Segundo as lideranças comunitárias, a violência doméstica, especificamente a física, é apenas uma das violências rotineiras e que, normalmente, ocorrem na comunidade. As demais violências são raramente nomeadas como tal.
Talvez em razão da formação e da participação em espaços coletivos, a violência é mais diretamente nomeada por esse grupo do que as outras mulheres em suas narrativas.
[...] As formas de violências são diversas (risos). A gente vive numa sociedade muito machista. Existe um padrão que a todo o momento é colocado para as mulheres. Que mulher é isso ou aquilo [...] é algo que fica no inconsciente da mulher. Isso de que a mulher é sexo frágil. É complicado julgar uma pessoa quando ela não tem direitos básicos assegurados. E as pessoas culpam muito as mulheres. Quando, na verdade, não tem estrutura. A gente está do lado do Morumbi, com padrões de vida e acesso totalmente diferentes. [...]. Violências psicológica, sexual e física – são diversas as formas de violência que a mulher da periferia sofre diariamente – ela é coagida sistematicamente (ELIZANDRA).
Elas se referem de forma recorrente às formas violências estrutural e simbólica, além da prática dos discursos em relação às expectativas do papel do homem e da mulher nas atribuições dos espaços público e privado, sobre o desempenho dos papéis sociais e ideologia que incute um papel de submissão das mulheres aos desejos de outro. Compreendem a violência como a relação de dominação – que é sócio-histórica – é sempre afirmada como uma diferença da ordem natural, representação da inferioridade do corpo e da mente feminina.
[...] pensando em Paraisópolis, 90% da população é composta de nordestinos, e a gente sabe que a cultura do nordestino é muito machista. Uma cultura que aflige diretamente as mulheres. Essa ideia tradicional – da mulher como dona de casa e mãe e o homem provedor – é muito forte. A gente vê isso aqui nos cursos, as mulheres desistem de fazer o curso porque os homens não deixam. [...]. Nós entendemos que esse é um tipo de violência psicológica. Fica uma coisa assim: Eu sou seu dono, eu digo o que você pode e não pode fazer. [...]. É um sentimento de
41 Para efeito da pesquisa empírica, foi realizada entrevista em grupo com lideranças comunitárias da Associação de Mulheres de Paraisópolis. Ver Capítulo III – Cotidiano, Luta e Resistência.
posse mesmo. A mulher é sexo frágil, porque isso é bom para o sistema (Rejane, liderança comunitária).
Identificam a violência estrutural como um dos elementos que dão sustentação às diversas formas de violação de direitos.
Paraisópolis é vítima da falta de atendimento nos serviços públicos básicos que atingem principalmente as mulheres. Vítimas das dificuldades da comunidade, mas também vítima de tudo. Quando não se tem uma educação de qualidade para as mulheres, tudo fica difícil. [...] A gente limita as mulheres quando não dá condições de ela se desenvolver. Ela é a pessoa que mais se prejudica quando não tem investimento na questão social. [...]. Por exemplo, a falta de creche que impede a mulher de trabalhar, estudar e se qualificar. Quando tira isso, você está violando o direito da mulher. Porque toda mulher tem o direito de ser mãe e em qualquer momento. E o Estado tem que dar condições para isso. Uma das maiores violências é a falta de política pública para as mulheres. [...] para ser mãe, ela precisa abrir mão de si como mulher e de sua vida pessoal, porque dedica 100% da vida aos filhos. [...]. Política pública é a base (Rejane, liderança comunitária).
Na discussão sobre questões relacionadas ao risco e à vulnerabilidade da violência e exploração sexual na comunidade observa-se dificuldade de se falar no tema. Quando perguntado, as lideranças ficaram em silêncio, com comunicação por meio de olhares. Até que uma delas teve a iniciativa de falar:
Lá perto de casa, quando eu mudei para cá [...]. Eu fui vendo essas crianças crescendo por ali. Elas pediam dinheiro, minha cunhada dava comida. Elas comiam e iam embora. E uma delas, nem bem cresceu direito, todos os dias à tarde se arrumava e no final de tarde uma mulher adulta vinha buscá-la. Eu observava que até sutiã ela colocava na menina sem peito. [...]. Mas, engraçado que ninguém falava nada. Tinha medo. Ninguém falava sobre esse assunto. Cada um entra na sua casa e não vê mais nada. Todos os dias, essa mulher, que não era vizinha, vinha buscar a menina. Isso aconteceu durante anos, até que aconteceu da menina engravidar. Ela tinha no máximo 10 anos. Até que deu uma grande confusão com o vizinho da frente, porque ela precisou chamar os manos para ele, por que ele tentou mexer com ela. E aí se desfez todo o negócio (TEREZINHA, liderança comunitária). Elas entendem que a violência sexual, que não deixa de ser física e psicológica, atravessa a vida, ocasionando repercussões na saúde, na forma de ser como mulher e, inclusive, na forma como se relaciona com as outras formas de violência. A banalização e o pacto de silêncio, em relação a esse tipo de violência, é bastante comum no cotidiano da comunidade, especialmente nas falas em grupo, nos fóruns de articulação comunitária, entre outros.
Na forma de exploração sexual, as situações de risco e vulnerabilidade, como parte do cotidiano da comunidade, ocorrem às vezes de maneira mais explícita, por vezes de maneira mais velada, com a pactuação e o silêncio de vizinhos e familiares, muitas vezes por medo, outras por uma ideia do senso comum de que as meninas são “sem-vergonha”, fáceis, etc.
Temos um problema, hoje, que é o jovem da “ostentação”, e isso é um problema muito grave, porque você deixa de oferecer o que eles precisam de fato [...]. Os pais não conseguem dar o que os filhos querem. Hoje, para fazer parte dos grupos, precisa ter a calça e o sapato da marca tal. [...] Disputamos muito os nossos jovens com as coisas ruins e materiais. Então, quando você não tem... [...]. E quando chegam essas propostas indecentes, as adolescentes acabam indo mesmo. Às vezes, ela resiste. Mas, até quando consegue resistir?[...]. Também tem muito julgamento. Às vezes, as pessoas veem a menina fazendo isso e dizem: por que ela é “periguete”42. Então, entra o moralismo. E você fica numa situação de que ela está
indo porque gosta. Então, parece que não é violência. E não é bem por aí. Se você pegar a situação das meninas de Paraisópolis, em relação à sexualidade, realmente as pessoas têm mais informações, mas tem o desejo de independência, sai de casa e engravida muito cedo... A gente achava, por muito tempo, que esse era o maior problema. Mas, hoje, estamos perdendo os jovens para coisas muito piores. Aqui em Paraisópolis, temos lugares que são verdadeiras cracolândias. No grotinho, lá em outras regiões, está virando uma cracolândia – 7h, 8h da manhã – meninas perdidas, sem dentes e tudo. E chega uma hora que não tem mais dinheiro para a droga (REJANE, liderança comunitária).
2.6 Considerações Gerais sobre as Diversas Formas de Expressão e Manifestação das