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5. INDUSTRIENS PLASS I FREMTIDENS NORGE – EN KOMMUNUKASJONSUTFORDRING?

5.4 I NDUSTRIENS INTERESSENTER

5.4.3 Industriens interesser i EU

Em um primeiro momento a couraça é examinada por Reich no território da psicanálise e descrita, portanto, a partir de seu aspecto psíquico, dentro da dinâmica da estrutura da personalidade como uma função do Ego. A couraça do caráter se constitui como uma “barreira narcisista” desenvolvida pelo Ego para se proteger dos ataques externos (frustração e ameaças) e dos sentimentos internos não permitidos. Suas principais funções são impedir o contato com as pulsões proibidas, consumir a angústia e permitir um contato substituto com o mundo exterior (REICH, 1933/1990a).

Historicamente, o caráter encouraçado se desenvolve na primeira infância e tem seus principais mecanismos definidos pelos estágios da sexualidade em que se deu a frustração e a repressão, assim como pela identificação com o adulto responsável por ela.

O resultado da formação do caráter depende: da fase em que a pulsão é frustrada; da frequência e intensidade das frustrações; dos impulsos contra os quais a frustração é preferencialmente dirigida; da correlação entre indulgência e frustração; do sexo da pessoa principalmente responsável pelas frustrações; da contradição entre as próprias frustrações (REICH, 1933/1990a, p. 160).

A resolução do complexo de Édipo será fundamental para o grau de cronicidade e para o tipo de caráter que se formará (REICH, 1933/1990a). Ainda assim, a estrutura da personalidade não se fecha totalmente neste momento, isto é, a couraça só se solidifica ao final da adolescência, dependendo da experiência em relação à sexualidade durante os anos de

formação da personalidade adulta. “Na puberdade, repete-se o princípio prejudicial da educação, que leva à estagnação psíquica e ao encouraçamento do caráter” (REICH, 1942/1975a, p.173).

Uma vez estabelecido, o caráter encouraçado se torna uma maneira típica de comportamento sobre a qual o indivíduo não tem quase nenhum controle. “Não pode haver dúvidas de que a atitude básica do corpo encouraçado não é criada conscientemente, mas é autônoma” (REICH, 1933/1990a, p. 363). Essa atitude não pode ser abandonada de forma voluntária pelo indivíduo a não ser por meio de um trabalho terapêutico de desmonte e flexibilização da couraça.

Em terapia, quando essa forma característica de agir é apontada para o paciente como resistência à análise, a resposta é sempre de defesa dos traços típicos do caráter como aquilo que distingue a própria pessoa. “Isto sou eu”, “eu sou assim”, “faz parte da minha constituição biológica”, são algumas das possíveis respostas dadas à exposição das atitudes defensivas. O caráter da pessoa nunca é visto como algo estranho, alheio, mas como aquilo que a define como indivíduo. Entretanto, não é assim que as coisas se passam de fato, já que a análise acaba por demonstrar que há causas para a formação daquela personalidade específica. Isto é, o caráter neurótico é “suscetível de análise e de ser mudado, exatamente como o sintoma” (REICH, 1933/1990a, p. 47).

Um árduo trabalho de identificação e demonstração da constante repetição de atitudes não compatíveis com a situação real no ambiente terapêutico será necessário para que o paciente perceba aquelas características, que lhe são tão caras, como comportamentos compulsórios adquiridos ao invés de senti-las como qualidades pessoais. Aos poucos, ele vai notando que esses traços do caráter lhe são inevitáveis, que ele está limitado a eles como a uma prisão e que a menor tentativa de desviar-se deles causa-lhe alto grau de angústia. Por meio da análise sistemática, com o tempo, as resistências apontadas vão passando de egossintônicas para egodistônicas (GREENSON, 1981).

O estranhamento em relação aos traços crônicos do caráter depende de uma análise tenaz e bem articulada que possa demonstrar o seu papel como defesa e resistência a sentimentos de alguma forma inaceitáveis. É preciso começar pelos aspectos mais superficiais e contemporâneos para que possam ser percebidos e vivenciados de alguma forma pela pessoa. A tentativa de apresentar a couraça relacionando-a às pulsões profundamente reprimidas irá resultar em rejeição pura e simples da interpretação, ou na aceitação meramente intelectual. A

análise da transferência negativa e dos sentimentos de desconfiança e inferioridade na relação atual com o terapeuta deve produzir melhores resultados, para começar.

Só depois que o paciente é capaz de reconhecer o seu caráter como um mecanismo de defesa e resistência à análise será possível interpretá-lo em conexão com sentimentos mais profundamente recalcados. Isto se a própria apreensão do paciente da função defensiva do traço não o levar por si mesmo a vinculá-lo às situações históricas em que este se firmou.

