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In Situ Characterization of the Mechanochemical Reaction

Durante os anos 60 e até ao final dos 70, desenvolveu-se na Itália um amplo movimento de lutas operárias sem a direcção dos sindicatos e partidos da esquerda oficial. Acções massivas e radicalizadas – que articulavam a resistência quotidiana nas fábricas, a sabotagem das máquinas, ocupações de casas, criação de colectivos de autonomia cultural, realização de greves e confrontos de rua – marcaram esse período de crise revolucionária. Neste período surgiram diversos colectivos

96FINK, Carole; GASSERT, Philipp; JUNKER Detlef, 1998, 1968 The world transformed, Cambridge, Cambridge

e movimento autónomos que propiciaram uma reflexão teórica acerca do autonomismo.

A corrente autonomista tem a sua origem na criação da revista Quaderni Rossi, em 1961, por Raniero Panzier, que congregava pessoas de várias correntes políticas da esquerda italiana e das vanguardas sindicais da FIOM-CGIL de Turim. O grupo procurava formular em termos novos a estratégia política do movimento operário, defendendo que os trabalhadores não deviam lutar apenas pelo aumento do salário mas deviam lutar por aumentar o seu poder no local de trabalho e por controlar a organização da produção.

A importância do movimento autónomo italiano deve-se, no essencial, a quatro razões principais: a sua longa duração, de mais de 10 anos; a articulação de opções políticas e culturais muito diversificadas (marxistas, anarquistas, feministas, contraculturais) que realizavam trabalho de massas legal mas que defendiam, igualmente, a luta armada; a participação de toda a sociedade neste movimento e por fim, a capacidade que o movimento autónomo teve de manter durante tanto tempo a radicalidade dos conteúdos, das consignas e da inserção social97.

Em Itália também houve uma articulação entre a contestação estudantil e a contestação operária. O movimento de contestação estudantil, começou em Janeiro de 1966, com a ocupação do Instituto Superior de Estudos Sociais de Trento. Este Instituto era muito recente, tinha sido construído em 1962, e apresentava duas características novas: tinha a única faculdade de sociologia de Itália e era a primeira universidade massificada do país.

Os estudantes mobilizaram-se inicialmente contra o projecto de reforma Gui que visava adaptar a universidade às novas exigências do sistema produtivo, procurando articular o estudo universitário com as necessidades das empresas, e ao fluxo de estudantes provocado pelo prolongamento da escolaridade obrigatória.

Dois factores vieram logo de seguida radicalizar esta luta dos estudantes. O primeiro é a mobilização contra a guerra do Vietname e de apoio às lutas revolucionárias do Terceiro Mundo. O segundo, é a entrada dos trabalhadores e de novos grupos sociais, como as mulheres, no movimento de contestação98.

Os primeiros quatro meses de 1968 foram marcados por numerosas greves na FIAT e noutras fábricas do triângulo industrial do Norte de Itália. A 19 de Abril, o conflito radicalizava-se na empresa têxtil Marzotto, em Valdagno, Veneto, e davam-se as primeiras acções volentas entre a polícia e os operários, saldando-se em 42 presos. Em Junho, os trabalhadores da Pirelli em Milão insatisfeitos com o acordo entre a direcção da empresa e os sindicatos fundam a primeira Comissão de Base contra o controlo sindical.

97Cf: SCHIFRES, Sebastien, 2008, Le mouvement autonome en Italie et en France (1973-1984), Université Paris VIII

Os Comités de Base tornaram-se a principal forma de organização dos operários dentro da fábrica. Estes realizavam assembleias em que estavam presentes todos os trabalhadores e era aqui que se decidia, por votação, todas as matérias referentes a objectivos e formas de luta e eram eleitos os representantes dos trabalhadores. Estes Comités de Base acabaram por ser uma estrutura autónoma formada no interior da fábrica.

A contestação operária ganhou fôlego durante o ano seguinte. No chamado Outono Quente

de 1969, grande parte das indústrias do norte de Itália encontrava-se em greve por melhores salários

e melhores condições laborais e de vida. Estas greves foram extremamente violentas, com ocupação das fábricas por parte dos operários, destruição das máquinas e vigilância constante de piquetes de greve. Entre Setembro e Dezembro de 1969, cerca de 10.000 trabalhadores e responsáveis sindicais foram acusados de actos violentos.

A dimensão e radicalização das greves surpreenderam a sociedade, os sindicatos e os partidos políticos. Estas foram conduzidas por um operariado com um perfil particular: jovens, a trabalhar havia poucos anos, vindos das zonas rurais do Sul do país, sem tradição sindical. Estes trabalhadores recebiam salários muito baixos e viviam em más condições nas periferias das grandes cidades industriais do Norte.

