial no estrangeiro. Literatura científica Termos utilizados

Schatzman (2013) - dead mall

Scharoun (2012) - dead mall; decline of shopping mall; falling mall Parllette and Cowen (2010) - death of enclosed malls; death of mall

Redell (2009) - dead mal

Bodzin and Greenberg (sem data) - failing malls; dead malls

Young (2008) - dead malls

Comunicação social Termos utilizados

CBS News 2014 - dying malls

DeadMalls.com - dead malls

Macke (2014) - death of the shopping mall

Petersen (2014) Business Insider - malls are dying; ghost malls

Stabiner (2011) The New York Times - dead suburban malls Lindsay (2010) Fast Company - dead malls

Kimberley (2009) - dead malls

Jordan (2012) Citylab - death of mall

Hudson and O’Connel (2009) Online - malls is languishing; dead malls; failling malls Hepburn (2012) Death and Taxes - dead malls

Hirasuna (2014) My Fox - disappearing shopping malls Merrick (2014) New Yorker - dead malls; malls are obsolete

Scharoun (2012) The conversation - dawn of the dead mall; viability of shopping mall

Tabela 6 – Termos utilizados nos midia para o encerramento de um centro comercial em Portugal. Comunicação Social Termos utilizados

Boaventura (2012) Público - centro comercial definha Soares (2012) Público - antigo centro comercial Baptista (2014) Dinheiro Vivo - declínio dos centros comerciais Reis (2012) CidadaniaLX - centros comerciais ao abandono

- edifícios sem vida e abandonados O Mirante (2013) - centro comercial encerrado Fonseca (2013) - declínio dos centros comerciais Associação Portuguesa para a

Reabilitação Urbana e Proteção do Património (2013)

- vida e morte dos pequenos centros comerciais - centros comerciais obsoletos

- centros comerciais abandonados Almeida et al. (2007) - centros comerciais encerram

76 Apesar dos vários termos que temos encontrado, desde o escolhido dead mall até

failling mall, decline of mall, centro comercial ao abandono e centro comercial encerrado,

poucos nos facultam uma definição concreta do que se trata. Embora seja evidente o vazio conceptual em torno destes conceitos, apresentamos a definição que existe de momento e que se dirige ao termo dead malls.

De acordo com a Deadmalls.com1, designam-se de centros comerciais mortos, os empreendimentos em que a percentagem de estabelecimentos devolutos é superior a 70%, são dotados de um baixo movimento de consumidores e apresentam um elevado estádio de degradação. Como vemos, três características principais são apontadas para a construção da definição de centro comercial morto. Temos, em primeiro lugar, o peso de lojas devolutas nos empreendimentos, em segundo lugar, o número reduzido de consumidores que procuram os empreendimentos e, por último, a imagem física do centro, em termos de estado de conservação.

Com base nos termos pesquisados para designar a realidade dos centros comerciais mortos, foi possível recolher alguma informação sobre características destes empreendimentos. No entanto, verificamos que maioria da informação recolhida vai ao encontro dos três critérios em que se alicerça a definição da Deadmalls.com. Ficou claro que um centro comercial morto apresenta uma elevada percentagem de lojas encerradas. Este é a característica mais vezes encontrada e é uma das que tem maior peso, uma vez que é através desta que é passada a imagem de inviabilidade económica. Igualmente importante, e muito também devido ao facto de projetar uma imagem negativa tal como as lojas vazias, é a degradação do centro. A falta de manutenção de um centro comercial impulsiona o aparecer de sinais de degradação. Isso para além de causar desconforto aos consumidores que os frequentam, não projeta de todo uma boa imagem, contribuindo para que não seja um lugar atrativo para visita e o consumo. Geralmente esta situação acontece quando os sinais de abandono se intensificam, não existindo orçamento para fazer remodelações e manutenções no centro. Uma das causas disso é precisamente a ausência de lojistas que possam contribuir com as suas rendas e taxas. Outra característica que podemos retirar e que caracteriza os centros comerciais mortos, é o baixo volume de vendas, consequência da diminuição do número de lojas que ocupam o centro, tal como a redução do tráfego de consumidores.

Espera-se completar esta lacuna com a experiência em trabalho de campo e todos os dados importantes que este, juntamente com os resultados, nos poderá fornecer. Para já,

77 espera-se formar um primeiro conjunto de variáveis que consideramos serem importantes para definir um dead mall.