Na visão agostiniana, o fato de se compreender as palavras como nomes das coisas implica conceder à definição ostensiva um papel central na explicação do significado das palavras, chegando a ser considerada a forma fundamental de explicação ou até mesmo o fundamento da linguagem. Esta é uma concepção problemática, que aparece quando se passa a acreditar que o objeto nomeado é o “significado” da palavra e se promove uma generalização da idéia para todas as palavras, ou seja, todas as palavras devem ser compreendidas como nome de alguma coisa, e esta coisa tem de poder ser apontada no momento em que se é indagado acerca do significado da palavra. Esta é a concepção que está por trás do atomismo lógico do Tractatus, com a qual Wittgenstein pensou resolver o problema da relação entre a linguagem e a realidade e que depois considera como uma das maiores fontes de erro e de confusões filosóficas.
O problema que surge dessa consideração da significação é quando se passa a investigar palavras como linguagem, proposição, significado tendo aquela noção de significação como parâmetro. Ao fazer isso, buscamos uma resposta no sentido de uma explicação que se expressa na forma “A palavra... significa...”. E assim passamos a acreditar que a palavra significado deve ter como correlato um objeto que possa ser identificado e apontado.
Nas Investigações, ao estabelecer que o significado das palavras é o seu uso na linguagem, Wittgenstein rejeita a definição ostensiva como modelo privilegiado de explicação do significado e afirma que a explicação do significado deve ser buscada no uso das palavras, nos jogos de linguagem em que estão inseridas, descrevendo sua gramática, que aqui deve ser compreendida como algo mais amplo que “a gramática que se aprende na escola primária, mas que designa o conjunto de regras que condicionam um discurso significativo”. (SCMITZ, 2004, p. 149). As explicações, em sua correlação com o significado,
funcionam como respostas a pedidos de esclarecimento acerca do significado das palavras, explicitando as regras que determinam o modo correto de uso das palavras.
No parágrafo 560 das Investigações, Wittgenstein diz: “‘a significação da palavra é o que explica a explicação da significação’. Isto é, se você quer compreender o uso da palavra ‘significação’ então verifique o que se chama ‘explicação da significação’”. Com esta formulação, é possível superar a tendência a buscar qualquer tipo de “essência” do significado, uma entidade qualquer que pudesse preencher esse requisito. Os pedidos de explicação e as conseqüentes explicações que são dadas mostram que o significado não é um conceito rigidamente determinado, que possa ser explicado por meio de uma definição analítica; o significado deve ser buscado numa investigação acerca do modo como uma palavra é explicada.
A explicação assim compreendida está estreitamente relacionada ao conceito de ensino da linguagem, pois quando se ensina a alguém o significado de uma palavra o que se faz é dar explicações acerca de seu significado, esclarecendo o modo de emprego da palavra e as regras que regulam seu uso. Em outras palavras, ensinar o significado de uma palavra é dar explicações sobre como essa palavra é usada, é mostrar, descrever àquele que aprende como funciona o jogo de linguagem.
Dizer que o significado é aquilo que é dado em uma explicação do significado, evitando pensá-lo como um nome ao qual um objeto deve corresponder, permite um retorno às práticas lingüísticas ordinárias, nas quais estão incluídas as próprias práticas de explicação do significado. São as práticas comuns, os acordos implícitos, as ações consensuais de uma comunidade lingüística que justificam as explicações de significado. É o “retorno ao solo áspero” de que fala Wittgenstein, com isso enfatizando que o significado da linguagem deve ser buscado lá onde tem origem e se desenvolve o uso das palavras: os jogos de linguagem.
Com isso também é possível superar outra idéia cara à tradição, de que a compreensão lingüística envolve um elemento psicológico, ou seja, de que a
compreensão é alguma espécie de atividade ou processo mental. Como vimos, de acordo com a “visão agostiniana”, o significado de uma palavra acontece na correlação da mesma com um objeto. Mas como se dá essa correlação? A resposta é que a associação de uma palavra com um objeto específico acontece mentalmente, envolve a intenção de que a palavra seja compreendida de um modo particular, em que se expressa qual a associação que se pretende. Aceita- se que o conteúdo da compreensão esteja dado na mente, ou que a compreensão consiste na associação mental da palavra com um objeto determinado, formando uma imagem na mente, que passa a ser considerada o significado da palavra.
