CHAPTER 5: OIL DEVELOPMENT AND INDIGENOUS PEOPLE’S LIVELIHOODS
5.5 Indigenous Peoples Dissatisfactions and Responses of the State and oil
Desde os primórdios do jornalismo brasileiro, no início do século XIX, observa-se a presença de autores que circulam entre a imprensa, a literatura e a dramaturgia. Eram os mesmos intelectuais, frequentemente os bacharéis em Direito, que faziam os jornais – e também escreviam peças teatrais, romances e folhetins. Escritores e dramaturgos como José de Alencar e Machado de Assis colaboravam para a imprensa, e não havia distinção clara entre gêneros jornalísticos e literários98.
Um fenômeno representativo dessas intersecções entre jornalismo e literatura é o
feuilleton ou folhetim, que surgiu na imprensa francesa, no início do século XIX, como um
espaço reservado no rez-de-chaussée, ou seja, o rodapé, em geral da primeira página, no qual se publicavam textos de linguagem e temática “mais leves” do que o restante do jornal, dedicado aos temas políticos e econômicos. O feuilleton era um espaço de estilo livre, colocado sob a rubrica de “variedades”. Podia incluir crítica literária e teatral, crônicas, contos, poesias, receitas, entre outros textos recreativos.
Na década de 1830, o jornalista francês Émile de Girardin passou a utilizar o folhetim para publicar narrativas de ficção seriadas, como uma forma de atrair leitores fiéis para o jornal. O primeiro romance a virar folhetim – e com sucesso – foi o Lazarillo de Tormes, em
97 MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro:
UFRJ, 2001.
98 SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira S. A.,
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1836. Em pouco tempo, o romance-folhetim foi conquistando espaço e se tornando o carro- chefe das vendagens dos jornais franceses.
A estratégia de publicar os romances em série para atrair o público exigia um tratamento especial da narrativa. O folhetinista precisava dominar a técnica do corte, interrompendo a ação entre um capítulo e outro de modo a gerar suspense. Assim como a mítica Sheherazade que, com suas narrativas, conseguiu manter o sultão Shahriar enleado por mil e uma noites e salvar sua vida, os autores de romance-folhetim desenvolveram criativas iscas para fisgar o olhar do crescente público dos jornais. Os folhetins sempre indicavam se haveria uma continuação no dia seguinte, e era comum iniciar com uma recapitulação de eventos passados (para conquistar o leitor que começa a ler a história pelo meio). Além dessa estrutura própria, a busca pela simpatia do público levou a uma simplificação na caracterização dos personagens, distribuídos de modo maniqueísta em heróis e vilões99, remontando às antigas formas de narrativas populares e ao modelo de Propp.
Pela temática e pela forma de narrar, o folhetim é irmão do melodrama, gênero teatral muito popular na França do início do século XIX. No melodrama, como no folhetim, as histórias se guiam pela disputa maniqueísta entre Bem e Mal, na qual um herói bom passa ser uma série de peripécias, nas quais tudo pode mudar em um instante, mas, graças ao auxílio da Divina Providência, tudo termina bem no final. A uma trama centrada no conflito entre anseios individuais e regras sociais, adiciona-se a estrutura narrativa de um gênero já consolidado no gosto popular100.
Suas histórias deveriam mobilizar questões de interesse comum através de uma forma consagrada – muita ação, diálogos vivos, personagens típicas e enredos que misturassem determinados ingredientes, importantes para a sociedade da época, como a luta pelo sucesso e pela ascensão social, desejo de justiça, realização afetiva e mistério. Além desses recursos temáticos que passam a caracterizar essa literatura jornalística, a sedução do leitor é obtida com o auxílio do gancho como elemento narrativo – a interrupção da ação no ponto de maior tensão, adiando-se o seu desfecho ou a satisfação das expectativas 101.
Meyer registra que o primeiro romance-folhetim publicado em jornal no Brasil foi O
capitão Paulo, de Alexandre Dumas, lançado aos capítulos pelo Jornal do Comércio a partir
de 31 de outubro de 1838. Em 1844, o Jornal do Comércio anunciou A Moreninha, de
99 MEYER, Marlyse. Folhetim – uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 31.
100 SOUSA JÚNIOR, Walter de. O jornal das oito: noticiário e melodrama no Jornal Nacional. Dissertação de
Mestrado. Sâo Paulo: ECA-USP, 2003, p. 60.
