Stearns (2006) destaca que as primeiras ideias e ações relacionadas à infância se formaram no contexto das sociedades caçadoras - coletoras. As evidências desses grupos provêm de alguns resquícios de materiais observados de sociedades caçadoras - coletoras que sobreviveram nos tempos modernos. As evidências diretas sobre as sociedades caçadoras- coletoras apresentam a infância como uma fase incômoda devido às frequentes restrições de recursos e à necessidade de andar com as crianças à procura de alimentos. Nesse contexto era difícil para o grupo locomover-se com mais de uma criança pequena por família, o que consequentemente influenciava a taxa de natalidade. Apesar de as crianças auxiliarem as mulheres no trabalho de coleta de alimentos, suas necessidades eram maiores que essa contribuição. Dessa forma, até a fase de adolescência, sua colaboração na economia do grupo era reduzida, o que justifica as restritas representações de crianças na arte primitiva.
Apesar dessas restrições e do fato de as crianças serem vistas como uma carga, Stearns (2006) afirma que nas sociedades caçadoras – coletoras a infância era um período para brincar e auxiliar esporadicamente no trabalho do grupo. Em alguns grupos, as crianças brincavam constantemente com adultos, apresentando uma interação mais intensa. Ao contrário de infâncias como na sociedade agrícola e industrial, as crianças nas sociedades caçadoras – coletoras usufruíam de período prolongado entre a infância e a maturidade.
A sucessão da caça e da coleta pelo sistema econômico da agricultura aconteceu aproximadamente, há dez mil anos atrás, acarretando assim várias mudanças para infância.
Stearns (2006) destaca que a transformação mais notória que a agricultura ocasionou para infância foi uma redefinição da utilidade das crianças no trabalho. Não se sabe ao certo quando as famílias do período agrícola perceberam que as crianças poderiam ser uma mão de obra valiosa. O que o autor destaca é que as taxas de natalidade aumentaram no período agrícola, resultado decorrente da expansão do suprimento alimentar. Também as crianças eram consideradas aptas e deveriam auxiliar de maneira contínua e não somente esporadicamente na produção de alimentos.
Enquanto que a família na sociedade de caçadores – coletoras é considerada como o primeiro grande grupo familiar responsável pela prolongada dependência da infância, no período agrícola, as famílias davam forte ênfase em inculcar obediências dos filhos para com
os pais, com o objetivo de que esses ensinamentos se estendessem até a fase adulta e, assim, a família garantiria força de trabalho para a economia familiar.
Assim, a família no período agrícola é considerada como o primeiro agrupamento de socialização de indivíduos e que é responsável em oportunizar valores éticos, vínculos de solidariedade e bem-estar das pessoas.
A família, como agrupamento humano, ora é influenciada por fatores históricos, sociais e econômicos, ora é a própria família que contribui para a mudança social, como se pode observar adiante. A compreensão de família para Ferrari (2002) é entendida como um grupo de indivíduos que compartilham circunstâncias históricas, culturais, sociais, econômicas e afetivas. Para essa autora, a família, que possui diálogo próprio e determinada dinâmica, não pode ser considerada somente como receptora, mas emissora de influências culturais e de acontecimentos históricos.
No entendimento de Deslandes, Assis e Silva (2004), além de sofrer influência dos meios sociais, culturais e econômicos, a família é considerada como um dos atores que colaboram para a mudança social. Ela não pode ser considerada como um grupo passivo diante da mudança social que somente absorve as variações sociais, mas como uma intérprete que colabora, segundo circunstâncias e vários graus de liberdade, para demarcar as formas e os sentidos da própria mudança social. Nesse contexto, é interessante observar a quebra do paradigma em que a família é vista somente como uma “esponja” que “absorve” as influências do contexto externo ou como uma ilha isolada dos contextos históricos, culturais, sociais e econômicos. É dentro desse subsistema chamado família que está presente a tensão de poderes constituídos e constituintes da sociedade. Apesar da maioria das famílias no Brasil serem consideradas protetoras, ao custo de grandes sacrifícios (FALEIROS & FALEIROS, 2008), são nessas mesmas famílias que se encontram formas de relacionamentos adultocêntricos, machistas, autoritários e preconceituosos.