Mas, nos diz Wittgenstein, o significado está correlacionado com a explicação bem como com a compreensão lingüística. Se por um lado o significado de uma palavra é o que é explicado numa explicação, por outro lado a compreensão do significado é aquilo que se compreende quando se compreende sua explicação. Com esta formulação do conceito de compreensão, Wittgenstein pretende superar a idéia de que existem certos processos, eventos ou estados, sejam de natureza física ou mental, que constituem e explicam o funcionamento da linguagem, por exemplo, a idéia de que a relação entre o nome e a coisa nomeada deva acontecer através de um processo de associação desencadeado na mente; pois, se assim fosse, a compreensão deveria ser concebida como um processo mental ao qual somente a própria pessoa pode ter acesso, estando oculto para os outros. Isso implica que não haveria nenhuma garantia de que o significado pudesse ser intersubjetivamente compreendido ou, dito de outro modo, nenhuma garantia haveria para se afirmar que o que uma pessoa compreende é o mesmo que compreende outra pessoa, que o significado de uma palavra seja o mesmo para todas as pessoas. A postura mentalista entende que a linguagem serve para a expressão do pensamento, que a função das palavras é nomear as idéias, que só são acessíveis ao próprio sujeito14, o que tem como conseqüência que a linguagem na qual se expressam as idéias é uma linguagem privada, o que implica que apenas o falante sabe o exato significado das palavras que utiliza.
14 “Paralelo enganador: o grito, uma expressão da dor – a frase, uma expressão do pensamento!
Como se a finalidade da frase fosse levar alguém a saber como o outro se sente: apenas, por assim dizer, do aparelho pensante, e não do estômago”. (IF, § 317).
Contra essa idéia, Wittgenstein afirma que significado, compreensão e explicação estão intrinsecamente ligados, com o que estabelece que a compreensão do significado lingüístico não se constitui por nenhum processo, evento ou estado mental. Antes, só se garante a objetividade do significado quando este seja entendido como publicamente acessível, o que leva a pensar a compreensão a partir de critérios públicos, intersubjetivamente acessíveis.
Se a compreensão é um correlato da explicação e do significado, da mesma maneira que a explicação e o significado revelam-se no uso que é feito das palavras nos jogos de linguagem, a compreensão evidencia-se na capacidade do falante em agir de acordo com o que se espera dele, em reagir de determinada maneira frente aos seus interlocutores e na capacidade de dar explicações do significado das palavras que utiliza. Compreender a regra que regula uma série é ser capaz de seguir a série corretamente de acordo com a regra; da mesma forma, compreender uma sentença, ou uma palavra, é ser capaz de usar esta sentença ou palavra corretamente, de acordo com a regra que regula seu uso.
Tudo isso remete a critérios que são publicamente acessíveis, evitando-se o inconveniente de pensar a compreensão como qualquer coisa parecida com um processo mental, interior e oculto. O significado é algo comum, público, acessível a todos os usuários da linguagem; compreender o significado é ter acesso ao que é compreendido pelos falantes de uma mesma linguagem. O critério de compreensão passa a ser a capacidade de usar corretamente as palavras de uma linguagem, o que significa estar em acordo com uma prática comum. Por outro lado, compreender uma expressão é ser capaz de dar uma explicação correta de seu uso, ser capaz de explicar como uma determinada palavra é utilizada em um jogo de linguagem.
Assim, pode-se substituir a pergunta acerca de qual o “significado” de uma palavra, que remete à idéia de que algo deve corresponder a ela, pelas perguntas acerca de como explicamos a palavra e acerca dos critérios utilizados para afirmar que compreendemos a palavra, remetendo ao uso, portanto, para as regras que condicionam o uso da palavra em uma dada situação de comunicação.