2.1 Conceito de jogo, brincadeira e brinquedo
Conceito de jogo/brincadeira:
Aludindo à origem da palavra, lúdico “lúdico tem sua origem na palavra latina
“ludus” que quer dizer “jogos” e “brincar” (Salomão e Martini, 2007:4).
Sabe-se, hoje, que a brincadeira não é de natureza biológica, “mas social,
respondendo à necessidade que as crianças têm, desde muito cedo, de comunicar-se e compartilhar de uma vida simbólica com os adultos e outras crianças” (MED, 1998:8).
Assim sendo, Brock et al. (2011) referem que, “[…] apesar da necessidade de
brincar ser universal, as formas que a brincadeira assume e o significado que lhe é conferido não o são. O modo como as crianças brincam, com o quê e com quem elas brincam varia de acordo com o seu contexto social, cultural e histórico. Aquilo o que é reconhecido como brincadeira em uma sociedade ou comunidade pode não ser reconhecido em outra” (Brock et al., 2011:61). De acordo com esta perspetiva, “não há uma maneira de se brincar, nem um significado apenas para a brincadeira” (Brock et
al., 2011:300).
A brincadeira/jogo pode ser difícil de definir. Muitos foram os estudiosos que o
tentaram fazer, contudo “ainda existem dificuldades na distinção entre as brincadeiras e
as outras atividades. Nós não temos critérios claramente definíveis, observáveis e universalmente aceitos para determinar se uma atividade é ou não brincadeira. Ela pode ser considerada assim em alguns ambientes e em alguns momentos, e não ser brincadeira em outros. Um método que os estudiosos da brincadeira têm usado para defini-la é determinar quando ela não ocorre” (Spodek e Saracho, 1998:210).
Nesse sentido, Reed e Brown (2000), esclarecem que brincadeira “é mais algo
que se “sente” em vez de algo “feito”” (Brock et al, 2011:27). Daí a dificuldade de a
Tendo em conta que o prazer é uma componente inseparável da brincadeira, esta
não ocorre “se a criança não experimenta prazer em realizar uma determinada atividade,
esta não será brincar mas um exercício, uma tarefa a executar ou uma obrigação a preencher” (Ferland, 2006:51).
É importante destacar que a brincadeira não é “apenas recordações do que veem
os adultos fazer, não reproduzem fielmente o sucedido na realidade. O que se verifica é uma transformação criadora do percecionado, para a formação de uma nova realidade que responda às exigências e inclinações da própria criança, ou seja, uma reinvenção da realidade” (Gomes, 2010:46).
A brincadeira também não ocorre quando é utilizada “como instrumento didático:
[…] o brincar é concebido como preparação para a escolaridade futura das crianças através da sua transformação em exercícios. […] esta atividade não é uma brincadeira,
pois o tema, os papéis e as ações das crianças foram definidas a priori e em função de objetivos prévios” (MED, 1998:9) definidos pelo adulto. Para uma atividade ser
considerada brincadeira é imprescindível que seja a criança a determinar e a controlar o conteúdo e o propósito das suas brincadeiras e que, consequentemente surja dos seus interesses, ideias, interesses e necessidades pessoais.
Segue-se a definição de brincadeira segundo diversos autores:
Para Landreth (1993) brincadeira “é a linguagem das crianças” (Marques,
2010:24); inicia-se “muito cedo e naturalmente, em que o controlo e a responsabilidade
são da criança, não sendo necessário ser ensinado” (Mata, 2010:31); “é um processo escolhido livremente, direcionado pessoalmente e motivado intrinsecamente” (Brock et
al., 2011:50); é, segundo Neto (1997) um processo que visa colmatar na criança “ a
necessidade de explorar o seu envolvimento físico e social sem constrangimentos”
(Marques, 2010:24); para Winnicott “não sendo só algo só “de dentro”, subjetivo,
interno, ou só “de fora”, objetivo, externo, mas se constituindo justamente num espaço potencial entre o mundo interno ou externo que justamente vão se formando” (Salomão
e Martini, 2007:13), “é para as crianças fonte de profunda satisfação, desafio, prazer e
recompensa” (Hohmann e Weikart, 2009:87); “não exige, como condição, um produto final, relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades e introduz no mundo imaginário” (Kishimoto, 2010:4); é “um ato de experimentar e fazer” (Brock et
al., 2011:59); é “uma atividade sociocultural: origina-se nos valores, hábitos e normas
de uma determinada comunidade ou grupo social” (MED, 1998:14); segundo Brougère,
“é o lugar da socialização, da administração da relação com outro, da apropriação da
cultura, do exercício da decisão e da invenção” (Wajskop, 1995:31); “é um tempo breve de explosão criativa em que a criança sozinha ou acompanhada, manipulando/transformando espaços-materiais e conteúdos culturais/sociais, repensa ativamente os seus conhecimentos sobre o real" (Ayres, 2001:123); “é um processo no qual as crianças trocam entre si suas dúvidas, angústias e hipóteses sobre os mais diferentes assuntos” (MED, 1998:14); propicia “a vivência plena do aqui – agora, integrando a ação, o pensamento e o sentimento” (Salomão e Martini, 2007:11); “é uma forma de entrar noutros mundos: de objetos, de pessoas, das ações que os objetos e pessoas em interação permitem” (Formosinho, 2011:49).
