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Em 1813, na primeira metade do século XIX Fortaleza era uma vila modesta com uma população em torno de 12.810 habitantes263. Era um povoado pacato e pouco

desenvolvido. A sua paisagem urbana foi narrada em crônicas de viajantes estrangeiros que por ali passaram. Instalado no Recife desde 1809, o britânico Henry Koster escreveu suas impressões ao passar por Aracati (litoral leste) e Fortaleza no ano de 1810. Para ele, esta última constituía-se em uma pequena povoação, “de quatro ruas”, “formato quadrangular”, com poucos moradores, uns “1.200”, sem muito desenvolvimento urbano, “edificada sobre terra arenosa”, com ruas sem calçamento e casas de apenas um pavimento térreo. Possuía três igrejas, o palácio do Governador, a Casa da Câmara e prisão, alfândega e tesouraria, com um comércio ainda “limitado”, transportes terrestres difíceis e um porto “exposto e mau”264. Em seu relato descreveu um jantar em que

participou no Palácio do governador por ocasião da celebração do aniversário da rainha de Portugal D. Maria I (1734-1816). O que chamou a sua atenção foi o fato da maioria das 30 pessoas que jantavam nesta noite estarem fardadas265. Esses militares

representavam a companhia de tropas regulares, indicativo da possível existência na cidade de músicos responsáveis pelos toques de comandos militares, ou seja, corneteiros,

262 FARIAS, op. cit., 2012, p.159-167.

263 Número contabilizado a partir do censo realizado pelo governador Manuel Ignácio de Sampaio e Pina

(1812-1920) (AZEVEDO; Miguel Ângelo de (NIREZ). Cronologia Ilustrada de Fortaleza: roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza, 2006, p.8 (CD-ROM)).

264 KOSTNER, Henry. Capítulo VII. In: Viagens ao Nordeste do Brasil. Tradução e notas de Luiz da

Câmara Cascudo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942, p.164-167. (Biblioteca Pedagógica Brasileira Brasiliana, Série 5º, volume 221). Título original: Travels in Brazil; FARIAS, op. cit., 2012, p.104-105. Em 1839, outro estrangeiro visitou Fortaleza. Foi o missionário norte americano Daniel Kidder e sua esposa que relataram sua viagem a cidade no livro “Reminiscências de viagens e permanências no Brasil”. Dentre as impressões que marcou Kinder, o missionário comentou questões semelhantes ao de Henry Kostner como o areial nas ruas de Fortaleza dificultando a caminhada, o vento e o sol forte, a precariedade do porto e as dificuldades para desembarcar, a ausência de cemitérios (KIDDER, Daniel apud FARIAS, op. cit, 2012, p. 149).

clarins e tocadores de tambores. Neste ambiente pacato do início do século XIX a então vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, emancipada político- administrativamente e elevada à condição de cidade no ano de 1823 com o nome de Fortaleza de Nova Bragança266, não apresentava uma vida cultural pública e privada

muito ativa.

Um elemento que ajudou a desenvolver a vida cultural de Fortaleza foi o surgimento da imprensa periódica. Após a emancipação político-administrativa da cidade, começaram a surgir os primeiros jornais. O primeiro deles, denominado de Diário do Governo do Ceará, circulou de abril a novembro de 1824267. Os dois seguintes foram

o Cearense e o Pedro II, publicados na década de 1840, o primeiro ligado ao partido liberal e o segundo ao partido conservador268. Ambos foram muito importantes durante

todo o período do Império pela veiculação de informações oficiais do governo, pelos editoriais e noticiários de críticas políticas, na divulgação e comentários dos eventos culturais locais onde, em muitos deles, houve a participação da banda da polícia.

As praças públicas foram importantes espaços onde a banda tocou e que começaram a ser edificadas na primeira metade do século. Dentre elas temos a praça do Ferreira, chamada assim a partir de 1871, mas construída em 1842 e denominada de praça Pedro II, popularmente chamada de Feira Nova ou praça da municipalidade. Foi nesta praça que a banda da polícia passou, a partir da década de 1860, a tocar todas às tardes de domingo e dias santos269. Até 1932, a banda apresentou-se sempre em alguma praça da

cidade, pelo menos aos domingos. Igualmente importante neste contexto foi o surgimento das primeiras casas de espetáculo. O mais importante edifício cultural da primeira metade do século, construído no ano de 1830, foi o teatro Concórdia, também denominado de Casa de Ópera, uma obra de “negociantes portugueses e empregados do comércio”, em frente a Igreja do Rosário. Permaneceu neste lugar durante doze anos de onde se mudou para a rua Formoza, trocando o nome para Teatro Thaliense, e onde acabaria por fechar portas no ano de 1872270.

