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7.2 Privacy-preserving Indexing of Iris-Codes

7.2.2 Indexing and Retrieval

A redação deste capítulo teve um duplo objetivo, servindo para auxiliar o levantamento e a interpretação dos dados empíricos; e, também, para subsidiar o tratamento das questões que nortearam a preparação deste trabalho de tese, que, relembrando, são: por que algumas vítimas indiretas da violência urbana conseguem elaborar o luto e ‘seguir com a vida’, enquanto outras ficam estagnadas em um processo de luto complicado? Ou, em outras palavras, por que algumas ‘ficam bem’ enquanto que outras ‘ficam mal’ após vivenciarem experiências (potencialmente) traumáticas? Como as vítimas indiretas da violência urbana sobrevivem a estas experiências?

De acordo com o objetivo especificado, dividi este capítulo em cinco seções.

Na primeira seção, trato da noção de trauma, intimamente ligada à origem da concepção freudiana de neurose. Em “Estudos sobre a histeria” (1893b/1895), na primeira teoria do trauma (escrita junto com Breuer), este já está posto como um excesso pulsional, de forma que o encontro com este excesso já seria traumático. Destaco, além deste, outros três momentos da teoria freudiana sobre o trauma.

Não é nova esta reflexão (sempre presente na teoria), mas, conforme especificou Uchitel (2001), cabe refletir sobre ele com um enfoque diferente, capaz de esclarecer quadros que não se desenvolvem a partir do conflito, mas do déficit: do desamparo, das falhas nos cuidados do mundo circundante e de irrupções que surpreendem e violentam (como catástrofes, terremotos, guerras, assassinatos, acidentes, abusos sexuais ou qualquer outra vivência com igual potencialidade traumática que coloque em risco a sobrevivência, física ou psíquica, do sujeito).

Mesmo tendo sofrido importantes modificações, o trauma sempre foi tema de grande importância na teoria freudiana, que o tempo todo esteve muito próxima da guerra, da morte, do desamparo e da violência.

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Na segunda seção, abordo alguns estudos sobre resiliência, compreendida como um dos conceitos importantes para entender o enfrentamento de situações adversas. Para se falar de “tentativa ou possibilidade enfrentamento” (e dos efeitos da violência nas vítimas indiretas), é imprescindível um conceito como este. A associação entre psicanálise e resiliência é relativamente recente, mas as raízes epistemológicas não são incompatíveis.

Na terceira seção, apresento uma discussão sobre o processo de luto.

Na quarta seção, apresento uma revisão teórica sobre História de vida. A trajetória biográfica importa e determina os efeitos das experiências adversas sofridas e as saídas do luto. Para ilustrar a relação entre resiliência, histórias de vida e testemunho, utilizei alguns relatos de sobreviventes de campos de concentração nazistas em uma tentativa de mostrar como contar (ou escrever) a própria história pode ter um potencial de ressignificação e/ou elaboração de experiências (potencialmente) traumáticas.

A necessidade de testemunhar fica evidente quando se analisa os inúmeros livros de memórias redigidos após o Shoah. Até hoje se fala, se conta, se escreve, se teoriza e se perpetua a memória do que foi considerada a maior catástrofe coletiva promovida por uma sociedade (considerada das mais civilizadas do mundo): a matança nos campos nazistas. Para ilustrar com exemplos reais e articular história de vida e reconstrução, apresentarei alguns relatos autobiográficos de sobreviventes desses campos de concentração (Ruth Klüger, Primo Levi, Viktor Frankl e Ana Frank). Guardando as devidas diferenças entre as experiências destes escritores e as dos participantes desta pesquisa, o objetivo aqui é ilustrar, com a literatura de testemunho, esse potencial de transformação de vítimas em sobreviventes.

Por fim, finalizo este capítulo de Marco Teórico com uma quinta seção, na qual, em uma tentativa de articulação, exploro os conceitos de trauma, luto e resiliência, apresentados nas seções anteriores.

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2.1 Revisitando o conceito de trauma em Freud

Inicialmente, Freud acreditava na violência como fator etiológico do sofrimento neurótico. Em suas primeiras formulações sobre a origem da histeria, baseado em sua experiência clínica, supôs uma sedução real, cometida por um adulto perverso contra uma criança. Esta primeira noção de trauma na obra de Freud eu chamei de “momento 1”.

Posteriormente, o trauma real dá lugar à fantasia (Freud, 1905a), marcando o que chamei de “momento 2” da teoria freudiana do trauma, quando Freud faz uma inflexão importante e deixa de entender o trauma apenas como fato real. Quando “descobre” a sexualidade infantil, a fantasia ganha importância e a criança inocente sai de cena. O excesso de sexualidade ou a sedução real não produz, necessariamente, uma neurose histérica, mas, por outro lado, sem esse excesso real, não haveria do que defender-se.

A problemática da destruição do homem pelo homem perpassa a obra de Freud, sobretudo a partir da segunda tópica. Em “Além do princípio do prazer” (1920), “momento 3”, o trauma volta à cena, na teoria e na clínica. Este texto destaca a incapacidade do aparelho psíquico diante do excesso pulsional veiculado na situação traumática.

