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The Improved Pipeline

4.1 Improving the Initial Stitching Code

O divã constitui o símbolo por excelência da psicanálise, na qual sua função é fundamental, já que é o objeto que fornece a especificidade de sua organização. Foi utilizado por Freud desde o início de sua criação terapêutica. Ele percebeu que, em postura relaxada, a

associação-livre era facilitada, o que ajudava a pessoa a rememorar fatos que tinham

acontecido havia muito tempo atrás, ainda na infância. Com isso, não era necessário hipnotizá-la, bastava o divã, que eliminava a necessidade de direcionamento por parte do

analista em relação ao que deveria ser falado pelo paciente. Freud acreditava que com o divã

era possível eliminar a base da resistência, principal empecilho para a “entrada” do indivíduo na análise. O divã tem, então, a função de possibilitar maior liberação pessoal, facilitar a vazão dos conteúdos inconscientes. No caso da neurose, o divã constitui mecanismo terapêutico fundamental, já que todo neurótico é recalcado e, por isso, carece da liberação proporcionada por aquele. Pode-se dizer que constitui uma das principais ferramentas de trabalho de um analista, seguido da escuta.

A técnica lacaniana determina que, para deitar no divã, o analisante deve passar pelo processo das entrevistas preliminares, no qual o analista vai, pouco a pouco, mostrando como é o procedimento terapêutico, e aquele vai percebendo quais são as respostas e interpretações que lhe são oferecidas; e o processo analítico lacaniano só se efetiva com a “passagem para o divã”, que acontece quando o indivíduo acessa o simbólico (os conteúdos inconscientes), abrindo mão das determinações do imaginário (a consciência). O termo “passagem ao divã” remete a um processo em que o paciente vai galgando etapas até que finalmente atinge a maturidade de significação para fazer o rito de “iniciação analítica”, quando incorpora os modelos de significação e interpretação psicanalítica para a explicação de seus conflitos subjetivos.

Segundo explicaram os analistas, há pessoas que podem ir para o divã com poucos meses de análise; outras, chegam a ficar anos na poltrona — depende de cada analisante, de sua estrutura clínica e de quando elabora a demanda analítica56. O divã aparece, então, como se fosse uma conquista da posição de analisante57:

      

56 Demanda analítica é o desejo de realizar efetivamente uma análise. Refere-se à percepção adquirida pelo

paciente de como funciona a terapêutica. O conceito será mais bem explicitado no capítulo 4.

57 Esclareço que, ao contrário do que fiz na introdução, em que utilizei os verbos no passado para apresentar os

analisantes que participaram desta pesquisa (devido ao tempo já decorrido desde que fiz as entrevistas), nas

citações de suas falas que estão destacadas do texto utilizo o verbo no presente, qualificando-os da maneira como se apresentaram naquele momento.

Na primeira vez que fiz análise eu não usei o divã, eu não consegui ir [...] acho que eu precisava da segurança do olhar dela [psicanalista], eu era adolescente. Daí, depois, na faculdade, eu já consegui ir, demorei um tempo também, eu ficava na poltrona da frente, e quando falava pra ir por divã, eu falava ‘Não, não vou, não quero ir’, porque isso é muito sentimento, sabe?! Não sei nem pôr em palavra. Você não consegue, não tem vontade, mas, depois que você vai, pensa ‘Puts! por que demorei tanto pra ir’ [...]O fato de não ter o julgamento do olhar, o fato de você tá ali só com a sua voz e a do analista, remete muito ao inconsciente [...] traz as coisas lá de dentro, as coisas saem muito mais fáceis; você tem os insights, lembra de alguma coisa, faz a tal associação-livre que Freud falava. (Rosana, 25 anos, psicóloga, analisante há mais ou menos dez anos)

Ah, no começo, quando eu ficava sentada de frente pra ela, era até mais difícil, depois que eu fui pro divã foi mais fácil. [...]Olha, na verdade, já fazia um tempo que eu fazia terapia, ela [psicanalista] nunca tinha falado nada, eu via meio assim o divã [olhar de desconfiança], achava que desde a primeira [sessão] já deitava no divã, aí um dia ela falou ‘Se você quiser experimentar o divã, pode deitar, fica à vontade’ — e desde que eu fui, eu nunca mais voltei [para a poltrona]. [...] acho que a falta do contato visual ajuda bastante a falar. Às vezes, ficar falando, dá medo de olhar alguma reação. Isso nunca aconteceu, mas, normalmente, quando você tá conversando com alguém, você presta atenção nisso e isso inibe. (Juliana, 28 anos, estudante de desenho industrial e já formada em direito, analisante há dez meses)

Esses dois analisantes acreditavam que apenas deitados conseguiam falar abertamente sobre sua vida, já que não havia a referência do olhar do outro, e, assim, apreender a “dimensão inconsciente”. Essa lógica de pensamento expressa a assimilação da técnica psicanalítica na elaboração da narrativa sobre si. Os outros ainda não haviam sido solicitados a deitar no divã, e estavam ansiosos e temerosos por essa determinação do analista. Apenas Adriana disse estar com vontade deitar — “Não vejo a hora de me jogar naquele divã” —, pois sabia que só então entraria realmente em análise. Alessandra e Fabrício, no entanto, afirmaram não ter essa vontade — “Não precisa de tudo isso, eu acho” (Alessandra). Os dois se mostraram aliviados por ainda não terem feito a “passagem”. Entendiam ser uma experiência estranha, como se fossem ficar falando sozinhos.