266 AZEVEDO (NIREZ), op. cit., 2006, p.9. 267 FARIAS, op. cit., 2012, p. 137.

268 Idem, p.10-12, 27.

269 Pedro II, 09 de setembro de 1858, p.4; Artigo 3º da lei nº 853 de 23 de agosto de 1858. CEARÁ, op. cit,

Almir Leal de Oliveira, Ivone Cordeiro Barbosa (org.), p.214, Tomo III.

270 BARROSO, Oswald. Teatros. In: Ceará: uma cultura mestiça. Fortaleza: [s.n], 2002, 163. Disponível

em: <http://www.digitalmundomiraira.com.br/Patrimonio/CearaCulturaContextos/Diversificado /Ceara%20-%20Uma%20cultura%20mestica.pdf> Acesso em: 18 abr. 2017.

O conhecimento sobre o panorama musical no Ceará antes da criação da banda do Corpo Policial em Fortaleza, em 1854, é pequeno. Constitui-se de curtas informações na Revista do Instituto Histórico do Ceará e nos livros de memorialistas que dão uma vaga ideia do que seria a vida musical na cidade e na capitania, posteriormente província, em fins do século XVIII e primeira metade do século XIX. O conhecimento sobre a música deste período recai quase que exclusivamente sobre a instituição militar. O que se sabe é essencialmente deduzido do contexto mais geral, comparando o que acontecia no restante do Brasil e na tradição da prática musical militar, bem como nas poucas indicações diretas ou indiretas sobre música que aparecem em alguns textos de revistas e jornais cearenses.

Nos regimentos militares do Ceará colonial, o instrumentista que aparece em maior quantidade era o tocador de tambor. A relação do custo anual das tropas pagas ligadas à capitania de Pernambuco, em 1766, aponta que, para cada companhia instalada, havia um tambor incluído271. Mesmo sendo a capitania do Siará Grande a segunda mais

populosa das anexas de Pernambuco, representando 17% da população total, possuía apenas uma companhia de tropa de 1ª linha, logo, um tambor associado. As capitanias da Paraíba, representando 14% da população, possuíam três companhias, logo, três tambores, enquanto que a capitania do Rio Grande, que representava apenas 6,7%, possuía duas companhias e dois tambores. Somente a capitania de Pernambuco possuía dois pífanos na relação de todas as suas companhias272. Esses instrumentos, eram

associados aos tambores, os quais tocavam batidas rítmicas, enquanto os pífanos realizavam as melodias. A execução associada dos instrumentistas não impedia a percepção clara do papel de cada instrumento273.

Embora não tenha sido discriminada a presença de nenhum instrumento de bocal na relação das tropas pagas, é possível constatar a presença desse instrumento antes de 1766. Em carta de 1734 do governador de Pernambuco, em resposta ao rei D. João V sobre as desordens insufladas na região mais interiorana do Acaraú (litoral noroeste) pelo ouvidor geral do Siará Antônio de Loureiro Medeiros e o frei José da Madre de Deus, o governador descreve a presença de dois tambores e uma trombeta junto à tropa que irá

271 GOMES, José Eudes Arrais Barroso. As milícias D’El Rey: tropas militares e poder no Ceará

setecentista. 2009. Dissertação. (Programa de Pós-graduação em História), Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense UFF, Niterói, 2009, p.177-178.

272 Idem.

prendê-los. Provavelmente, esses instrumentistas faziam parte do grupo das tropas não pagas das Milícias e das Ordenanças que juntos realizaram essa prisão274.

Com a separação político-administrativa da capitania do Siará Grande de Pernambuco no ano de 1799, foi feita uma reorganização das companhias e estima-se que efetivamente houve um aumento e uma diversificação dos músicos dos regimentos. No mapa demonstrativo do Regimento de Cavalaria Miliciana existentes em Jaguaribe e Quixeramobim no ano de 1801, em um total de 13 companhias e 580 efetivos, aparecem listados dois tocadores de trombetas ligados à 1ª companhia. No mesmo documento sobressai-se o mapa do Regimento de Cavalaria Miliciana da Ribeira do Acaraú. Nesta, as 10 companhias existentes na Ribeira apresentam um trompetista em cada uma. Por fim, no mapa do regimento miliciano das marinhas do Siará e Jaguaribe, nos 10 regimentos listados, aparece a descrição de um tambor e de um pífano em cada275.