Já em sua última leitura do trauma, que chamei aqui de “momento 4”, Freud postulou que este não é o acontecimento em si e concluiu que os sonhos traumáticos obedecem ao propósito de recolocar a impressão traumática em cena (Rudge, 2009). A repetição, enquanto tentativa de elaboração psíquica, pode ter duas saídas, em que, em uma delas, simplesmente mantém a experiência traumática como aquilo que nunca se esgota nem se modifica, jamais se tornando passado, configurando-se na pura ‘repetição do mesmo’. E, em outros casos, pode servir como instrumento pelo qual as experiências traumáticas poderão vir a ser, gradativamente, integradas aos domínios do princípio de prazer.

Nos parágrafos a seguir, descreverei com mais detalhes cada um dos “momentos” da teoria do trauma em Freud.

49 Momento 1 - Descobertas iniciais e a criança violentada: o trauma é essencialmente de natureza sexual

As descobertas iniciais no campo da histeria (Estudos sobre a histeria, 1893b) levaram Freud e Breuer a sustentar que os sintomas dessa neurose só poderiam ser compreendidos se remetidos às experiências de efeito traumático. Esses traumas estariam referidos à vida sexual da (o) paciente. O que provocava a histeria? Qual era a etiologia? Eram estas as questões que os autores pretendiam responder no final do século XIX.

Breuer13 e Freud verificaram, a princípio com grande surpresa, que cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando conseguiam trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado, despertando o afeto (estrangulado) que o acompanhara. Quando a paciente descrevia esse acontecido, traduzia o afeto em palavras. A lembrança sem afeto quase invariavelmente não produzia nenhum resultado. Isso levou os autores a afirmar que “os histéricos sofrem principalmente de reminiscências” (1893a, p. 43).

Em “A etiologia da histeria” (1896b), Freud concluiu que, em todos os casos, o fator desencadeante era uma experiência sexual de caráter traumático. Em outras palavras, a causa última seria sempre a sedução de uma criança por um adulto abusador. Além disso, o evento traumático ocorreria antes da puberdade, embora a irrupção da neurose ocorresse após. As experiências sexuais infantis constituiriam a pré-condição fundamental da histeria (são elas que criam os sintomas histéricos), mas não o fariam de imediato, permanecendo inicialmente sem efeito e só exercendo uma ação patogênica tempos depois, ao serem despertadas, após a puberdade, sob a forma de lembranças inconscientes. Assim, durante a puberdade, ocorreria o segundo tempo do trauma, quando as lembranças esquecidas na infância viriam à tona

13 Breuer postulava uma predisposição natural das pacientes à histeria; enquanto Freud insistia nas causas psicológicas. Essa discordância parece ter sido o principal motivo que afastou os dois médicos.

50 conscientemente. Aqui Freud valorizava a realidade de um corpo infantil violentado. A primeira cena ofereceria a força traumática, enquanto que, a segunda, a condição traumatizante.

No mesmo ano, em outro texto (Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa, 1896a), Freud desenvolve o que já começara com Breuer em “Comunicação preliminar” (1893a). Como resultado da análise de 13 casos de histeria, escreve sobre a natureza desses traumas sexuais e, também, sobre o período da vida em que eles ocorrem. Para causar a histeria, afirma ele:

Não basta ocorrer em algum período da vida do sujeito um evento relacionado com sua vida sexual e que se torne patogênico pela liberação e supressão de um afeto aflitivo. Pelo contrário, tais traumas sexuais devem ter ocorrido na tenra infância, antes da puberdade, e seu conteúdo deve consistir numa irritação real dos órgãos genitais -, por processos semelhantes à copulação (1986a, p. 164).

Não seriam as experiências em si traumáticas, já que dependeriam também de sua revivescência como lembrança depois de o sujeito ingressar na maturidade sexual. O trauma era sempre sexual, cometido por um adulto perverso e recordado pela vítima anos depois. Em resumo, a teoria do trauma em dois tempos pressupunha a cena em que o impacto vinha de fora (do adulto perverso) e estava baseada no traumatismo sexual precoce (a criança não compreendia o que havia acontecido). Em um segundo momento, o do posteriori (ou seja, resultado da experiência ou dela consequente), já na puberdade, a lembrança da cena de sedução perpetrada pelo adulto podia ser associada, e a pessoa então entendia o conteúdo sexual, reorganizando e internalizando o ocorrido na infância. A reativação dessa recordação provocaria um fluxo de excitação de tamanha intensidade que transbordaria as defesas do ego. Se o acontecimento é chamado traumático por Freud, é pelo seu efeito aprés coup, de forma que o trauma vai sempre deixar uma marca, mas esta só terá efeito ‘no depois’. Inaugura-se aqui uma nova temporalidade, diferente da tradicional, que estava associada a um efeito linear do passado sobre o presente (Rudge, 2009).

51 O capítulo “A psicoterapia da histeria” (1893b), escrito apenas por Freud, marca a ruptura com Breuer e o abandono da hipnose, além da descoberta da resistência e da associação livre (ainda sem este nome) como método de acesso ao inconsciente.