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A abordagem dos EUA frente à questão iraquiana já envolvia um ceticismo quanto à cooperação deste país, especialmente pela percepção do fato de Saddam Hussein ser um empecilho para a política externa da região, como vimos na declaração de Bush pai quanto ao desejo de mudança de regime. Neste espírito, além dos eventuais ataques a instalações militares deste país, do qual a operação Desert Fox é o maior exemplo, havia dentro do governo o interesse político de contribuir para a destituição de Saddam. Legislação aprovada pelo Congresso dos EUA em 1998, por exemplo, advoga como estratégia dos EUA a busca por uma mudança de regime, embora sem o recurso a instrumentos militares naquele momento35. Mas de uma maneira geral, predominava

34 United Nations Monitoring, Verification and Inspection Commission, da sigla em inglês. 35 US Congress. Iraq Liberation Act¸ 1998.

uma estratégia de contenção do Iraque como sendo suficiente para controlar sua suposta ameaça regional aos aliados dos EUA (HAASS, 2009).

Porém, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, em Nova York e na sede do Pentágono em Washington, que resultaram em mais de três mil vítimas no território continental dos EUA, contribuiu para uma percepção de vulnerabilidade nacional, acentuada pelo fato de que o final da Guerra Fria viu grande parte de sua população e dos analistas internacionais percebendo este país como a única superpotência (como vimos na primeira seção), desta forma contribuindo para a formação da ideia subjacente de invulnerabilidade, agora desmontada. Assim, o contexto estratégico sofre uma mudança significativa a partir de setembro de 2001, o que leva a uma reinterpretação das ameaças existentes no globo e sobre a responsabilidade e urgência dos EUA lidarem com elas.

A primeira resposta ao ataque terrorista foi o ataque militar ao Afeganistão em outubro de 2001, em busca das bases da Al-Qaeda e de suas lideranças, vistas como responsáveis pelo ataque de setembro, após um ultimato ao governo deste país não ter sido bem-sucedido. Num contexto de ampla comoção internacional com os ataques terroristas, a ação não recebe resistência quanto a sua legalidade e legitimidade, vista como baseada na prerrogativa de autodefesa, direito presente tanto na carta da ONU (artigo 51), como no estatuto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, artigo 5º) 36, esta última, inclusive, que seria mobilizada militarmente para o teatro de operações. Além destes fatos, Jones (2004) destaca que o fato da ONU ter estabelecido posteriormente a UNAMA (UN Assistance Mission in Afganisthan) no país como sendo um indicador de apoio tácito a ação dos EUA.

Mas o que é pertinente destacar desta guerra é que ela pode ter criado uma interpretação dos membros do governo dos EUA de que eles teriam amplo apoio para conduzir guerras contra inimigos que teriam o potencial de conduzir ataques no mesmo nível que o ataque às torres gêmeas, e que parece ter sido a leitura feita no contexto anterior a invasão do Iraque em 2003.

De qualquer forma, esta percepção de vulnerabilidade nacional contribuiu para a estruturação da chamada Guerra ao Terror. Esta como delineada por George W. Bush (2002b) em discurso sobre o Estado da União, no qual, além de especificar a

36 North Atlantic Treaty Organization (NATO). The North Atlantic Treaty. Disponível em:

determinação de utilizar de todos os recursos disponíveis para acabar com os grupos terroristas e seus centros de treinamento espalhados pelo globo, também delimitaria como inimigos a serem combatidos Estados que patrocinariam ou dariam espaço para a atuação a estes grupos, no que ficou conhecido como o chamado eixo do mal, consistindo do Irã, Coréia do Norte e Iraque, textualmente citados.

Esta resposta dos EUA para a ameaça do terrorismo se consolidou na chamada National Securtity Strategy (de setembro de 2002), que delimitou as alternativas e respostas disponíveis ao aparato de segurança do governo norte-americano a um contexto em mudança estratégica. Nela, destaca-se a percepção de que, pelo caráter imprevisível do terrorismo, combinado com os riscos das tecnologias bélicas modernas, especialmente as Armas de Destruição em Massa (ADMs), seria necessária a adoção de uma margem de manobra preemptiva, que consistiria na ideia de uma resposta antecipada a uma ameaça que não se apresenta claramente como um risco iminente, mas potencial, o que deixou espaço para críticas crescentes sobre o seu potencial arbitrário na determinação de ameaças.

Dentro deste contexto, argumenta Condoleeza Rice (que na época era assessora de Segurança Nacional do presidente George W. Bush), o 11 de setembro teria cristalizado a percepção de vulnerabilidade dos EUA, no sentido de que “hoje a América enfrenta uma “ameaça existencial” em sua segurança; uma ameaça tão grande quanto as que enfrentamos durante a Guerra Civil, a chamada ‘Guerra Boa’, ou a Guerra Fria” (2002/2003, grifo nosso, p.63). Sendo o terror e os estados patrocinadores deste ou de ADMs ameaças existenciais, caberia a nação se utilizar de todos os recursos disponíveis para reverter a ameaça subjacente.

Como argumentam Nasser e Teixeira (2007), é em essência uma doutrina de que permite a formulação e adoção de guerras preventivas, por oposição a uma preemptiva (onde existiriam evidências de um ataque iminente de um oponente), já que não existiriam evidências claras para detalharmos uma situação que necessite de uma resposta militar, sendo sua ocorrência ou não seria discricionária aos detentores do aparato de segurança de um Estado. Este arbítrio seria exemplo de uma percepção de prerrogativas especiais dos EUA no mundo.

Porém, mesmo neste cenário de uma autoridade colocada em si mesmo pelos EUA para atingir seus objetivos de segurança, a política externa dos EUA não deixaria de se apoiar na diplomacia, sendo o apoio internacional ao ataque contra o Afeganistão exemplo disto. Além do mais, a própria National Securtity Strategy (2002) fala de

fortalecer as alianças internacionais dos EUA e de trabalhar conjuntamente com a ONU para combater a ameaça terrorista e suas causas. Em seu extremo, a doutrina desenhada neste documento aponta que os EUA estariam dispostos a agir sozinhos, mas buscariam continuamente o apoio da comunidade internacional para garantir o fim da ameaça terrorista.

Uma ressalva importante, porém, é indicar que embora possamos falar da doutrina como eixo inspirador da política externa e segurança dos EUA, inclusive no que se refere à disposição desta nação de agir com aliados e a ONU ou unilateralmente, ela, na prática, não reflete como no caso concreto da guerra contra o Iraque este país lidou com o eixo de participação e influência na sua política externa, o que apenas reflete o caráter de guia deste tipo de documentação, sendo sua influência efetiva e concreta nas ações do governo diferente conforme o ponto a ser abordado do seu texto.

Portanto, dentro deste cenário de redefinições estratégicas, o regime de Saddam Hussein, com o seu histórico desabonador de desarmamento, além de suas supostas ligações com redes terroristas, seria uma ameaça internacional mais urgente do que avaliada anteriormente, e uma estratégia de contenção não seria mais suficiente para lidar com ela. Neste sentido, como indica o próprio Bush filho (2010), já em novembro de 2001 houve uma revisão dos planos de guerra contra o Iraque, como alternativa a estar pronta para uso, sendo a principal divisão dos membros do governo quanto à necessidade de se recorrer a ONU ou não para obter autorização para este tipo de ação, o que guiou a postura diplomática dos EUA para o tema na segunda metade de 2002.

4.4 Os EUA na busca por convencer a ONU da alternativa militar para o