Não foi possível, na documentação consultada, identificar a “qualidade” dos músicos dos regimentos do Ceará da época colonial. Contudo, na iconografia dos figurinos militares do Brasil para o fim do século XVIII e começo do XX, a representação dos instrumentistas que tocavam tambores nos regimentos pernambucanos é, em sua maioria, de negros, mulatos e pardos, em relação a uma minoria branca276. A inserção de

negros e miscigenados em atividades musicais foi uma realidade bastante presente em outras regiões brasileiras, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, não somente na esfera militar277, como também na civil, no caso específico, em bandas de música278. Mesmo

sem aparecer na documentação, a conexão dessas realidades com a do Ceará permite-nos inferir que também houve negros e, provavelmente, “pardos” exercendo a função de tocador de tambor nos regimentos militares do período, já que foi essa a “qualidade” que predominou no Ceará do século XIX279.

Quanto à presença de bandas militares no Ceará, as informações que se conhecem são referentes a dois relatos de acontecimentos públicos ocorridos durante a

274 “[…] sinqüenta soldados pagos, hum cap.am de Infantaria, e hum Alferes, quatro sargentos, dous

tambores e hum trombeta, e sento e seis Índios armados, com um homem nobre da terra q. os governava, e vinte e sinco soldados da ordenança, governados por pessoas capazes e práticos […]” (GOMES, op. cit., 2009, p.151).

275 2ª VIA, Relação das folhas eclesiásticas, civil e militar e mapas do Regimento Miliciano. AHU, Ceará,

Caixa 15, documento 841. AHU_CU_006, Cx 15. D.841.

276 SOUZA, Antônio Wilson Silva de. Figurinos Militares: iconografia manuscrita sobre o Brasil no

Arquivo Histórico Ultramarino. Brasília: Arquivo Histórico Ultramarino, 2007, p.39-43.

277 COTTA, Francis Albert. Negros e Mestiços nas Milícias da América Portuguesa. Belo Horizonte:

Crisálida, 2010, p.135.

278 KIEFER, op. cit., 1977; MONTEIRO, op. cit., 2008; MONTEIRO, op.cit., 2006. 279 Este assunto foi mencionado anteriormente no capítulo 2.

primeira metade do século XIX, que reúnem autoridades políticas e militares, em que se pode supor a presença de uma banda militar, embora não seja possível precisar seu nome. O primeiro relato, descrito no dia 12 de outubro de 1817, data do aniversário natalício do “Príncipe Real do Reino Unido”, descreve um grupo de comerciantes cearenses que resolveu comemorar a restauração da paz na capitania280, promovendo “com toda pompa”

um ato solene na Igreja local. Sem especificar, o texto fala apenas de “huma missa cantada por vozes escolhidas” finalizada por um “Te Deum de muzica”. O ato foi presenciado pelo governador, por autoridades, por oficiais, pelas tropas de primeira linha, pelos demais corpos militares, pela “Nobreza da Capital” e pelo povo cearense. A esse ato religioso, seguiram-se outras representações artísticas, como a apresentação pública e gratuita de uma “peça dramática” e de outra cena dramatizada com crianças281. A festa

decorreu durante nove dias consecutivos, sendo impossível acontecer uma festividade tão longa sem a presença de músicas e de danças. O autor confirma essa constatação e termina o texto mencionando que “o restante da noite se passou em divertimentos e concerto de muzica vocal e instrumental no Palacio do Governador […]”, mas não especifica quem são esses músicos ou o grupo que realizava a festa282. É provável que fossem músicos da

tropa de primeira linha ou mesmo dos corpos milicianos já que suas corporações foram mencionadas implícita ou explicitamente na narrativa. Era de se esperar, portanto, a presença de corneteiros, tocadores de tambor e pífano nestes dois regimentos, já que era uma realidade existente no Brasil desde o período colonial283.