A intensidade da angústia despertada pela desestabilização da couraça faz com que o paciente reaja com raiva aos esforços terapêuticos desenvolvendo a transferência negativa. Muitas vezes também essa raiva será escondida pelo comportamento típico, isto é, pelos próprios traços típicos de seu caráter. O trabalho com a couraça, no primeiro momento, paradoxalmente intensifica e explicita ainda mais o caráter arraigado do paciente.

A angústia e a raiva trazidas à tona pela análise do caráter são expressões do próprio conflito cuja solução resultou na adoção da couraça como forma de se proteger do sofrimento. Reich descreve o caso de um paciente cujo modo de agir lhe sugere “o termo ‘aristocrata’” (REICH, 1933/1990a, p. 195). A análise de seu comportamento acaba por demonstrar que ao adotar a maneira aristocrática de agir ele simultaneamente protegia-se de irrupções emocionais e dava vazão ao sadismo, ao ridicularizar aos outros, de quem se sentia superior.

A história da construção do caráter neurótico retirada de diversos casos permite a Reich descrevê-la em termos esquemáticos e este dedica dois capítulos, o sétimo e nono, de se livro Análise do caráter (1933/1990a) a esta tarefa. De forma sucinta Reich estabelece as linhas gerais da formação do caráter da seguinte forma: impossibilitada de expressar e satisfazer seus desejos sexuais, a criança desenvolve em primeiro lugar uma reação de ira contra o adulto causador da frustração; essa raiva também não pode ser expressa, ou se o é acarreta graves punições; diante da culpa, da vergonha e do medo suscitados pela reação dos pais aos seus instintos básicos, a criança acaba por desenvolver uma forte crise de angústia, a fobia infantil. O caráter encouraçado se estrutura como uma solução do Ego para o conflito infantil e como meio de escape ante a fobia infantil. O comportamento adotado ao mesmo tempo deve servir para recalcar os desejos profundos, expressar disfarçadamente a raiva e evitar a angústia.

Em geral, os comportamentos adotados pela criança para resolver esse conflito são copiados do adulto que a reprime. Por outro lado, esses modos de agir normalmente são vistos,

ou pelo menos assim são compreendidos pela criança, como socialmente aceitáveis, já que os adultos os praticam.

Entretanto, ao mesmo tempo em que alivia a angústia, a couraça retira do Ego a capacidade de intermediar a relação Id X mundo exterior, já que suas funções passam a ficar comprometidas com a manutenção da defesa. Ele precisa permanecer em constante vigilância, ainda que inconsciente, para que o mecanismo do caráter não falhe em sua tarefa. Além disso, uma vez adotado um comportamento típico inevitável, o Ego não pode mais dispor de outras soluções compatíveis com novas situações.

Do ponto de vista dinâmico, portanto, o caráter crônico serve para impedir a manifestação de pulsões do Id que não são bem aceitas e evitar a angústia. Trata-se de uma função autônoma inconsciente do Ego. Mas a sua manutenção compromete a disponibilidade do próprio Ego impedindo-o de exercer plenamente suas funções. “A couraça funciona principalmente como uma proteção contra a vida interior; o resultado é um enfraquecimento pronunciado da função de realidade do Ego” (REICH, 1933/1990a, p. 183).

Por outro lado, os traços do caráter encouraçado por serem, em geral, bem aceitos e até valorizados pela sociedade, constituem uma forma segura de contato substituto com o mundo exterior. Diversos comportamentos como compulsão à ordem, distanciamento aristocrático, submissão passiva, simpatia sedutora, frieza racional podem se tornar barreiras intransponíveis para os afetos e ainda assim serem vistos como qualidades da personalidade dentro do ambiente social. Isto faz com que a couraça do caráter muitas vezes não seja percebida como patológica até que sua limitação ao funcionamento saudável se manifeste na forma de sintomas. Permite também que ela se perpetue na cultura sem que cause estranheza, nem suscite ações no sentido de eliminá-la ou evitá-la.

A análise do caráter propiciou, no entanto, que se compreenda a diferença entre uma atitude ligada a um funcionamento vital saudável, que representa um contato genuíno, e um comportamento encouraçado. Este se constitui como uma substituição, uma compensação, já que a forma original de contato foi bloqueada pela repressão às pulsões primárias. “... o contato substituto que o homem estabelece é meramente a expressão de um acordo entre a vontade de viver e o medo da vida socialmente induzido” (REICH, 1933/1990a, p. 327). O traço de caráter neurótico se caracteriza por sua cronicidade, inevitabilidade e motivação inconsciente, enquanto a conduta resultante do funcionamento saudável tem motivação racional fundada na realidade, é flexível e pode ser evitada se outra forma de agir se mostrar mais adequada.

