Research design
3.3 Independent variables
Nos discursos de mães sociais e adolescentes, as marcas do abandono, tomadas da experiência real ou imaginária, são relatadas de diversas maneiras, sendo ligadas a relatos sobre as relações com as figuras parentais, pares da instituição de abrigamento ou ainda na sua perspectiva de futuro. Nesse item, será apresentada a relação de Adriano e Marilene com as respectivas figuras maternas ou, no caso do adolescente, com as várias mães com quem conviveu.
Minha mãe morava... Também morava com a vovó e meu pai faleceu quando eu tinha cinco anos. Morreu de acidente de carro. Vim pra cá porque minha avó ouviu falar da aldeia. Na Aldeia eu passei por duas mães sociais. A Maria José passou com ela uns sete anos com ela. E depois ela saiu, entrou outra tia, tia não, outra mãe social, não lembro o nome, que também ela saiu, aí depois que nós fomos pra
tia Marilene. Que estou com ela um ano e meio, dois anos, dois anos com ela.E
nesses dois anos a gente arranjou, consegui meu primeiro emprego, aí acabou agora em setembro. A mãe Maria José, ela educou a gente, ela era muito rígida com ensino. (...) O relacionamento com ela era bom, normal. Relacionamento
normal. Com os irmãos de vez em quando tinha uma briga com os irmãos, mas
normal também. Quando a gente brigava, ela castigava. Castigo assim, não ia
brincar, ficava em casa. Às vezes ela batia, às vezes, mas não era muito não.Mas
tinha aquele negócio lá, se machucar, de chamar a polícia, aquele negócio todo
assim.Ela saiu devido aos problemas familiares que estavam ocorrendo lá em casa
e tal. (…) Foi devido o que aconteceu com uma irmã nossa lá na aldeia, que não é nossa. É, que quando a mãe dela vinha fazer a visita, aí diz que estava machucada a mão dela. Aí ela falou o que tinha acontecido com ela, que a tia lá tinha feito, tinha botado a mão não sei aonde, no fogo lá da cozinha e tal, devido a que fato eu não sei. Eu sei que ela já tinha falado com a mãe dela o ocorrido e se eu não me engano a mãe dela foi falar com a tia Tereza, aí passou isso à tia Tereza conversou
com cada um lá. Aí ela saiu e puseram outra mãe no lugar. (Adriano)
A relação com a figura materna é apresentada, no discurso de Adriano, diluída na representação de cinco mães: a mãe biológica, a avó, a primeira mãe social, a segunda mãe social e a mãe social atual.
As experiências relatadas a respeito dessas diversas mães apontam para a escolha de uma delas, como a sua referência materna. A primeira de suas mães sociais. Chama atenção a sua escolha por dois motivos: o primeiro, o tempo de convivência, pois, com ela manteve a maior convivência, sete anos; segundo, a representação dessa figura. Para descrevê-la, usa a palavra normal, uma mãe normal, com um relacionamento normal, apesar da denúncia de maus-tratos contra uma de suas irmãs sociais, e a sua demissão da instituição. Adriano não referencia a mãe como agressora e não consegue admitir o seu conhecimento sobre as situações onde essa característica se evidenciava. No seu discurso, a saída da mãe se justifica por questões independentes da responsabilidade da mãe social: problemas familiares, a possibilidade de denúncia policial por maus-tratos, a percepção da mãe biológica de irmã social quem denuncia.
A relação objetal – termo que designa o modo de relação do sujeito com seu mundo, ou com quem se apresente como o seu objeto de amor (Laplanche & Pontalis, 2001) – com a figura materna necessita ser mantida a qualquer custo, mesmo com a negação dos atributos negativos da mãe social. Para essa vinculação, o objeto é fragmentado, processo em que não é possível integrar os aspectos positivos e negativos numa mesma pessoa e, nesse caso, há o apego somente com os aspectos positivos: a exigência, a preocupação com os estudos e,
consequentemente, com o seu crescimento intelectual, os castigos administrados como consequência coerente do comportamento dos filhos.