Em outro acontecimento público datado de 29 de maio de 1831, a narração segue a estrutura festiva realizada em 1817284. O motivo agora era a notícia do

280 O texto remete à participação do Ceará na revolução de 1817, chamada de Insurreição Pernambucana.

Foi um movimento de libertação colonial liderada pela capitania pernambucana. Tinha características liberais, republicanas e pretendia a independência das terras do domínio português. Teve adesão também das capitanias de Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. No Ceará, o movimento teve adesão principalmente da região do Cariri (sul da província cearense) que ainda mantinha uma forte ligação com Pernambuco. “[…] propagou-se a ideia de que os maçons, os liberais libertinos e a canalha de pretos e mestiços estavam destruindo a fé católica e despojando os “homens de bens” de suas propriedades”. (FARIAS, op. cit., 2012, p.113; 110-117). Essa imagem de destruição da fé católica e da presença negativa dos maçons é colocada em evidência no texto de Ferreira Santiago. Ressalta ainda a lealdade do governador Manuel Inácio de Sampaio (1812-1820) à monarquia portuguesa (“vassalo fiel”), sendo este o responsável pela repressão do movimento e o ato heroico que foi a restauração da paz na capitania (SANTIAGO, Ferreira. Uma festa em Fortaleza no tempo do governador Sampaio. Revista do Instituto Histórico e

Geográfico do Ceará. Fortaleza, 1900, p.271-274 (CD ROM)).

281 SANTIAGO, op. cit., 1900, p.271-272. 282 Idem, p.273.

283 SOUZA, Antônio Wilson Silva de. Figurinos Militares: iconografia manuscrita sobre o Brasil no

Arquivo Histórico Ultramarino. Brasília: Arquivo Histórico Ultramarino, 2007.

284 [?]. Descripção das festas officiaes havidas em Fortaleza a 29 de Maio de 1831. Revista do Instituto

reconhecimento de D. Pedro II como Imperador do Brasil e a abdicação voluntária de D. Pedro I. Para se tornar pública a notícia, a Câmara Municipal e demais autoridades prepararam um ato que durou três dias. No primeiro deles, saíram o governador e os camarários pelas ruas da cidade em cortejo, montados em seus cavalos, vestidos pomposamente, acompanhados por “um piquete de cavallaria e da música do Batalhão”, convidando a população para os festejos que iriam se seguir285. Novamente, o texto não

especifica se essa música tocada pelo Batalhão estava ligada às tropas do Exército ou da Milícia. Ambos usavam a mesma designação “Batalhão” para especificar suas tropas. O mais relevante nesse trecho é a presença da música militar, embora não seja possível determinar o número de instrumentistas tocando e seus respectivos instrumentos. No dia 29, o ato foi finalizado na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário para a execução solene de um Te Deum Laudamus. O festejo rumou para o Palácio do Governo, onde se cantou o “hymno Constitucional e houverão diversas dansas”. O divertimento continuou pela maior parte da noite286.

Outro relato posterior em que aparece novamente mencionada a presença da banda de música do Batalhão foi a registrada pelo jornal Cearense no ano de 1847, descrevendo a participação dessa banda num cortejo pelas ruas da cidade de Fortaleza, em que várias pessoas comemoraram a vitória de uma eleição287. Mais uma vez não é

possível dizer se essa banda pertence ao Exército ou à Guarda Nacional. A primeira menção do nome de uma banda militar atuante em Fortaleza aparece somente no ano de 1854, por ocasião da solenidade de comemoração do aniversário do Imperador. Os jornais Cearense e Pedro II relatam a mesma cerimônia, embora o segundo conte com mais detalhes como ela aconteceu. Constituiu-se de uma parada militar com a presença do corpo do 1º Batalhão de Fuzileiros da Guarda Nacional da capital, o 3º Batalhão de Caçadores de Maranguape e o meio batalhão de linha. O jornal Cearense descreve apenas

285 Idem, p.217.

286 [?]. op. cit., 1831, p.219. (CD ROM). Como mencionado no segundo capítulo, a presença de bandas de

música em regimentos militares foi originada de um tipo comum de entretenimento, existente desde o século XVI na Europa, chamado de Tafelmusik ou “música de mesa”. No Ceará, bandas militares tocando em festas e jantares (privados ou oficiais) não foram incomuns durante o século XIX. Citaremos alguns exemplos ao longo da tese, como no dia em que o Ceará libertou seus escravos em 1884 e preparou um “banquete para os pobres” e um jantar para os políticos, religiosos e convidados, tendo em ambos a banda da polícia a tocar. No contrato feito com particulares, a banda da polícia cobrava um valor específico para tocar em jantares, conforme tabela de preços incluída no capítulo 5 (UNVERRICHT, Hubert. Tafelmusik.

