6. Resultater og analyse
6.2 Indirekte konsekvenser
Para Connerton (1999 apud Ramalhete, 2006), a memória individual é indissociável da memória social:
No que diz respeito, em particular, à memória social, constatamos que as imagens do passado legitimam geralmente uma ordem social presente. É uma regra implícita pressupor uma memória partilhada entre os participantes de qualquer ordem social. Se as memórias que têm do passado da sociedade divergem, os seus membros não podem partilhar experiências ou opiniões (CONNERTON, 1999:3 apud RAMALHETE, 2006:29).
Sob esta égide, a memória social dá sentido ao todo, fornecendo aos indivíduos referências para que eles possam interagir socialmente, aceitando o grupo e se reconhecendo nele. O patrimônio é, assim, o representante da memória das sociedades contemporâneas, “capaz de fornecer um suporte material de imagens essenciais a essa memória” (RAMALHETE, 2006:30).
Segundo Huyssen (2000 apud MARTINS E VIEIRA, 2007:7), “a emergência da memória é um dos fenômenos culturais e políticos mais característicos de fins do século XX”, pois a ausência de referentes de identidade, estabilidade e continuidade, em face ao fenômeno da globalização, produz um sentimento nostálgico em relação ao passado e abre caminho ao “desenvolvimento de uma indústria da nostalgia em que o passado é resgatado, idealizado, romantizado e não raras vezes inventado (...)” (HARVEY, 1989 apud ANICO, 2005:73).
Isso pode ser visualizado facilmente na indústria do turismo. Muitas vezes, em busca de turistas, os locais acabam por espetacularizar seus patrimônios no intuito de vendê-los como diferentes, incitando, assim, a visitação. Tal questão levanta uma discussão a respeito da autenticidade do que se procura preservar.
Neste caso, os monumentos não podem senão proporcionar processos de identificação circunstancial e efêmera entre os indivíduos, pois que as relações sociais que se estabelecem por seu intermédio perduram apenas enquanto se puder continuar a consumir o "objeto". Apesar da resistência ou do desconforto que isso possa provocar, o monumento histórico nas sociedades contemporâneas apresenta-se como simples objecto de consumo (FORTUNA, 1999:39).
Carlos e Cruz (1999:26) acreditam que “a indústria do turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo fictício e mistificado de lazer, ilusório, onde o espaço se transforma em cenário para o ‘espetáculo’ (...)”. Para Henning (2007), a espetacularização, ao deturpar o patrimônio para atender às configurações do consumidor (turista), muitas vezes reescreve a história intencionalmente, retirando as lembranças desagradáveis, reiterando glórias e embelezando-a, tornando, assim, o patrimônio inautêntico.
Neste contexto, podemos entender o inautêntico como a cópia ou reprodução e o autêntico como o original, como apresentado por Gonçalves, (1988). O mesmo autor cita Benjamin e o seu pensamento sobre a “aura” dos objetos, relacionada à autenticidade dos mesmos:
A "aura" de um objeto está associada a sua originalidade, a seu caráter único e a uma relação genuína com o passado. Benjamin reserva as noções de singularidade (uniqueness) e permanência para designar esses aspectos, em contraste com a reprodutibilidade e a transitoriedade dos objetos ‘não- auráticos’. Estes últimos, exatamente por serem reproduzidos e transitórios, não guardam qualquer relação orgânica e real com um passado pessoal ou coletivo (BENJAMIM apud GONÇALVES, 1988:265).
No âmbito do turismo, o conceito de autêntico está referido “à cultura tradicional e suas origens, associado à qualidade de genuíno e único” (BARRETTO, 2007:100 -101). Nessa perspectiva, para que uma comunidade seja considerada autêntica perante o turismo, deve manter os mesmos costumes, rituais, ferramentas e linguagem com que chegaram ao século XX. Autêntico, assim, seria sinônimo de “congelamento”. Outra questão relacionada à autenticidade é a comercialização. Tanto para Meethan (2003), quanto para Shepherd (2002) citados por Barretto (2007:100-101), quando um bem cultural se torna bem de consumo, automaticamente ele deixa de ser autêntico.
Para MacCannell (apud GETZ, 2001:426) o turista é a personificação da busca da autenticidade, pois é movido por conhecer outras culturas, modos de vida e locais autênticos. Contudo, o autor ressalta que esta mesma busca acaba por gerar uma “autenticidade encenada”, vulgarizada pela comercialização em torno do local para atrair os viajantes.
(...) A modernidade produz sentimentos de alienação e falta de autenticidade. Mas, produz, também, o desejo de escapar procurando algo que é real. (...) objetivo do turista é procurar, por trás dos bastidores, algo real para
experienciar (MACCANNEL, 1989 apud PISCITELLI, 2008:204).
Em torno da mesma questão, numa perspectiva pós-moderna, Cohen (1988), Van der Berghe (1993) e Hughes (1995) (apud GETZ, 2001:426-427) discordam de MacCannell (1989). Cohen (1988 apud GERTZ, 2001) cunha o termo “autenticidade emergente” ao considerar a autenticidade um conceito construído socialmente, já que, para o autor, as culturas são dinâmicas e se reinventam constantemente. A autenticidade, assim, é considerada o sucesso da farsa, já que a espetacularização pode passar a ser considerada autêntica pela sociedade local.
Culler (1981, apud BARRETTO, 2007:101), compartilhando da mesma visão, introduz o termo “autenticidade simbólica”, para traduzir a autenticidade atribuída pelos turistas a objetos que, mesmo que eles saibam que não são originais, são símbolos do local visitado. “Nessa categoria poderia entrar grande parte dos
souvenires que são industrializados, mas que tem um significado para os turistas,
que os legitimam como autênticos (...)” (BARRETTO, 2007:102). Quanto aos
souvenires, Freire-Medeiros e Castro (2007:51) acreditam que “o que muitos
com entusiasmo pelo turista que possivelmente irá exibi-lo como testemunho de sua viagem aos trópicos”.
Indagamos se a questão da autenticidade é relevante para a indústria do turismo. Henning (2007:112), acredita que não, já que
para o mercado, a criação, invenção, distorção ou reconstrução [do patrimônio cultural] são questões relativas – a questão principal não reside no objeto em si (...), mas sim nas relações econômicas entre agente promotor, o produto e o consumidor. A divulgação da cultura, embora princípio do turismo cultural, passa a ser considerada um valor secundário, uma “conseqüência” de uma eficaz transação econômica.
Sem dúvida, a problemática que envolve a autenticidade de um atrativo é complexa. Apesar das divergências que envolvem a questão patrimonial, sabemos que os bens culturais de uma localidade servem como base para a memória e identidade dos grupos sociais. Daí, a importância do debate acerca de sua preservação.