Em todas as suas relações com a figura materna, o abandono se repetiu, porém com uma diferença crucial, a mãe escolhida como seu objeto de amor, a primeira mãe social, não o abandona por vontade própria, e sim, por uma situação externa, pelas regras da instituição de abrigamento, o que poderia explicar a necessidade da manutenção favorável dessa figura.
A palavra abandono não é mencionada em nenhum momento em seu relato, o que pressupõe uma negação, mecanismo de defesa inconsciente, pelo qual a realidade desagradável é rejeitada e a memória prejudicada. Adriano, quando questionado sobre a mãe biológica, lembra apenas que morava, também com a avó materna, sem acessar qualquer experiência com essa figura. O acesso aparentemente impossível é uma evidência da utilização desse tipo de mecanismo de defesa.
Outro mecanismo identificável no discurso de Adriano é a racionalização, processo pelo qual o indivíduo busca uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral para uma atitude, ação ou ideia (Laplanche & Pontalis, 2001). Ele racionaliza a atitude agressiva da mãe, quando apresenta como algo normal, como resultado das ações dos filhos sociais. Mais uma vez, a figura e o afeto positivo investidos nela são preservados e sua integridade emocional garantida.
Com uma história que não mostra um abandono real, mas também marcada pela agressão física e emocional, Marilene compartilha alguns manejos similares ao filho social.
Não, não, ele era bem, assim muito alegre muito alegre meu pai era. Só que ele e minha mãe tinham suas desavenças, eles brigavam muito. Minha mãe tem um gênio forte, então eles brigavam muito. É com minha mãe eu não me dava muito bem, a gente não se entendia que ela achava que eu não gostava dela e eu achava que ela não gostava de mim, então a gente não se entendia muito bem não. Eu gostava muito dela, a gente viveu assim os últimos meses assim... Meu pai saiu de casa e eu fiquei com ela. (…) A minha mãe sempre quis ter mais filho homem, tanto que depois que nós já estávamos criadas ela ainda queria adotar e sempre queria homem. Aí ela, assim, tudo o que ele falava pra ela, ela acreditava, então eu apanhei muito por causa disso. Ele falava pra ela que eu tinha feito, a gente tinha feito junto, mas quando chegava em casa ele dizia que eu tinha feito e ela me batia e nele não. Até hoje eu falo pra ele que ele fazia minha mãe me bater (risos).
(Marilene)
No seu discurso, Marilene apresenta a sua relação com a figura materna a partir de duas outras relações, a relação matrimonial dos pais e a relação da mãe com seu irmão mais novo. Sua representação sobre a relação dos pais era de desavenças e brigas, devido à personalidade da mãe, já que o pai, descrito como alegre e carinhoso, não é percebido como responsável pelos desentendimentos.
Assim como na história de Adriano, a relação de Marilene com a mãe também é marcada pela agressão, percebida como injusta e resultado da preferência da mãe pelo irmão mais novo. Diferente do filho social, Marilene assume a agressão e também a falta de afeto entre elas, que somente se resolve quando o pai se separa da mãe e as deixa sozinhas. Mesmo assumindo, inicialmente, a sua dificuldade em se vincular com essa figura, num momento seguinte, projeta nela o desamor, mesmo que parcial, que experimenta.
No seu discurso, a locutora apresenta o conflito edipiano vivenciado por meio da situação triangular entre o pai amado, detentor dos melhores atributos, a mãe agressora e ela própria, vivida por um longo período, chegando até a vida adulta. Nesse caso, os sentimentos amorosos e hostis (Laplanche & Pontalis, 2001) não são projetados apenas nas figuras do triângulo, mas também no irmão mais novo, com quem compete pelo amor materno.
A sensação expressa no discurso é a de fracasso em conquistar o amor materno, já que, no momento em que fica sozinha com a mãe, que necessitava dos seus cuidados, é aquele em que se afasta, muda de estado e nega definitivamente a possibilidade da vinculação desejada.