É nesse contexto de relações desiguais, em que o dominador utiliza-se de coação e agressão e transforma o dominado em objeto para seus proveitos, que reside a violência doméstica contra criança.
Pelo visto, a família tem a capacidade de contribuir no seu dia a dia para mudanças sociais de grande abrangência. Exemplo disso foi a transformação no contexto das famílias agrícolas em relação ao trabalho produtivo que passou a revelar a expansão e a importância da infância como mão de obra produtiva não remunerada. Em inúmeros casos era fundamental retardar a maioridade de muitas crianças, com o objetivo de que as mesmas continuassem trabalhando na economia doméstica. Além do trabalho infantil, a sociedade agrícola inseriu outras alterações em relação ao
significado e à experiência na infância. Dentre elas, Stearns (2006) destaca o status na infância, cujas marcas corporais e adornos indicavam as crianças que faziam parte dos grupos mais abastados e emergentes. Exemplo dessa realidade é retratado nas crianças da antiga civilização Maia, na América Central, que tinham a cabeça enfaixada, quando ainda eram bebês, e, assim, permaneciam, durante toda a infância, com a finalidade de alongar a cabeça, produzindo, dessa maneira, uma prova visível e contínua de sua condição social.
Outro caso de demonstração de status refere-se às meninas chinesas que tinham seus pés amarrados a ponto de causar deformações, prejudicando sua locomoção. Entretanto, o andar arrastado que essas meninas apresentavam por toda a vida era visto como algo elegante e charmoso. Por consequência, esse grupo de crianças tinha a condição de exercer trabalho reduzido.
Além dessas práticas ainda havia a questão da alimentação diferenciada para as crianças da classe alta, que tinham acesso à comida apropriada, principalmente em relação à proteína, como a carne. Stearns (2006) destaca que era uma diferença significativa em relação ao tamanho entre uma criança de classe alta e a maioria das crianças da sociedade em geral.
A questão de gênero2 entre as crianças era marcada pela diferença em termos de tarefas, funções e grau de importância entre meninos e meninas. Na maior parte das sociedades, a menina era considerada inferior; as que apresentavam alguma deficiência eram mais susceptíveis ao infanticídio. Para as meninas havia rigorosas práticas de castigos como cárcere domiciliar, acorrentamento e, para os meninos, a punição incluía marcas na testa.
Outro fator que influenciou a delimitação de gênero foi o advento da escrita e da leitura nessas sociedades. Somente os meninos e os de classe alta tinham acesso à leitura; para as meninas restavam os afazeres domésticos.
Apesar da visão da criança na sociedade agrícola como uma trabalhadora produtiva, a cultura e a lei concediam aos pais o poder de punir seus filhos, diante de uma desobediência, com a morte ou a expulsão do convívio familiar. A punição para alguns pais que, frequentemente, espancavam seus filhos se resumia em punições modestas. Em tempos econômicos difíceis, os pais podiam vender seus filhos para, assim, colaborar com as despesas familiares e reduzir os seus encargos. Em contrapartida, as leis que protegiam crianças apresentavam reduzido aprimoramento e pouca efetividade para os casos de agressões contra crianças.
2A violência contra o sexo feminino, vista a partir da relação de gênero, caracterizada de dominação, opressão e
crueldade é vista, ao longo desse trabalho, - independente da classe social, raça, etnia ou faixa etária, nas diferentes sociedades aqui apresentadas. A menina, desde a mais tenra idade, era direcionada para trabalhos da esfera privada e o menino para atuação na esfera pública. A menina, além de sofrer pela condição de gênero, sofria também pela condição de criança.
O relato histórico das primeiras civilizações nos mostra um preâmbulo da diversidade de circunstâncias a que estava submetida a criança. Nesse contexto, a mudança mais notória que a sociedade agrícola ocasionou foi uma nova concepção quanto à inserção das crianças no trabalho. O trabalho produtivo caracterizou-se, nesse período, como a essencial descrição da infância. Destaque-se que a infância exibia mais questões em comum nos diferentes grupos sociais do que disparidades, principalmente, tratando-se do utilitarismo da criança. Outra questão comum entre os grupos sociais que merece consideração é a reduzida importância dada à infância e à violência que as crianças sofriam, como castigos, punições e até mesmo o que se denomina atualmente de tráfico infantil3, em tempos de dificuldades econômicas.