O jogo/brincadeira detém diversos elementos que o caracterizam: “capacidade de
absorver o participante de maneira intensa e total […]; envolvimento emocional; atmosfera de espontaneidade e criatividade; limitação de tempo: o jogo tem um estado inicial, um meio e um fim; isto é, tem um caracter dinâmico; possibilidade de repetição; limitação de espaço […]; existência de regras: cada jogo se processa de acordo com certas regras que determinam o que “vale” ou não dentro do mundo imaginário do jogo; “estimulação” da imaginação e autoafirmação e autonomia” (Salomão e Martini,
2007:8).
Segundo Cheristie (1995), e em jeito de conclusão, a brincadeira/jogo é um meio
importante de aprendizagem por ser “considerado trivial e inconsequente […]:ser
divertido, envolver faz-de-conta e ser focado na atividade e não nos resultados. […] Por fim, o facto de a criança se focar na atividade em si, e não nos resultados, torna os ambientes de aprendizagem de “baixo risco”, pois assim os erros não têm repercussões negativas” (Mata, 2010:31).
Catherine Garvey (1990) estabelece os seguintes pontos para a definição de brincadeira/jogo:
1. A brincadeira é prazerosa, divertida. Mesmo quando não for acompanhada de sinais de alegria, ela ainda é avaliada positivamente pelos envolvidos.
2. A brincadeira não tem objetivos externos. Suas motivações são intrínsecas e não buscam nenhum outro objetivo. Na verdade, ela é mais o disfrute dos meios do que um esforço no sentido de algum fim em particular. Em termos utilitários, ela é inerentemente improdutiva.
3. A brincadeira é espontânea e voluntária. Ela não é obrigatória, mas escolhida livremente pelos participantes.
4. A brincadeira requer algum envolvimento ativo dos participantes.
5. A brincadeira tem certas relações sistemáticas com o que não é brincadeira.”
(Spodek e Saracho, 1998:211).
Conceito de brinquedo:
Vale (2013) começa por definir brinquedo como “qualquer objeto que a criança
usa no ato de brincar” (Vale, 2013:13).
Assim sendo, “enquanto a brincadeira é uma atividade importante da infância, o
brinquedo é apenas o seu instrumento. Os dois não são sinónimos. O brinquedo não faz a brincadeira e a brincadeira nem sempre requer brinquedos. Todavia, o brinquedo revela-se […] um apoio para a brincadeira e é, muitas vezes, um mediador por excelência na interação com os outros” (Ferland, 2006:122).
Assim nessa perspetiva, Salomão e Martini (2007), citando Santos (1997), veem
o brinquedo como “objeto, suporte da brincadeira, supõe relação íntima com a criança,
seu nível de desenvolvimento e indeterminação quando ao uso, ou seja, a ausência de um sistema de regras que organize sua utilização” (Salomão e Martini, 2007:4).
Existem brinquedo manufaturados e os materiais de exploração aberta, que consistem em materiais do dia-a-dia (por exemplo, caixas de cartão, trapos, rolos de cartão, revistas, …). Estes materiais de exploração aberta são riquíssimos em possibilidades, pois “quanto mais polivalente for um brinquedo, tanto mais tempo a
criança se interessará por ele. De certa forma, um brinquedo polivalente cresce com ela e poderá utilizá-lo de maneiras diferentes ao longo do seu desenvolvimento” (Ferland,
Dodson propôs uma maneira para identificar um bom brinquedo. Segundo este,
“se 90% da brincadeira procede da criança e 10% do brinquedo, trata-se de um bom brinquedo. […] Este tipo de brinquedo encoraja a criança a usar as suas capacidades e a sua imaginação, e a descobrir várias funções para o material: é um brinquedo polivalente. ” (Ferland, 2006:123).
Contudo, não há como definir um bom brinquedo, “visto que deve ser apropriado
para a criança a que se destina e, como sabemos por experiência própria, cada uma é única e possui interesses próprios” (Ferland, 2006:126).
Os mesmos autores, apoiando-se em Amarilha (1997), referem que qualquer
“objeto, sons, movimentos, cores, figuras, pessoas, tudo pode virar brinquedo através de um processo de interação em que funcionam como alimentos que nutrem a atividade lúdica (Salomão e Martini, 2007:11), enriquecendo-a.
Assim, “o brinquedo tem uma grande importância no desenvolvimento da
criança, pois dá possibilidades de ocorrer a simbolização através dos objetos, sendo a pré-condição para o aparecimento do jogo dos papéis, e, estes se desenvolvem a partir das brincadeiras da criança levando a mesma a inserir ações em suas brincadeiras”