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As Comunidades de Prática, ou CoPs, podem ser definidas como sistemas sociais de aprendizagem e sempre existiram ao longo da história da humanidade (WENGER, 2010). Caracterizam-se por reunir pessoas com algum interesse em comum, alguma paixão por determinado assunto, sendo este interesse o responsável por criar verdadeiras conexões entre as pessoas e propiciar o compartilhamento de opiniões e pensamentos. Não são necessariamente vinculadas a um trabalho e sim à ação, visto que é no contexto das interações e atividades conjuntas que as pessoas encontram oportunidades de aprofundar seus conhecimentos, agregar as diferentes perspectivas dos participantes da CoP, bem como contribuir para a construção coletiva do conhecimento (WENGER, 2000, p. 4; TEIXEIRA, 2002, p. 26; McDERMOTT, 1999). Wenger, McDermont e Snyder (2002, p. 28-29), ao descrever as CoPs, apontam como elementos estruturais fundamentais:
domínio – domínio de conhecimento motivador do engajamento das pessoas que participam da CoP, área de interesse;
comunidade – as pessoas que constituem o grupo;
prática – atividades conjuntas por meio das quais o conhecimento específico é compartilhado e desenvolvido na comunidade.
O interrelacionamento entre essas estruturas é fator essencial para a existência de uma CoP. Assim, as pessoas (comunidade) devem se sentir estimuladas e motivadas a participar das atividades desenvolvidas (práticas) sobre o seu tema de interesse (domínio). Ou seja, devem perceber utilidade e os ganhos (principalmente de conhecimento), advindos da participação na comunidade. Para um participante, isto se dá por meio do acesso a conhecimentos já explicitados, bem como a conhecimentos tácitos; afinal, nem tudo o que se sabe está codificado ou explicitado em algum artefato (WENGER; McDERMOTT; SNYDER, 2002, p. 9). Os conhecimentos codificados podem ser apresentados sob a forma de manuais, documentos e outros tipos de artefatos compartilhados no âmbito da comunidade, enquanto que os conhecimentos tácitos, em geral, são acessados em processos de interação informais em que os praticantes buscam uma compreensão mútua.
Considerando a importância da motivação e sua relação com o acesso ao conhecimento, depreende-se que a estrutura de suporte à comunidade, bem como os meios de comunicação disponíveis para a interação entre os membros são cruciais para o desenvolvimento de uma CoP. Em especial, as estratégias de comunicação devem receber atenção para favorecer o desenvolvimento de situações de compartilhamento de conhecimento tácito para propiciar a explicitação e codificação destes. As atividades de codificação e explicitação podem ocorrer por meio da produção conjunta de documentos, ferramentas, e procedimentos a serem compartilhados para uso pelos membros da comunidade. Os conhecimentos gerados podem ser aplicados na resolução de problemas, na aplicação de metodologias, ser aprimorados ou mesmo utilizados no desenvolvimento de novas ideias a serem compartilhadas no âmbito da CoP (McDERMOTT, 1999).
Em relação às situações de compartilhamento de conhecimento, além da estrutura de suporte à comunicação, Wenger (2000, p. 7) destaca três dimensões importantes para que elas progridam:
iniciativa – a comunidade deve ter um nível de energia suficiente para impulsionar e motivara busca por novos conhecimentos. Quanto maior o nível de iniciativa, maior a motivação dos membros que fazem parte do grupo;
mutualidade – se existe uma relação de confiança entre os membros do grupo, há reciprocidade nas interações, pedir
ajuda quando necessário. Quando há mutualidade, os membros da comunidade têm consciência do valor de suas contribuições e de que sua contribuição será retribuída de alguma forma;
repertório – diz respeito aos conceitos, linguagens, práticas e artefatos desenvolvidos na CoP, eles incorporam e refletem a sabedoria acumulada da comunidade (a cultura da comunidade). Desta forma, fornecem ferramentas intelectuais que habilitam as pessoas a realizar coisas que não fariam sem elas. (HOLLAN; HUTCHINS; KIRSH, 2000). A língua,por ser um meio de suprir as necessidades comunicativas e socioculturais dos indivíduos que interagem em uma comunidade, faz parte do repertório (HALL, 2002, p. 102). Além disso, enquanto acervo, guarda consigo toda experiência histórica acumulada por um povo durante sua existência (CARVALHO, 2004).
