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Eu sou poeta pra mentir a mim mesmo. (Luiz) O menino-retardado que foi criado com ternura

Luiz nasceu no Rio Grande do Sul e é filho de pai e mãe poeta. Aos dez anos de idade, conta que a mãe recebeu o diagnóstico de que ele tinha idade mental e dicção de uma criança de cinco anos, o que o impediria de ser alfabetizado. Diante disso sua mãe, insistente, passou a alfabetizá-lo em casa, com poesia.

O laudo médico, encontrado pelo literato, em 2012, em uma das gavetas da casa da mãe relata:

“Luiz tem tido progressos sensíveis, embora seja com retardo psicomotor, conforme o exame em anexo. A fala, melhorando, não atingiu ainda a maturidade de cinco anos. Existe ainda hipotonia importante. Os reflexos são simétricos. Todo o quadro neurológico deriva de disfunção cerebral.”

Acerca do documento encontrado, o escritor diz:

Caí para trás. O médico informou que eu era retardado, deficiente, não fazia jus à mentalidade de minha idade. Recomendou tratamento, remédios e isolamento, já que não acompanharia colegas da faixa etária. Mas minha mãe rejeitou qualquer medicamento que consumasse a deficiência, qualquer internação que confirmasse o veredito. Poderia ter sido considerada negligente na época, mas preferiu minha caligrafia imperfeita aos riscos definitivos do eletroencefalograma. Enfrentou a opinião de especialistas, não vendeu a alma a prazo. Ela me manteve no convívio escolar, criou jogos para me divertir com as palavras e dedicou suas tardes a aperfeiçoar minha dicção. Sou um produto, sou o resultado de uma mãe que não admitiu o diagnóstico, que não admitiu o resultado de que eu era retardado mental. E hoje estou aqui, com diversas atividades e, pra mim, é uma pequena vitória pessoal. Como é bom ser socorrido.

Conforme exposto pelo escritor, foi sua mãe que o estimulou e educou. Ela, ao não aceitar o diagnóstico médico, possibilitou que Luiz superasse a personagem do menino retardado e criasse uma nova personagem, uma nova forma de ver o mundo.

O autor continua:

Eu não era repreendido de uma forma direta, “não faça”, eu recebia uma parábola, pra entender porque não fazer.

De retardado a poeta ganhador de diversos prêmios, verificamos que a personagem menino-retardado foi superada, a partir da aprendizagem considerada pelo escritor como “aprendizagem através do afeto”.

Luiz passa cria diversos personagens que irão possibilitar o abandona da personagem menino-retardado e consiga, desta forma, novos papéis.

O adolescente-cruz-credo-isolado

O jovem colecionava apelidos maldosos em sua infância e adolescência por conta de suas características físicas e, por isso, não era muito popular. Tinha dificuldades de relacionamento.

O autor assinala que era difícil conviver com os colegas, pois enquanto as outras crianças brincavam no recreio, ele não tinha coragem de sair da sala e ficava aperfeiçoando seus desenhos:

Os meninos matavam gatos e passarinhos com estilingue, mas eu não tinha coragem e me dedicava a enterrar os animais. Algumas das obras do escritor retratam, de forma peculiar e criativa, alguns dos momentos e sentimentos vivenciados pelo autor4.

Esta personagem é superada, segundo Luiz, a partir do momento em que ele aprende a conviver com as próprias dificuldades e a se divertir com a estranheza que provocava. Supera a timidez, e adota um visual nada discreto.

O pai-precoce-guardador-do-amor

Luiz foi pai muito jovem, pois hoje, aos 39 anos tem uma filha de 19 e um filho de 7. Algum tempo após o divórcio conseguiu a guarda compartilhada (pois as mães moram em outras cidades e Estados) e atualmente tem a guarda dos dois.

A personagem pai-precoce-guardador-do-amor é uma das preferidas do autor que vive discutindo em suas obras a importância da paternidade, a relevância da simplicidade dos gestos, vivências e convivências familiares.

Segundo o autor, ter ficado com a guarda dos filhos foi uma maneira de evitar a culpa, uma vez que, sendo filho de pais separados, vivia cobrando a mãe pela ausência do pai:

Hoje eu vejo que ela fez o melhor que podia. Ter a guarda do meu filho é um jeito de não culpar. Porque a gente gosta de culpar. Eu lembro que eu culpava a minha mãe porque eu recebia o marido pela minha mãe e não o meu pai. E eu questionava ela: Bah, porque você não deixou eu me aproximar do meu pai? Ela fez o que podia.