Comparando as relações com a figura materna, desses dois atores, a interpretação poderia considerar experiências de agressão semelhantes, porém com uma resolução diferente. Isso pode ser percebido por dois ângulos diferentes: no primeiro, os dois atores, apesar da singularidade, rompem com as figuras, por vontade própria ou externa. A mãe social assume o seu desejo de rompimento com a mãe, e Adriano finaliza o seu relato sobre o afastamento da mãe social agressora, com a expressão: “Estava na hora dela sair”; definindo o seu desejo de rompimento.
Por outro ângulo, a análise é encaminhada no sentido de compreender as novas vinculações vividas por esses indivíduos.
É, entrei na aldeia com sete anos de idade. Vim pra cá porque minha avó ouviu falar da aldeia. Aí chegou o pai social, era o pai Tadeu, na época, aí visitou a gente. Aí chamou a gente, aí nós fomos pra lá. Assim, eu lembro que no começo foi difícil,
porque tinha minha família, minhas irmãs, minha família. (Adriano)
É aí eu falava pra ele: Tadeu, eu tenho minha mãe que mora sozinha, eu sempre fiquei com ela. Tenho também uma responsabilidade com os filhos da minha irmã,
que eu cuidava desde pequenos e não queria deixar. (Marilene)
Nos discursos referidos, a família consanguínea é apresentada sob um novo prisma, apesar da dificuldade de vinculação com a figura materna, outros personagens são apresentados.
Adriano, ao relatar o seu momento de engajamento na instituição, menciona a dificuldade quanto ao afastamento da família, que ele localiza nas irmãs que não vieram com ele para o abrigo.
Marilene, também no momento de entrada na instituição, relata o apego com os sobrinhos, sua responsabilidade e, ao mesmo tempo, o temor de não estabelecer vínculos com os filhos sociais, por se sentir traidora do amor dos sobrinhos.
O compartilhamento, aí, se expressa no sentimento de parentalidade desenvolvido com os outros membros da família consanguínea. Parentalidade esta entendida como construção psíquica que dá condições aos indivíduos para ocupar o seu lugar dentro das relações familiares. Para Solis-Ponton (2004), a parentalidade organiza o pensamento dos pais diante de si e de seu filho, e do filho, em relação aos pais, sobre suas atribuições em cada um dos papéis.
Nos casos relatados, diante da organização familiar que vivia e da precariedade da figura materna como objeto de amor, outros vínculos são escolhidos para que a noção de família se mantenha, mesmo que subjetivamente, já que, efetivamente, nos dois casos, se encontravam diante da possibilidade de fragmentação imposta pelo seu afastamento.
No momento do desligamento, Adriano não menciona a perda das duas mães com quem convivia, a mãe biológica e a avó que não conseguiram, naquele momento, demonstrar os atributos culturalmente esperados para o seu papel, o que implicava em cuidado, proteção e manutenção da proximidade familiar. O vínculo mais preservado e capaz de causar o sentimento de perda é o fraterno, não o afeto por uma ou outra irmã, já que nem chega a mencionar os nomes ou trazê-las novamente em outra parte do relato. O sentimento fraterno é o que o vincula à família consanguínea, desorganizada parcialmente no seu desligamento.
Para Marilene, o afastamento que aconteceu por vontade própria pode ter funcionado como uma espécie de resolução de um vínculo marcado pela agressão e desamor. Porém, a perpetuação da família se deu por outras vinculações, uma fraterna e outra com características maternais, a construída com os sobrinhos.
Na continuação do discurso, a mãe social, chama a atenção para sua dificuldade no estabelecimento de vínculos com os filhos, justificada pelo apego aos sobrinhos e fidelidade a esse afeto, o que se mostra como uma espécie de interdição para suas novas e necessárias vinculações. A mesma interdição pode ser percebida no discurso do adolescente Adriano, como apresentado a seguir.