Para Wenger (2000), as três dimensões trabalham juntas. Sem a energia, a motivação para aprender daqueles que tomam as iniciativas, a comunidade se torna estagnada. Sem fortes relacionamentos de pertencimento e mutualidade entre os participantes, ela é destruída, pois se não há reciprocidade, perde-se a motivação para interagir. E sem a habilidade de refletir, negociar conhecimentos e construir seu repertório de conhecimento, ela se torna refém de sua própria história.
2.3.2.1 Negociação de significados
Na perspectiva de Wenger (1998), a prática é o processo através do qual as pessoas podem experienciar o mundo e seu engajamento de modo significativo. Para o autor, a prática não é um simples fazer; é realizar uma prática em um contexto histórico e social, sendo este contexto responsável por dar estrutura e significado ao que é feito. Ou seja, uma prática é sempre uma prática social e a negociação de significados é o processo central nesta atividade (WENGER, 1998).
A negociação de significados se refere ao processo de constituição de informações codificadas e está relacionada às capacidades humanas de refletir e se comunicar uns com os outros. Ocorre ao longo de interações, sendo que os participantes do processo buscam compreender o ponto de vista de seus interlocutores apontando os pontos que não foram compreendidos e partilhando suas visões acerca do assunto. Sendo assim, um significado resulta dos ajustes de
entendimento de significados e visões construídas com os outros membros de uma comunidade (BROWN; COLLINS; DUGUID, 1989; STACEY, SMITH; BRATY, 2004). Estes ajustes de entendimento envolvem tanto aspectos históricos, por compreender histórias de significados individuais; como também apresentam um caráter dinâmico, pois cada nova situação envolve ou considera diferentes aspectos e conceitos na negociação.
Logo, relaciona tanto a interpretação como a ação. Os resultados constantemente afetam a situação à qual dão significado, bem como a compreensão de todos os participantes do processo, de modo que as pessoas se transformam, ampliam ou modificam os significados dados ao que as cerca. É neste fluxo constante que as pessoas dão forma às suas experiências, e consequentemente às comunidades às quais elas pertencem.
Já na perspectiva de Wenger (1998), a experiência de significado envolve a interação entre dois processos fundamentais: a participação e a reificação. A participação diz respeito à ação e conexão, a tomar parte de algo de forma ativa, compartilhar atividades, empreendimentos e repertórios com os outros. Trata-se de um processo complexo que combina o fazer, falar, pensar, sentir e pertencer, envolvendo corpo, mente, emoções e relações sociais. Em uma participação, não há conversação sem o uso de palavras, estruturas linguísticas e outras formas de uso da linguagem, sendo que a participação na produção de significados sempre implica em uma reificação e uma reificação implica em seu uso em uma participação (BARTON; TUSTING, 2005).
A reificação implica na transformação da experiência em algo concreto, não necessariamente um objeto material, mas um resultado objetivo, tal como um artefato intelectual ou tantos outros elementos presentes no cotidiano que compõem o repertório de uma comunidade. Para a reificação, atividades tais como fazer, desenhar, representar, nomear, codificar e descrever conhecimentos, tanto como os atos de perceber, interpretar, utilizar, reutilizar, decodificar e reestruturar conhecimentos devem ser envolvidos ao longo das práticas compartilhadas. Portanto, os produtos da reificação refletem os significados produzidos e compartilhados no contexto de uma CoP, constituindo parte do repertório particular da comunidade.