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Em suas reflexões sobre o processo de produção do conhecimento científico, Marx assinala que esse processo é sempre afetado pela “luta de classes” travada no âmbito das relações materiais. Nessa perspectiva, afirma a subordinação da forma-sujeito do saber científico à forma-sujeito do político e incita a desestabilização do conceito de sujeito produzido pelas ciências humanas no campo da complementaridade. Esse sujeito do campo da complementaridade, estabelecido sob as bases da universalidade e imutabilidade, cede lugar, na teoria marxista, a uma posição de sujeito “histórico, assujeitado à divisão em classes” (HENRY, 1992, p. 128). Assume, portanto – sobretudo a partir dos diálogos de Pêcheux com os estudos foucaultianos –, uma configuração de dispersão, que será um dos fundamentos do

conceito de sujeito discursivo desenvolvido pela corrente histórico-ideológica da Análise do Discurso na sua interface com outras teorizações.

Com relação ao campo da lingüística e à construção de um “sujeito da linguagem”, Henry (1992) salienta que, ao constituir-se na ruptura com a gramática histórica e a filosofia, a lingüística não conseguiu, entretanto, desvencilhar-se da noção de “sujeito-indivíduo” construída nesse campo. Nesse sentido, o autor convoca a categoria marxista de “luta de classes” para o interior dos estudos lingüísticos e assevera que:

o materialismo histórico supõe uma posição de sujeito da ciência que rompa com esse sujeito permanente, eterno, seja no fora-do-lugar da verdade ontológica, ou por sua gênese no modelo do sujeito epistêmico piagetiano, integrando o processo de produção do conhecimento, concebido como autônomo com relação à luta de classes. (HENRY, 1992, p. 128)

O movimento marxista de subversão da forma-sujeito estabelecida nas ciências humanas (sobretudo, na lingüística) emerge no que Althusser designou como uma crítica radical do humanismo, empreendida por Marx no movimento teórico de esvaziamento da categoria essencialista de sujeito, tal como a filosofia o concebia. De forma mais contundente, essa subversão emerge na localização das ideologias práticas burguesas como origem desta forma-sujeito estabelecida sob o princípio da individualidade. Numa perspectiva materialista, acredita-se que:

a forma-sujeito “indivíduo-sujeito”, a que apresenta o sujeito como interioridade da individualidade orgânica, é a forma-sujeito constitutiva das ideologias práticas burguesas. Ela foi constituída principalmente a partir da noção de sujeito das ideologias jurídico-políticas burguesas, através das noções de representatividade jurídica individual, de direito político individual, de propriedade privada individual, transmitindo-se à filiação orgânica do indivíduo etc...(HENRY, 1992, p.138)

Como se vê, o marxismo dá lugar à desestabilização de uma noção de subjetividade pautada na identificação entre sujeito e indivíduo, concebidos como corpo orgânico, objeto natural. Como efeito desta ruptura, tem-se a irrupção de uma nova perspectiva de abordagem do sentido, uma vez que, segundo Henry (1992), o lugar atribuído ao sujeito nas teorias lingüísticas incide sobre a atitude tomada em relação ao sentido. Dessa forma, é possível reconhecer, no materialismo histórico, os fundamentos de uma teoria discursiva da Análise do Discurso, que trata a subjetividade na relação das práticas discursivas que produzem o sujeito e os efeitos de sentido. É o que se pode ver na seguinte afirmação de Henry, que restitui elementos da teoria marxista, reintegrando-os aos domínios da linguagem:

Considerar assim o sentido indica que ele não pode estar relacionado com a forma-- sujeito “indivíduo-sujeito”, ser procurado nas palavras, no texto ou no discurso de um indivíduo, mas na relação desse texto, dessas palavras, desse discurso individual com outros textos, outras palavras, outros discursos, relação na qual esse sentido se constitui enquanto efeito ideológico. Ao mesmo tempo, essas relações com outros textos, outras palavras, outros discursos individuais nos quais esse sentido se constitui como efeito, não se dão com quaisquer textos, quaisquer discursos individuais ou quaisquer palavras (HENRY, 1992, p. 140)

Assim como em Marx, encontram-se, nas elaborações freudianas, os fundamentos de uma subversão do “sujeito da linguagem” produzido pela lingüística no campo da complementaridade entre sociologia e psicologia. Esta subversão se realiza, inicialmente, pela tese freudiana, que correlaciona o inconsciente à dependência do sujeito em relação à linguagem e, por conseguinte, põe em causa a autonomia e a completude atribuídas à subjetividade. Nessa mesma direção, desenvolve-se a formulação lacaniana do inconsciente como dimensão constituída fora da instância da individualidade. Concebido como uma “cadeia de significantes que se desdobra de acordo com regras sobre as quais o eu ou self não

possui qualquer tipo de controle” (FINK, 1998, p. 26), o inconsciente inscreve a alteridade na constituição do sujeito e se apresenta como lugar privilegiado da subjetividade. Desse modo, possibilita a ressignificação da noção de sujeito, instaurando-o na ordem do simbólico, como efeito de linguagem, cindido na sua própria constituição.

Apesar das disjunções entre os domínios do inconsciente e da ideologia, suas implicações para as investigações dos fatos de linguagem permitem uma aproximação, que, longe de fazer coincidir psicanálise e marxismo, reconhece suas contribuições para a instauração de uma teoria não-subjetiva da subjetividade. Afinal, nesse contexto de desestabilização da concepção idealista de sujeito, configura-se o quadro epistemológico que propiciará, a partir da segunda metade do século XX, o desenvolvimento da Análise do Discurso, como teoria dos processos discursivos, assentada em uma concepção de sujeito afetado ideologicamente e divido entre o Outro e o mesmo.

2.3 Do algoritmo à “falha”: o percurso da noção de sujeito em Michel