E completa dizendo que ser pai é a melhor coisa que existe:

Ser pai é um dos melhores motivos de estar vivo. Sentir o cheiro do pescoço dos seus filhos... O afeto é impagável. A paternidade é a ansiedade de estar esperando... Algo delicado, assim como puxar o fio de uma meia. Não tem como reconstruir.

Luiz, mesmo com uma agenda lotada, se preocupa em ser um pai presente e quando está viajando pelo país, telefona para conversar com os filhos. Uma personagem que ele representa na atualidade.

O poeta-professor-inspirador-do-abraço

Luiz conta que uma de suas atividades foi lecionar. Para isto, se especializou, cursou o mestrado. Foi professor durante seis anos.

(Quantos autores você conseguiu formar?) Não sei por que eu acho que a gente pode inspirar. Nem eu consigo me formar. A

gente tem que inspirar a se deformar. O estilo é aquilo que você não consegue mudar em você.

A gente pode provocar com a ternura, provocar com o beijo, provocar com o abraço. O professor dentro da sala de aula provocando com o abraço já muda tudo.

Embora apaixonado pela atividade, Luiz, por conta do poeta-artista, precisou deixar o papel e também a personagem, ainda que temporariamente. Por conta da agenda, não consegue atender às necessidades que a atividade solicita. Não tem feito nem mesmo oficinas poéticas.

O poeta-artesão-que-descobre-em-si-o-outro

Luiz conta que sua literatura deriva da aprendizagem que teve com a asma:

Eu tenho versos curtos como a minha asma. Eu tenho asma. E a minha professora foi a asma. Ela me ensinou a escrever e a ler. Fazer as coisas pela metade é meu modo de terminá-las. Diz que é influenciável até pelo que não foi escrito:

A minha poesia é feita do inverno do Rio Grande do Sul, da falha, da calçada, desse jeito de conversar, de saber as notícias mais pelas pessoas do que pelos jornais.

Alega que escreve porque descobriu no medo sua coragem:

Sempre ouvi dizer que as pessoas mais tímidas, as que tinham medo de falar, iam pegar seus diários, seus cadernos e escrever. Mas eu percebi que a maior coragem não é falar pras pessoas, porque escrever é para falar pra várias pessoas. Então, aquilo que me diziam que era medo, que eu escrevia por medo de falar, era na verdade uma coragem maior, que só o medo produz.

Relata que escreve para si. Quer dizer, para todos que estão internalizados nele:

Ah, eu acho que o escritor escreve pra si no passado ou pra si no futuro. É a melhor forma de encontrar o leitor, é uma carta

que tá mandando pra outro, o outro que já foi tu, o outro que vai ser tu. Esse é o leitor, essa é a minha indicação.

(E o objetivo é transformar a si mesmo?) Exato, só pode assim, eu acho eu tu não tá enviado no mundo pro leitor não estarrecer, o leitor tá em mim, eu converso, por exemplo, eu converso com o meu zelador, eu vou tá conversando com o fruteiro, eu vou tá conversando com a manicure, eu vou tá conversando com todo mundo, entendeu? Eu tô internalizando o leitor já em mim. Eu sou todos os que eu falo, em mim.

Em nossa entrevista, Luiz diz que é necessário:

tumultuar o senso comum, eu não gosto dessa preguiça que existe de falar, acho que a gente tem um dicionário que é a nossa loja de vocábulos, todo mundo tem dicionário de graça, a gente pode escolher qualquer palavra, a gente tem que escolher a palavra que nós somos. Não pode ser qualquer uma, tem que ser a exata.

Assim, o escritor salienta a importância de bem utilizar a palavra, as técnicas, a pausa, o estilo. Diz que a poesia não deve ser isolada, mas compartilhada.

O poeta-que-sempre-foi-poeta

Luiz nos conta que, por ser de uma família de escritores, cresceu imerso à poesia:

Eu sou de uma família de escritores, então, o meu pai e minha mãe traficaram literatura no almoço, na janta, no lanche, no banho... Em casa não tinha álbum de fotos: meus pais colocavam nossas fotos dentro dos livros; nós procurávamos as nossas fotos pela biblioteca e quando encontrávamos, líamos a pagina onde estava a foto para entender porque ela estava lá. Eles escolhiam aleatoriamente, mas sempre fazia sentido.

