Merging of feed intake and milk infrared spectral data across countries increases the accuracy of prediction of feed intake in lactating dairy cows
MATERIALS AND METHODS 63
6. General discussion
6.1. Inclusion of feed efficiency in the breeding scheme
Na perspectiva teórica da AD, o discurso emerge: torna-se visível e/ou audível, necessariamente, por meio da iniciativa de um sujeito-“autor” ou da existência de uma instância produtora. Explica Foucault: “não há signos sem alguém para proferi-los ou, de qualquer forma, sem alguma coisa como elemento emissor (FOUCAULT, 2000b, p. 105). Por outro lado, a emergência de discurso, instaura simultaneamente, um outro sujeito: o sujeito discursivo. Este não é idêntico ao sujeito da formulação. Ele é diferente em tudo: “natureza, status, função, identidade” (FOUCAULT, 2000b, p. 107). O sujeito do enunciado é uma posição construída no ato da produção discursiva: um “lugar” enunciativo. Esse lugar é, conforme Foucault (2000b, p. 107) um traço constitutivo da função enunciativa: “um status do sujeito dos enunciados em geral” que caracteriza toda formulação enquanto enunciado. O sujeito do enunciado é, portanto, uma função enunciativa. Ao enunciar esse sujeito produz enunciados a partir de posições discursivas: mãe, pai, professor, médico, pesquisador, etc. Enquanto posição, o sujeito do enunciado é um lugar “determinado e vazio” que pode ser ocupado por diferentes indivíduos ou pelo
mesmo indivíduo, em uma série de enunciados na qual, alternadamente, ele pode exercer “diferentes posições e assumir o papel de diferentes sujeitos” ( FOUCAULT, 2000b, p. 107).
Em uma modalidade enunciativa como o prefácio de um tratado, coloca Foucault (2000b, p. 107), a posição enunciativa de prefaciador só autoriza a ocupação por um sujeito possível: o sujeito-autor ou sujeitos-autores da formulação. Entretanto, no corpo do tratado pode-se encontrar proposições cuja função de sujeito do enunciado é ocupada por outras posições-sujeito, uma vez que ela está funcionando como uma posição discursiva “absolutamente neutra, indiferente ao tempo, ao espaço, às circunstâncias, idêntica em qualquer sistema lingüístico, em qualquer código de escrita ou de simbolização” (FOUCAULT, 2000b, p. 107).
Um outro exemplo citado pelo autor é o romance. A primeira vista, têm-se a impressão de que o sujeito enunciador-narrador, é o mesmo que assina a autoria do texto. No entanto, não é assim que funciona a produção discursiva: nesta modalidade enunciativa, aquele que formula “o indivíduo real que figura na capa do livro” (FOUCAULT 2000b, p. 106) assume apenas a posição enunciativa de sujeito-autor, os enunciados que constituem o texto/livro possuem, porém, diferentes sujeitos-enunciadores.
O gênero discursivo7 autobiografia8, no nosso entendimento, funciona como um modelo exemplar para observarmos a dissociação entre a instância produtora do discurso e o sujeito do discurso. Mesmo no caso desse gênero discursivo, cuja posição de sujeito enunciativo só pode ser ocupada pelo autor da formulação, os lugares enunciativos não se confundem, ou seja, não há uma coincidência entre as posições de sujeito-autor e de sujeito-autobiógrafo, uma vez que são posições discursivas diferentes, postas em funcionamento pela função enunciativa. O sujeito-autor que se responsabiliza pela autoria do texto autobiografado, para que possa assumir a autoria de um discurso direto sobre si mesmo deve ocupar, simultaneamente, a função-autor e o lugar de autobiógrafo: posição discursiva que possibilita ao sujeito do discurso produzir um “discurso de si”.
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Utilizaremos ora o termo “gênero do discurso” ou gênero discursivo proposto por Bakhtin: “tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2000, p. 279); ora a palavra “modalidades enunciativas”, termo proposto por Focault com o sentido de “formas de enunciados” (FOUCAULT, 2000b, p. 57), pois, entendemos que podem funcionar como sinônimos.