Simultaneamente, começaram a ser criados organismos de trabalhadores e estudantes: Lega degli studenti et degli operai de Génova, Avanguardia Operaia, Potere Operaio e Lotta Continua. A percentagem de operários que militavam nestas organizações era de 40%, contra os 18,7% de empregados e 10,9% de estudantes99.

As relações entre os sindicatos e os grupos de esquerda radical mantiveram-se cordiais até 1972, com a maioria dos sindicatos a tentar acompanhar o movimento contestatário e a lançar e apoiar a realização de greves. Porém, depressa começaram a aparecer os primeiros sinais de afastamento devido, sobretudo, à estratégia política do Partido Comunista Italiano que controlava a principal central sindical, a CGIL.

A esquerda radical procurava radicalizar os seus meios de acção e alargar a luta a outros grupos sociais, como prisioneiros e soldados. Começava o movimento de ocupações de casas devolutas ou não habitadas, de escolas, universidades, cooperativas culturais, quartéis e prisões100.

A estratégia comunista, por seu lado, passava pelo compromisso histórico e pela perspectiva de concorrer às eleições legislativas de 1976, o que significava a ruptura com a esquerda radical e os meios de acção violentos. Esta entra num processo de recomposição, com certos grupos a aproximarem-se do PCI, enquanto outros enveredam pela luta armada, e outros optam pela sua

99SOMMIER, Isabelle, 2003, Les annés de plomb: un passé qui ne passe pas, Revue Mouvements nº 27/28, p. 197-198

auto-dissolução.

Estas organizações definiram várias estratégias de violência: a violência defensiva para resistir à fascização do Estado ou a um golpe de Estado – defendida pelo Gruppi di Azione Partigiana, (GAP); a violência ofensiva para conduzir a revolução, estratégia defendida pelo Potere Operaio e Brigatte Rosse; a violência difusa, criadora de “territórios livres” defendida pela Autonomia Operaia101.

A agressividade e a escalada de violência aumentavam. Em 1972 acelerava-se o projecto insurreccional do Potere Operaio e aumentava significativamente a escalada da violência nas outras organizações que defendiam a luta armada. Neste ano, ocorreu o assassinato não reivindicado do comissário Calbresso, e o sequestro do dirigente da Sit Siemens Idalgo Macchiarini, pelas Brigate Rosse102.

Entre 1974 e 1977, a violência tornava-se, progressivamente, obra de grupos armados clandestinos especializados ou de colectivos autónomos. Entrava-se numa fase em que os sequestros e os assassínios se tornavam mais frequentes.

A questão da luta contra o fascismo era central neste processo de aumento de escalada da violência. A memória da II Guerra Mundial continuava muito presente e os militantes das organizações de esquerda radical explicavam os confrontos com grupos de direita como uma consequência da agressividade fascista que contava com a cumplicidade das forças de ordem. O atentado da Piazza Fontana, em 12 de Dezembro de 1969, alimentou a crença numa evolução autoritária do país e inaugurou uma série de atentados perpetrados pela extrema-direita, com vista a criar um clima de tensão na sociedade italiana que favorecesse o endurecimento das medidas repressivas e autoritárias do Estado contra as manifestações, as greves e a contestação social.

Em setembro de 1976, as Brigate Rose sequestram e assassinam Aldo Moro, primeiro- ministro italiano, o que dáeu início a uma grande ofensiva do Estado contra os grupos que defendiam e levavam a cabo acções armadas103.

A prisão a 7 de Abril de 1979, dos líderes da Autonomia Operária, Toni Negri e Oreste Scalzone, marcou o início do fim do movimento autónomo em Itália. Em 1981, era preso o líder brigadista Mario Moretti, dando origem ao início do desmantelamento das Brigatte Rose.

O governo italiano adoptou legislação de urgência composta por inúmeras leis de excepção que aumentavam o poder da polícia, a duração da prisão preventiva e das penas, militarizava a luta antiterrorista e introduzia novas imputações, como a de cumplicidade moral.

Esta contra-ofensiva fez com que 4 087 activistas de esquerda tivessem sido condenados por

101SOMMIER, Isabelle, 2003, Les annés de plomb: un passé qui ne passe pas, Revue Mouvements nº 27/28, p. 199

102SOMMIER, Isabelle, 2003, Les annés de plomb: un passé qui ne passe pas, Revue Mouvements nº 27/28, p. 199

pertencerem a associações subversivas ou bandos armados e condenados por “tentativa de subversão da ordem constitucional”. O Ministério do Interior italiano estimou que a estes grupos tivessem cerca de 100.000 militantes

Em Março de 1987, os detidos políticos, entre eles, os lideres brigadistas Renato Curcio e Mario Moretti lançaram a campanha da liberdade, a favor de uma amnistia e declaram “o fim de um ciclo político de luta armada”104.