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Joaquim Manuel de Macedo, ao mesmo tempo em que se preparava para publicar folhetins franceses de sucesso, começando por Os mistérios de Paris e O judeu errante, de Eugène Sue. Marlyse Meyer registra que há um intercâmbio entre o folhetim, gênero literário- jornalístico, e o teatro. Folhetins como O judeu errante e Rocambole foram adaptados para teatro e apresentados com êxito no Brasil102. O folhetim se tornou generalizado na imprensa brasileira. Escritores brasileiros publicam folhetins em jornal, como fonte de renda e meio de ganhar nome junto ao público. Muitos destes folhetinistas foram também autores de teatro, como Aluísio de Azevedo, José de Alencar, Martins Pena. E, assim como se importava da França, também se importava bastante de Portugal, dispensando a tradução. Marlyse Meyer registra que, na segunda metade do século XIX, todos os grandes jornais do Brasil tinham o folhetim como um de seus atrativos – e não só a imprensa carioca, sediada na capital, mas também os veículos das capitais provincianas e cidades importantes do interior.
No entanto, nem todos esses “folhetins” se destinavam à publicação de romances- folhetim. Alguns jornais chamavam de folhetins textos que hoje seriam considerados crônicas ou mesmo notícias – os relatos de fait-divers, acontecimentos insólitos, envolvendo coincidências estranhas. Folhetim e fait-divers se aproximam e mesmo se hibridizam, gerando mesclas entre ficção e realidade. Um exemplo é o folhetim Misterios del Plata, de Joana Paula Manso de Noronha, publicado no Jornal das Senhoras na década de 1850, que romanceava o levante contra o caudilho Rosas na Argentina. Também eram inspiração acontecimentos menores, como o inusitado caso do roubo das joias da corte de D. Pedro II no Rio de Janeiro, acobertado pela monarquia porque um dos autores do crime ajudava o imperador a ter encontros com amantes. Três autores - Raul Pompéia, Artur Azevedo e “Giuseppe do Patrocínio”, usando pseudônimos, escreveram cada um o seu folhetim sobre a história.
A sátira e a irreverência são um tempero adicionado ao gênero por folhetinistas brasileiros, como Aluísio de Azevedo, Coelho Neto, Olavo Bilac. Diversos folhetins jocosos foram escritos por estes autores, frequentemente a quatro mãos, e com o uso de pseudônimos – talvez porque colaborar com um gênero “menor” como o folhetim pudesse manchar uma carreira literária, ou talvez porque o pseudônimo conferisse maior liberdade para comentar sobre a atualidade.
O folhetinista, assim como o dramaturgo de teatro de revista, está com os olhos atentos para a atualidade. Tanto a realidade jornalística é material para o folhetim que alguns autores
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utilizavam procedimentos investigativos a fim de conseguir material para suas obras. Para escrever Os mistérios de Paris, Sue se disfarçava de homem do povo e ia aos lugares frequentados pelas classes baixas. No Brasil, Aluísio de Azevedo e Pardal Mallet fizeram o mesmo entre os pobres do Rio de Janeiro.
O folhetim deixou marcas no romance “oficial” brasileiro, aquele considerado como “alta” ou “boa” literatura – seja nos temas, como em O moço loiro, de Joaquim Manuel de Macedo, na construção das personagens, como o Peri de O guarani ou o Arnaldo de O
sertanejo, de José de Alencar, ou ainda na estrutura narrativa. O corte de capítulos, próprio do
romance-folhetim publicado em jornal, está presente no Guarani de Alencar, nas Memórias
de um sargento de milícias de Manuel Antônio de Almeida, e até mesmo em contos de
Machado de Assis, que, mesmo desprezando o folhetim, usou o formato para publicar alguns de seus textos.
O folhetim continuou a existir na imprensa brasileira primeira metade do século XX. No início dos anos 20, veículos como A Gazeta e o Jornal do Comércio continuaram a publicar romances seriados, no rodapé da página ou em fascículos separados que poderiam ser colecionados pelo leitor. E o repertório destes folhetins permaneceu o mesmo, ou seja, as obras dos folhetinistas franceses do século XIX: Octave Feuillet, Xavier de Montépin, Paul Féval, Ponson du Terrail, Adolphe d’Ennery.
O folhetim-romance convive com outra seção também denominada folhetim e destinada a crônicas, criticas literárias e fait-divers. Este gênero tem espaço de destaque na imprensa, como demonstra o fato de o Correio Paulistano dedicar uma seção aos “fatos diversos”, ou seja, “assaltos, suicídios, crimes e dramas passionais” que “não são ligados a pessoas de destaque”103. Os fait-divers, prestando-se a uma narrativa com tons folhetinescos,
vão aos poucos tomando o espaço do romance-folhetim.
2.5 A TRANSIÇÃO PARA O SÉCULO XX: A VALORIZAÇÃO DA REPORTAGEM E O