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Para uma leitura da noção de autobiografia no campo do discurso lierário, ver Philippe Lejeune: Le pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1975; Le pacte autobiographique (bis). In Poétique, 56. Paris: Seuil, 1983, p. 416-434 e, ainda, Maria Luiza Remédios: Literatura confessional- autobiografia e ficcionalidade. Porto Alegre: mercado Aberto, 1997.
Conforme Bakhtin, falamos por meio de gêneros do discurso (ou modalidades enunciativas no dizer foucaultiano); definidos pelo teórico como sendo “tipos relativamente estáveis de enunciado” (BAKHTIN, 2000, p. 279). Desse modo, o “querer- dizer” do sujeito que enuncia está sempre condicionado à escolha de um determinado gênero do discurso. Diz ele: “o querer-dizer individual do locutor quase que só pode manifestar-se na escolha do gênero” (BAKHTIN 2000, p. 302). E, completa afirmando que se os gêneros dos discursos não existissem e se não os dominássemos, “se tivéssemos que criá-los pela primeira vez no processo de fala (...), a comunicação verbal seria quase impossível” (BAKHTIN, 2000, p. 302) Todo gênero tem a sua formação, funcionamento e circulação regulados, não só pelas características próprias de cada gênero, mas, também, pelas regras de funcionamento discursivo imposta pelas “esferas da atividade humana”9,
pelas formações discursivas, no dizer foucaultiano.
Desse modo, entendemos que o querer-dizer do sujeito do discurso, no caso o autobiógrafo, é regulado pelo gênero do discurso do qual se apropria para enunciar aquilo que diz sobre si mesmo. Como o discurso do sujeito enunciador está, regulado pelo gênero discursivo, consideramos que o dizer do autobiógrafo constitui-se em uma seleção do que ele podia e devia falar, em uma determinada circunstância, desse modo o seu discurso é uma construção ordenada, característica própria de toda prática discursiva cuja produção e circulação acontecem de forma regrada. Desse modo, a produção discursiva do autobiógrafo sobre si, não o constitui enquanto um sujeito uno, primeiro porque o ato de enunciar, por si só, denuncia a dispersão do sujeito: incompletude de sujeito que não se recobre em sua totalidade por meio da linguagem e, segundo, porque o gênero autobiografia, embora tenha a sua existência marcada pela função de recobrir as vivências de um sujeito, não consegue dar conta da unificação do conjunto de identidades que constituem um dado sujeito que, neste caso, constitui-se pelo dado e pela falta.
Foucault afirma que as diversas formulações sígnicas são consideradas enunciados, não só porque houve, um dia, alguém para materializá-las em “uma superfície de inscrição, substância sonora, matéria moldável, incisão vazia de um traço” (FOUCAULT,
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Pela perspectiva foucaultinana, podemos afirmar que “as esferas da atividade humana” põe em funcionamento práticas sociais. Estas
gestam as práticas discursivas que, por sua vez, constituem as formações discursivas (FDs). Desse modo, as esferas figura m como a gestora das “coisas” a serem ditas” e as FDs como o conjunto de discursos constituído pelas “ coisas” ditas, por meio de diferentes modalidades discursivas.
2000b, p.110), mas, concomitantemente, porque se pode assinalá-las uma posição de sujeito discursivo. Assim, vamos entender o sujeito-psicógrafo e o sujeito-Espírito como aqueles que vão assumir funções distintas no discurso religioso espírita. O sujeito-Espírito, por ocupar um lugar, no discurso espírita, que habita o além túmulo - o mundo espiritual, exerce a função enunciativo-comunicativa de trazer as informações, descrições, vivências, mensagens do que a doutrina chama de “continuidade da vida após a morte”. Nesta perspectiva, o Espírito assume uma função-sujeito porque ocupa um lugar social e responde por um dizer constitutivo de sentido, de efeitos de sentido.