Do ponto de vista estrutural, o caráter neurótico se divide em três camadas, ou estratos. A mais superficial é a dos comportamentos conscientes, os traços do caráter que podem ser percebidos no convívio; o estrato social, com o qual o indivíduo está em contato e pelo qual ele é imediatamente reconhecido. A camada secundária é aquela que conserva todos os comportamentos agressivos que surgiram como reação à frustração e tiveram que ser reprimidos; é o domínio do Diabo (REICH, 1949/2003), das perversões, da destrutividade e dos impulsos antissociais. Só abaixo da faixa intermediária, no estrato mais profundo da personalidade encontraremos as pulsões primárias, o cerne biológico, dirigido para a vida, para o amor, o prazer, o trabalho e o conhecimento.

A eliminação pura e simples das atitudes superficiais faz surgir os sentimentos pervertidos da camada intermediária. Isto implica em uma dificuldade considerável para qualquer proposta de remoção da couraça. Antes de entrar em contato com os sentimentos primários dirigidos para o amor e o crescimento, os indivíduos encouraçados se conectam com o ódio, o sadismo e a perversão. Qualquer proposta terapêutica, pedagógica ou sociológica de mudança dessa situação tem que levar em conta a irrupção da destrutividade secundária.

A maior proximidade com a consciência da camada intermediária explica também o porquê da construção de uma autoimagem tão negativa por parte do homem. Ao entrar em contato com seus afetos mais profundos a pessoa encouraçada vislumbra muito mais os seus sentimentos negativos do que aqueles fundados na vida. Seu mundo se torna um mundo complexo de ódios e sadismo que precisam ser refreados por regras e policiamento. “É a partir de sua própria fonte de impulsos secundários que ela [a sociedade] cria as regras e os costumes éticos contra esses impulsos” (REICH, 1949/2003, p. 79).

Do ponto de vista econômico, o caráter consome a energia sexual que é a fonte da angústia, aliviando assim a pressão sobre o Ego.

Em seu artigo As fontes da angústia neurótica (1926/1955), Reich faz uma extensa discussão sobre causas da angústia de acordo com as diferentes hipóteses apresentadas por diversos psicanalistas. Referindo-se a um artigo de Freud (1895/1976h): Sobre os critérios

para destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada "neurose de angústia",

afirma ter sido Freud o primeiro a demonstrar que a abstinência sexual ou a gratificação inadequada são fontes de angústia. De fato, em sua XXVª Conferência introdutória (1917/1976d), Freud associa diretamente a angústia neurótica à falta de satisfação libidinal

quando afirma que “para a média dos seres humanos, permanece a verdade de que a ansiedade tem estreita vinculação com a limitação sexual” (FREUD, 1917/1976d, p. 469)9.

Reich (1926/1955) em seu artigo destaca ainda a diferenciação feita por Freud entre angústia atual, causada por um impedimento temporário da gratificação e que desaparece assim que a descarga adequada é restabelecida, e a angústia neurótica, que tem como mecanismo central a incapacidade do ego moral de suprimir a excitação libidinal. Entretanto, conclui que no núcleo de toda angústia neurótica há uma angústia atual, já que a falta de descarga é que alimenta a estase da libido. Descartando as demais teses por meio de argumentos clínicos, Reich termina por estabelecer que a fonte da angústia neurótica e, portanto, a fonte dos sintomas é a energia sexual contida – seja pelo recalque, seja por hábitos não saudáveis como o coito interrompido – que não encontra descarga eficiente.

Desenvolvendo suas pesquisas sobre a origem da angústia e sobre a cura definitiva de sintomas, Reich (1975b) concluirá que uma vida sexual satisfatória com boa descarga obtida na relação sexual, isto é, a potência orgástica, é a única forma capaz de subtrair da neurose a energia represada10. Ele considera que suas conclusões são a continuidade mais coerente para as descobertas de Freud e que nada mais fez do que segui-las de forma sistemática e consequente. Ainda assim, suas ideias vinculando a neurose à impotência orgástica são aceitas por apenas uma parcela de seus colegas enquanto são fortemente combatidas por aqueles que não concordam com o papel preponderante, por ele atribuído, à insatisfação sexual na etiologia das neuroses. De qualquer maneira, o exame da estase libidinal e da economia energética do indivíduo passa a ser o centro das preocupações reichianas, sendo o restabelecimento da capacidade de descarga o objetivo máximo de seus esforços terapêuticos.

9 Evidentemente, Reich toma como referência para sua discussão da angústia neurótica a noção

freudiana de angústia desenvolvida nos primeiros anos da psicanálise. A partir do surgimento de sua segunda tópica e da introdução do conflito entre Eros e Thanatos (pulsão de morte), Freud reformula sua teoria da angústia. No artigo Inibição, sintoma e ansiedade (1926/1976b), esta é conectada aos aspectos de repetição e de trauma, além de ter acentuada sua função simbólica, ligada ao Ego. Na primeira acepção, utilizada por Reich, a angústia aparece tendo como etiologia principal a tensão sexual não descarregada.

