Após o caminho percorrido, podemos afirmar que as teorias são construções que visam dar conta do real e, deste modo, o termo adolescência também é um construto teórico. Quando utilizado em relação a uma fase da vida – estágio de desenvolvimento biológico ‘normal’ da espécie – assume caráter naturalizante. Se entendido como uma operação, conforme a psicanálise propõe, refere-se a uma operação subjetiva proveniente da tensão interno/externo. A ciência deve ser uma retificação dialética constante, pois nunca conseguirá ser uma representação perfeita e fiel do real. Quando postula ter atingido a verdade última, está se tornando uma ideologia implícita.
A psicanálise31, através do conceito de sujeito, evidencia a tensão existente entre os pólos (indivíduo/sociedade, interno/externo, biológico/social) sem se utilizar da ideologia do indivíduo – que procura através da utilização de antagonismos negar a falta constitutiva e realça o Indivíduo: livre e autônomo.
Pensar a adolescência enquanto uma operação psíquica é uma forma de conceber a constituição do sujeito como uma dialética entre interno/externo – um movimento onde o real ora é recoberto pelos dispositivos sociais, ora produto de significações subjetivas. E não como um par de eixos em oposição, onde um desloca o outro, obtendo uma posição central e de supremacia. Deste modo, a adolescência surge como um momento de especial interesse para ilustrar a dialética interno/externo: nas sociedades tradicionais o que mais se salientava era o processo pelo qual o real era recoberto pelos dispositivos simbólicos encontrados no social, na modernidade ressalta o processo pelo qual o sujeito necessita subjetivar o real utilizando uma operação psíquica. Logo,
31 A psicanálise não é o único campo do conhecimento que entende a adolescência como um produto da
dialética constitutiva. Um exemplo de outra corrente que busca compreender a crise da adolescência sem se utilizar de um modelo de oposição é a psicologia sócio-histórica – Ozella afirma: “A adolescência não é um período natural do desenvolvimento. É um momento significado e interpretado pelo homem. Há
podemos notar a dialética interno/externo, em um princípio de funcionamento semelhante à forma topológica da banda de Moebius – superfícies que se entrecruzam não havendo isolamento entre a parte interna e externa da banda.
Nesse sentido, a crise da adolescência é conseqüência mais das exigências subjetivas que foram postas em movimento devido às contradições e conflitos da sociedade e da cultura, do que de transformações exclusivamente referidas a mudanças no corpo biológico. Isto não significa entender esta crise como reflexo direto das modificações socais, pois o sujeito deve subjetivar a história que lhe foi imposta tomando sua parte nesta, assumindo seu desejo.
Olhar para a crise da adolescência como produto da tensão interno/externo permite denunciar a contradição existente no individualismo contemporâneo: a busca do ser pleno e da realidade definitiva, a imposição do saber absoluto. A isto, a psicanálise só tem a desvelar a falta constitutiva – e o impossível recobrimento do real pelas construções teóricas. A normatização da crise da adolescência, oferecendo uma saída através da adequação do ego ou da identidade do sujeito à ideologia moderna, procura tamponar uma emergência do real que aparece na modernidade com a possibilidade de questionamento dos dispositivos simbólicos. Escutar a crise da adolescência, enquanto uma mera sintomatologia, é ignorar o antagonismo existente na interpelação do sujeito enquanto indivíduo pela ideologia moderna: não há harmonia nem oposição entre indivíduo e sociedade, mas sim a tensão necessária.
As construções teóricas sobre o tema muitas vezes são tomadas como próprias do humano, assim: ‘interno’, ‘natural’, ‘amadurecimento’ e ‘educativo’ são modos de tamponar a falta a partir de um certo ideal a ser alcançado. Desta forma, os referenciais de ‘progresso’ e ‘desenvolvimento’, marcadamente históricos, passam a ser referenciais da ‘essência humana’. A ideologia individualista busca normatizar e naturalizar o
sujeito, promovendo a irracionalidade sobre o próprio sujeito, baseada na utilização da ideologia implícita.
O sujeito precisa questionar a necessidade de agir segundo estes ideais vindo do discurso do Outro, portanto, deixamos de conferir um cunho ideológico à adolescência ao promover com que o sujeito possa tornar-se dono de um destino particular, a despeito da interpelação do discurso do Outro. Interrogar o significante crise da adolescência para questionar o significante mestre indivíduo é uma forma de remeter a questão à dimensão de sujeito, ou seja, apostar que existe a possibilidade de uma enunciação e não apenas da repetição de um enunciado.
As várias considerações, que fizemos sobre a adolescência – operação psíquica, operação simbólica, substituta dos rituais de passagem e tantas outras –, vêm justamente demarcar o que esta é para o sujeito: um significante, que pode assumir diferentes posições na cadeia inconsciente para representar o sujeito para outro significante.
Utilizamos, nesta dissertação, ‘crise da adolescência’ como um primeiro significante a ser investigado, assim como um sintoma ou queixa que nos são apresentados. Buscamos refazer a cadeia metonímica à qual este significante está ligado, e outros surgiram: adolescente, sociedade, cultura, biológico, social, etc. Chegamos ao significante indivíduo, significante mestre portador da cadeia de significação presente na cultura contemporânea. Reconhecer a existência de um sujeito, que é interpelado por estes significantes, é apostar na possibilidade da produção da verdade subjetiva a partir da singularidade do sujeito – não remetido totalmente a um discurso implícito ideológico que o faz negar que é assujeitado. Sabemos que uma construção teórica nunca estará fora da ideologia e, reconhecendo este fato, podemos contribuir para o sujeito se desprender das amarras alienantes do discurso do Outro, realizando sua enunciação – mesmo que evanescente.