O sujeito-psicógrafo por ser um sujeito que habita o mundo terreno, palpável, visível, exerce uma função enunciativo-comunicativa de escrever as informações, descrições, vivências, mensagens enviada pelos Espíritos. Na doutrina Espírita, uma vez que os Espíritos não podem mais falar por meio dos órgãos que constituíam seu aparelho fonador, enquanto Espírito encarnado, fazem-se “ouvir” por meio do psicógrafo pelo processo (princípio) da mediunidade. Para tanto, utiliza-se dos órgãos do médium. Portanto o psicógrafo tem uma função e sua assunção se faz pela posição ocupada no mundo sócio histórico do Espiritismo. O exercício dessa função, no Espiritismo, é regido por um conjunto de regras que controlam o seu funcionamento. Situando-se, conforme Foucault, como dispositivo de controle na produção e circulação dos discursos que a constituem, a doutrina Espírita regula quem pode ser considerado um psicógrafo a partir do seu discurso. Este deve reproduzir na sua fala os postulados da doutrina. Para o psicógrafo, estar em consonância com os princípios que a constitui enquanto doutrina religiosa é uma das principais regras para que ele possa entrar na ordem do discurso do Espiritismo e, assim, ser considerado um psicógrafo Espírita.
Na AD, pensar em sujeito é pensar na construção discursiva, na emergência do discurso que instaura um sujeito que fala de um lugar sócio-histórico, portanto o sujeito é uma função construída a partir do ato de produção discursiva: um lugar enunciativo. Tomamos como fundamento teórico o princípio foucaultiano de que os discursos, “tais como podemos ouvi-los, tais como podemos lê-los sob a forma de texto, não são, como se poderia esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e palavras”. A partir dele, podemos afirmar que entre a coisa a se dizer e o que é dito sobre ela, o que há é uma construção discursiva.
Entendemos que o indivíduo formula discursos por meio de posições discursivas; só dessa forma ele pode tornar-se sujeito do que diz. Portanto, a relação que o sujeito-autor mantém com sua formulação não pode ser “superposta à relação que une o sujeito enunciante ao que ele enuncia” (FOUCAU LT, 2000b, p.105-106). Por isso, a proposta foucaultiana, para descrever a relação de uma formulação, enquanto enunciado, com o sujeito que enuncia “não consiste em analisar as relações entre o autor e o que ele disse (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas em determinar qual é a posição que pode e deve ocupar todo indivíduo para ser sujeito” dessa formulação (FOUCAULT, 2000b p. 109). Para o autor, alguns questionamentos devem servir de norte para a análise da emergência do sujeito discursivo nos enunciados: “como, segundo que condições e sob que formas, algo como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar pode o sujeito ocupar em cada tipo de discurso, que funções pode exercer e obedecendo a que regras?” (FOUCAULT, 1992, p. 70). Dessa forma, na ordem do discurso da doutrina Espírita os sujeitos Espírito e psicógrafo emergem e ocupam suas funções obedecendo às regras do dizer religioso espírita. Falaremos sobre essas regras, no ponto 2.4.
A produção e circulação dos discursos não funcionam de forma aleatória: obedecem a uma “polícia discursiva”10, ou seja, a uma ordem do discurso. É sobre os
movimentos instituídos pelo procedimento de verdade/vontade de verdade, na produção e circulação dos discursos que nos ocuparemos a seguir.
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Polícia discursiva é um termo proposto por Foucault (2000c). Refere-se ao conjunto de regras que controlam a produção e a circulação dos discursos em nossa sociedade. Essas regras, conforme o teórico, devem ser conhecidas pelo sujeito enunciador que ao entrar na ordem do discurso “verdadeiro” deve, necessariamente, saber e poder reativá-las.
1.3 Sob a “Ordem do Discurso”: as verdades/vontades de verdade na construção das