Eu não tinha como fugir do meu legado. Eu sempre fui muito torto, muito excluído, eu ia me vingar em algum lugar e foi na literatura.

Sempre fui poeta. Foi crescendo em mim, pelo avesso, pela inversão, e desde criança eu tinha essa questão da fábula, da parábola...

Eu entrei na literatura, na poesia, de uma forma aleatória, acidental, porque aquilo que a gente tem fome, que a gente tem necessidade, a gente nem sabe como começou. Então eu não sei como eu comecei na literatura, talvez eu tenha começado no ventre da minha mãe, talvez eu tenha começado muito antes. Eu comecei na literatura por fome, por necessidade, por não saber fazer nada diferente, por uma incompetência de ser uma coisa só. Eu quero ser todas as coisas de uma maneira incompleta, de uma maneira inacabada.

O desejo de Luiz em se tornar vários vai influenciar sua forma de escrever e de se relacionar com o leitor. Veremos esta característica mais evidentemente na personagem o poeta-artesão-que-descobre-em-si-o-outro.

O poeta-artista-que-faz-da-poesia-um-gesto

Há aproximadamente dez anos, Luiz passou a se vestir com roupas extravagantes e diferentes das convencionalmente utilizadas, entretanto o autor justifica:

Ah, eu duvido que qualquer pessoa fique com o mesmo visual sempre. A única diferença é que eu tenho bom gosto, chamo mais atenção – risos. É da moda chamar atenção, a moda é como um poema. Não consigo ver a poesia como um amuleto eu vejo a poesia como um gesto...

Eu acho que eu sou aquele amigo imaginário, que se tornou adulto, é isso, não tenho outra explicação. Tu não cria um personagem que já não esteja em ti, né? E é aquela coisa, parece que é uma coisa falsa, mas não é uma coisa falsa. Já estava aqui.

Esta personagem tem projetado o artista nas mídias, provocando a atenção e gerando leitores e expectadores. Luiz brinca com acessórios, cores e estampas, a fim de levar a poesia, desde a sua cabeça até seus pés.

O jornalista-escritor-apresentador-lírico-poético

Atualmente, Luiz tem diversas atividades em sua agenda. É jornalista, apresentador, comentarista. Relata que já trabalhou em diferentes atividades como assessor de imprensa, professor, coordenador de curso, repórter. Entretanto, justifica:

Hoje é comunicação poética, eu faço sempre uma comunicação poética, não mais ligada ao jornalismo, sempre mais literárias... (...) eu acho que a crônica é um meio, uma maneira, uma forma poética e lírica que eu tô fazendo, um espaço para toda poesia em mim anterior, que é uma maneira de compreender, liricamente a vida, não é um momento, mas uma inversão poética. (...) Não consigo me imaginar fazendo algo que não seja poesia crônica.

O-poeta-que-serve-à-massa-o-biscoito-fino

Para o escritor, ser poeta no Brasil é resistência. A poesia tem um papel muito importante na vida das pessoas, é ela que possibilita o sentir:

A poesia é pra dizer tudo o que a gente poderia ter vivido. Eu gosto muito mais daquilo que eu não vivi, porque aquilo que eu não vivi também é uma forma de vivência. Aquilo que a gente imaginou é uma forma de vivência. Aquilo que a gente sondou é uma forma de vivência. E é importante que a imaginação seja também sua pele. Porque aquilo que não tem cicatriz a gente não encontra. Então, eu vejo o livro de poesia como uma cicatriz para as pessoas encontrarem onde está a sua alegria e onde está a sua dor.

Assim, para Luiz, a poesia deve ser compartilhada. O poeta não deve fabricar seus poemas como um coitado, isolado, recalcado. O autor acredita que é necessário que o poeta seja influente, legível. Vejamos seu relato:

Estamos cada vez mais afirmativos, mais intervencionistas no mundo, mais anárquicos, mais influentes. Ele está interessado em ser legível, não em ser complicado. Porque o bonito é ser compreendido e não perder o mistério.

Posso escrever muito bem sem um motivo, só que a questão não é escrever bem, é o quanto isso que se escreve se transforma, é ter veracidade naquilo que se escreve.

Sua literatura é direcionada ao público que busca a leitura da poesia no cotidiano, em que o autor, conforme Baudelarie (apud PERRONE-MOYSÉS, 1988), atua como aquele que vem evidenciar a vida aos que estão sempre com pressa.

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