10 Para uma discussão detalhada do papel da potência orgástica na boa economia energética sexual do

organismo ver os artigos: Sobre a genitalidade do ponto de vista psicanalítico (REICH, 1924/1975b) e

Observações complementares sobre a importância terapêutica da libido genital (REICH, 1925/1975b). Também,

o livro: Genitalidade na teoria e terapia da neurose (REICH, 1927/1980a) E ainda, o capítulo: “O desenvolvimento da teoria do orgasmo” de A função do orgasmo (REICH, 1942/1975a, p. 80-106).

Quanto à energia consumida pelo caráter, embora sirva para reduzir a angústia, não é suficiente para manter uma boa economia energética no organismo uma vez que esta depende da gratificação direta pelo orgasmo genital. No caso do caráter neurótico, a própria couraça impedirá a descarga orgástica. Assim, mais cedo ou mais tarde a estase energética se manifestará em angústia ou sintomas neuróticos.

A couraça do caráter neurótico, portanto, é a base estrutural sobre a qual se assentam os sintomas. Mesmo que estes não tenham se manifestado ainda, todo indivíduo encouraçado é um neurótico em potencial. Já nas neuroses manifestas há sempre uma couraça na base dos sintomas que se apresentam. “Uma personalidade cuja estrutura de caráter impede o estabelecimento de uma regulação econômico-sexual da energia é a precondição de uma doença neurótica posterior” (REICH, 1933/1990a, p. 159).

Para Reich, os sintomas são apenas a ponta do iceberg. A couraça do caráter está na base e é o verdadeiro mecanismo patológico por trás da neurose. A análise focada apenas nos sintomas pode aliviá-los, mas como não mexe na estrutura da couraça, não é capaz de assegurar a flexibilização do caráter e a liberação dos processos de descarga energética adequados. “Nós dizemos que um caráter é ‘neurótico’ quando seu organismo é governado por uma couraça tão inflexível que ele não pode voluntariamente mudá-la ou eliminá-la” (REICH, 1933/1990a, p. 363). Só a análise do caráter agirá diretamente sobre a estrutura crônica e garantirá o estabelecimento da potência orgástica.

Embora tenha um funcionamento autônomo e sempre presente, a couraça está longe de ser um mecanismo estável. “Uma vez que frequentemente o caráter neurótico reprimiu profundamente sua irracionalidade, ele é forçado a mantê-la constantemente sob controle” (REICH, 1933/1990a, p. 513). Por se tratar de uma função do Ego que se coloca entre a pressão do Id e o mundo exterior, está sempre suscetível aos estímulos internos e externos. De fato, o encouraçamento é um processo em equilíbrio sempre precário. Qualquer aumento da pressão interna ou excitação provinda de situações externas pode desestabilizá-lo. Isto exige, por parte do Ego, constante vigilância e ações de compensação.

Mais será dito sobre isto na discussão da Peste Emocional que se fará adiante. Por ora, é importante notar que embora a couraça tenha uma qualidade de cronicidade e pertinácia na maneira com que apresenta repetidamente os mesmos comportamentos, ela é uma função dinâmica, exigindo para sua manutenção por parte do Ego, constantemente, um intenso esforço e uma tenaz adaptação, normalmente inconscientes.

Na verdade, é preciso lembrar que o encouraçamento é uma função viva e como tal não pode ser compreendido em termos mecânicos de oposição pura à flexibilidade de um Ego saudável.

Para uma compreensão mais adequada do mecanismo de encouraçamento do caráter, Reich (REICH, 1933/1990a) procurou distinguir e descrever o caráter neurótico crônico do caráter genital flexível como forma de separar os processos patológicos do funcionamento saudável. O primeiro seria constituído por recalques, regressões e identificações que serviriam para proteção e defesa contra a angústia e seria a base para o surgimento de sintomas, portanto, para a neurose. Já o segundo seria o resultado de uma dinâmica mais saudável em um indivíduo que, atingindo o estágio genital em seu desenvolvimento libidinal, consegue estabelecer uma estrutura capaz de boa descarga, com uma economia energética sexual equilibrada, isto é, potência orgástica.

No entanto, ele ressalta que esses dois modelos não existem de forma pura, mas sempre em estados de transição. Ninguém é absolutamente saudável com um Ego capaz de funcionar sempre de forma maleável encarando cada situação diferenciadamente, em acordo com a intermediação necessária. Por outro lado, mesmo no indivíduo mais encouraçado algumas funções do Ego devem estar trabalhando com alguma flexibilidade sob pena de que ele não possa simplesmente sobreviver.