IV. RACIONALIDAD JURÍDICA, EMOCIÓN y ACTIVIDAD JURISDICCIONAL
7. Impulsos personales e intuiciones morales
Na última década, chama a atenção a publicação de diversos produtos midiáticos no ambiente digital produzidos no Pará, chamados webséries. As primeiras produções do gênero eram complementares a seriados de televisão, geralmente com estórias paralelas ao enredo principal. Aeraphe (2013) aponta que as primeiras webséries eram elos de transição entre as temporadas dos programas, a fim de manter o interesse da audiência ou dar suporte para campanhas publicitárias.
Na área acadêmica, o trabalho de Nuria Lloret Romero & Fernando Canet Centellas (2008) é fundamental para a categorização e identificação de conteúdo audiovisual para a Internet, incluindo as webséries. Na definição proposta pelos
pesquisadores, uma websérie é um gênero narrativo baseado em múltiplos núcleos narrativos e utilização de recursos que pretendem desenvolver a estória e, ao mesmo tempo, capturar a atenção do webespectador a cada unidade da produção, a qual os autores nomeiam de websódio e acreditam que deva ter a duração máxima de cinco minutos.
O diferencial dos seriados televisivos para as webséries é a incorporação pelo segundo de ferramentas próprias dos meios contemporâneos de comunicação (ROMERO; CENTELLAS, 2008. p. 06) para o desenvolvimento da trama e na formação de uma linguagem própria. As produções criam sítios próprios, incentivam a participação da audiência, facilitando o surgimento de comunidades virtuais para discutir os websódios e até mesmo influenciar diretamente no desfecho das estórias. Entretanto, para que todas essas possibilidades sejam oferecidas ao público, as produtoras necessitam pulverizar estas ferramentas em plataformas as quais oferecem esses serviços.
Algumas produções optam por associar o YouTube com as Redes Sociais, como Facebook e Twitter. O primeiro é usado para a hospedagem dos websódios, bem como o registro de comentários da audiência. Os dois últimos para compartilhamento dos vídeos, além de conteúdo extra e comentários. As produtoras também têm como alternativa a criação de blogs em sites que disponibilizam esse serviço gratuitamente (como o Blogger ou Wordpress) ou até mesmo a combinação de todas as ferramentas citadas. (LOPES DE SOUZA, 2016. p. 06)
Wodevotzky (2015) descreve o YouTube como uma das ferramentas utilizadas que agrega as maiores potencialidades nesta reconfiguração do cenário audiovisual, caracterizado pelas novas formas de distribuição e consumo destes conteúdos. Uma das possibilidades destacadas nos escritos do autor é a de envolver os consumidores no seu desenrolar, como já abordamos. Esta é a marcação principal que insere a plataforma no contexto cibercultural. Para que isso ocorra, ferramentas colaboram para a constituição deste ambiente. Elas são:
a possibilidade de inserir hiperlinks que se configuram como botões na superfície dos audiovisuais apresentados. São links clicáveis para outros vídeos ou que pulam para outra parte do mesmo vídeo, gerando uma elipse5. Esses links também podem ser usados para acessar
outros elementos da plataforma, como, por exemplo, acessar páginas de outros canais, ir para a janela de comentário do vídeo ou de inscrição no canal, enviar vídeo-resposta e compartilhar o conteúdo. A
navegação por esses links altera a temporalidade dos espectadores, acelerando ou desacelerando a percepção temporal. Esses links no
YouTube, no entanto, só permitem conectar elementos – vídeos,
páginas e canais – que estão dentro da própria plataforma YouTube, olhando e levando sempre e somente para dentro de seu próprio universo. (WODEVOTZKY, 2015. p. 27)
Com esta diversidade de recursos, as produções configuram interfaces que promovem o diálogo com outras plataformas que também dispõem do seu conteúdo narrativo, resultando assim em fluxos que instigam o Espec-ator a percorrê-los objetivando a construção deste universo. A esta integração de ferramentas e linguagens, assim como Jenkins (2008) denomina, este modelo narrativo pode ser considerado transmídia, isto é, é elaborado um universo narrativo “através de múltiplas plataformas midiáticas em que cada novo texto faz uma distintiva e valiosa contribuição para o todo” (JENKINS, 2008. p. 95).
Neste contexto, é importante discutirmos o papel do websódio. Acreditamos que este é o elemento principal das webséries. Para isso, recorremos aos estudos de teledramaturgia, área na qual a produção digital para a Internet utiliza como referência. Dialogamos com Pallottini (2012) e seu apontamento de três possibilidades de desenvolvimento das tramas produzidas. Para estes modos, Pallottini os denominou como unitário, seriado e capítulo.
O modelo unitário, como o próprio nome sugere, em apenas uma parte, sem a existência de oportunidade(s) para concluir possíveis ganchos existentes na narrativa, com um final provisório ou definitivo, insatisfatório ou agradável. São produtos curtos que precisam ser tecnicamente muito bem divididos, o que implica no número de tramas desenvolvidas: “o unitário não admitirá muitas personagens, pelo menos as de verdade. Pode aceitar muitos figurantes, mas isso é outra coisa. Personagens que tenham função, que tenham ação, que sejam necessárias, com certeza serão poucas” (PALLOTTINI, 2012, p. 38). Isso significa dizer que o unitário contém uma “unidade dramática”, ou seja, um objetivo estabelecido pelo o autor o qual deve ser contado a partir de uma perspectiva escolhida. Acreditamos que este modelo é semelhante ao adotado pela produção “Sampleados”, uma vez que cada websódio apresenta uma estória diferente, sem ligação umas com as outras.
O modelo seriado apresenta uma estória com começo, meio e fim, mas este difere do unitário por estar contido em um conjunto maior. Em episódio, como Pallottini chama essas unidades, nem sempre é possível entender algumas nuances de certas
personagens, por estas terem sido apresentadas em episódios anteriores. Uma das características do seriado é a abordagem. Em cada episódio, o ponto de vista pode – e deve – mudar e, ao mesmo tempo, manter a filosofia geral. Logo, o protagonista de um episódio nem sempre é a personagem cuja a ênfase da partícula está direcionada, porém, ele e os demais tipos estão presentes na estória, mantendo todas as nuances e as relações idealizadas na sua concepção. Para que essas unidades façam sentido, é vital que toda a filosofia que guiará a estória seja bem apresentada no primeiro episódio, o piloto. Este modelo descreve o encadeamento das unidades (websódios) de “A Solteirona”, pois o conjunto narra uma única estória, apresentando vários fragmentos desta e pontos de vista distintos em cada unidade produzida.
Até este ponto, buscamos compreender o produto websérie e o funcionamento de sua estrutura principal, o websódio. A seguir, descrevemos o processo de produção do corpus elaborado para observação nesse estudo.