Segundo Ana, uma vez, uma analisante chegou dizendo que não poderia se deitar porque tinha acabado de passar por uma cirurgia, “então eu virei minha cadeira, aí ela disse:

‘Você vai falar assim comigo?’. E eu disse: ‘Vou!’. Aí ela responde: ‘Então eu deito’”. Na

psicanálise lacaniana não há a liberdade de escolha presente em outras abordagens psicanalíticas, em que o paciente decide a hora em que quer deitar e se vai deitar ou não em determinada sessão. Segundo as analistas, a recusa em ir para o divã é tomada como questão a ser “analisada e trabalhada nas sessões” (Helena), pois revela resistência em se entregar a uma “análise profunda”:

Na abordagem lacaniana não tem essa de deitar a hora que quer, levantar a hora que quer, porque o divã é um recurso técnico. Tem uma função bem pontual e bem específica: a demanda analítica, a aposta no sujeito suposto saber, a pessoa respondendo às intervenções que a gente faz. (Helena).

Essa colocação expressa a autoridade do psicanalista na relação terapêutica. O fato de o analisante não querer deitar é tomado como “resistência”, algo que deve ser eliminado; não há chance, na relação analítica, para as suas preferências — estas estão no plano do “eu”, do narcisismo, do engodo da consciência. Ao desalojar o “eu” do centro de nós mesmos e colocar em seu lugar um sujeito que só pode enunciar ao analista, este faz da análise um mecanismo de sujeição da pessoa a esse saber. Para Deleuze (2006a), na análise se tem a impressão de falar. Porém, mesmo que se fale à vontade, todo o processo analítico é feito para suprimir as condições de uma verdadeira enunciação. Isso porque o que quer que se diga será preso a um modelo interpretativo, e o paciente nunca poderá ter acesso ao que ele realmente tem a dizer.

É possível tratar a determinação da “passagem ao divã” de forma homóloga (apesar de suas diferenças fundamentais) ao “rito de iniciação” determinado socialmente aos neófitos ndembu. Como analisou Turner (2005), os ritos de passagem se caracterizam por modos estereotipados de representação na produção e na encenação de emoções padronizadas e obrigatórias. Os “ritos de passagem” indicam e constituem transições entre estados, e a sua base, entre os neófitos ndembu, está em um período de “liminaridade”. Esse período transicional do ser se caracteriza pela segregação social e estrutural; os neófitos são retirados de suas posições sociais, perdem as referências dos valores, normas e sentimentos. Turner (2005, p.151) aponta que “A liminaridade pode ser em parte descrita como um estágio de reflexão”. Ora, o período das entrevistas preliminares pode ser considerado um “período liminar”, em que o indivíduo ainda não se encontra na condição de analisante. O indivíduo é levado pelo analista a estabelecer uma reflexão inédita sobre si, a questionar pensamentos e ações que julgava não existirem, a aprender a escutar uma esfera desconhecida, a apreender as determinações externas presentes em seus atos e sentimentos. O momento das entrevistas é, então, a preparação para a “iniciação”, para ascender à posição de analisante.

O método psicanalítico propicia a liberação dos conteúdos inconscientes pela fala, e esta é facilitada pela disposição do divã — e a organização do processo analítico em torno deste expressa a mobilização simbólica operada no procedimento terapêutico. Semelhante ao que acontece no ritual ndembu, as emoções são induzidas e, em seguida, despidas dos seus aspectos ilícitos e antissociais. Segundo Turner (2005, p.460), em relação aos rituais de cura ndembu, “qualquer que seja a eficácia deste rito [...] ela reside na habilidade demonstrada

pelo curandeiro em cada etapa da sua performance”, já que, como na psicanálise lacaniana, não se faz referência a qualquer procedimento fisiológico ou uso de medicamentos.

Pensando nas bases estruturais da sociedade ocidental, pode-se dizer que a psicanálise constitui-se numa prática narrativa, restabelecendo essa tradição como dispositivo de tratamento clínico e cuidado de si58 (FOUCAULT, 2009). No entanto, esse “cuidar de si” refere-se à enunciação da verdade, parecendo uma continuação das práticas de confissão promovidas pela Igreja Católica, tornando-se um poderoso mecanismo disciplinar de submissão de corpos e mentes:

[...] a vontade de saber a verdade sobre nós mesmos, própria à nossa cultura, instiga-nos a falar a verdade; as confissões que se sucedem, confissões que fazemos aos outros e a nós mesmos, e esta colocação em discurso instauram um conjunto de relações de poder entre aqueles que afirmaram ser capazes de extrair a verdade destas confissões através da posse de chaves de interpretação. (DREYFUS; RABINOW, 1995, p.192)

Para Foucault (2009), o psicanalista assume o papel de um “curador” da mente, e é responsável pela direção da consciência do indivíduo, por mais que haja uma teoria que diga que o terapeuta não faz isso. A terapia se utiliza da “maquinaria” da confissão como uma técnica de exame de consciência, um mecanismo de produção da verdade de si. A psicanálise é, então, uma técnica para sanar os efeitos da interdição onde o seu rigor a torne patogênica.