Grove Music Online. Oxford Music Online. Oxford University Press. Disponível em:

<http://www.oxfordmusiconline.com:80/subscriber/article/grove/music/27362>. Acesso em: 01 set. 2017).

a banda de música da Guarda Nacional como “rica”288. Já o jornal Pedro II delineia

melhor essa “riqueza”, destacando que a banda apresentou-se com “aceio” e “brilhantismo”, “uniforme grande, levava a sua frente quatro portas machados, um tambor-mór ricamente vestido (cujo vestido anda por 800$ rs), oito tambores, e uma rica banda de musica”289. O 3º Batalhão de Caçadores não compareceu com nenhuma banda.

Já a banda do meio Batalhão de linha apresentou-se com uma “rica banda de musica pertencente ao corpo de policia”290, a qual havia sido recentemente criada por lei (outubro

de 1854).

Sobre bandas civis não existe nenhuma menção de sua existência nesse período em Fortaleza. Em Sobral (região noroeste), houve uma banda civil regida pelo maestro Galdino José Gondim que chegou à cidade no ano de 1848. Conforme explanado anteriormente, é difícil confirmar quando esse grupo existiu realmente, visto que há uma alternância no uso do termo “banda” e “orquestra” no texto de referência. Por isso é difícil determinar se o autor estava falando de uma “banda” ou de uma “orquestra” na concepção atual, ou se eram dois grupos que existiram concomitantes regidos pelo próprio maestro Gondim291. Em Aracati, Leal aponta a Filarmônica Zaranza como a banda de música

mais antiga de que se tem conhecimento nessa cidade, fundada no ano de 1826292.

Comparando a fotografia (sem data) da Filarmônica Zaranza com as das outras três bandas posteriores - a Filarmônica Figueiredo, fundada em 1895, a Charanga 24 de Maio, fundada por volta de1913, e a Euterpe Operária, fundada entre 1916 e 1917293,

percebe-se que a da Zaranza é a única imagem em que os músicos estão vestidos de paletó e não com uma farda imitando uniformes militares294. Esta ausência do vestuário militar

parece indicar que a banda Zaranza ainda não “sofria”, naquele momento do registro fotográfico, a influência do ethos militar que veio atingir as bandas civis do fim do século XIX. No Ceará, essa influência se deu a partir da banda da polícia fundada em 1854. A fotografia da Filarmônica Zaranza é semelhante à da banda da polícia, datada de 1879, o que sugere que tenha sido registrada por este período. A razão da semelhança reside na presença de alguns instrumentos registrados na fotografia como os oficleides, saxhorn barítonos e também do saxofone soprano e das cornetas de pistões, estes dois últimos não

288 Cearense, 05 de dezembro de 1854. 289 Pedro II, 06 de dezembro de 1854. 290 Idem.

291 FROTA, op. cit., 1974, p.411-416. 292 LEAL, op. cit., 2003, p.15-28. 293 Idem, p.29-60.

muito claros na imagem. Outra semelhança é a característica multirracial dessa banda formada de miscigenados, brancos e negros, provando que o Ceará não ficou de fora da mestiçagem brasileira, situação ocultada por uma “antiga” historiografia que tentou negar a presença de negros, mulatos e pardos em sua formação e sacralizar uma pureza branca no estado.

Sobre os músicos do Ceará deste período inicial, Zacarias Gondim menciona o nome de alguns deles que nasceram no interior da região e que passaram ou transferiram-se para Fortaleza na primeira metade do século, exercendo sua atividade musical nesta cidade295. O músico mais antigo a ter seu nome registrado na história do

Ceará foi Joaquim Bernardo de Mendonça Ribeiro Filho, nascido em Aracati (litoral leste) na segunda metade do século XVIII e falecido em Pernambuco em 1834296. Em 1808

esteve em Fortaleza trabalhando como professor de primeiras letras297. No ano de 1810

foi admitido na Irmandade de Santa Cecília de Recife298. É possível que tenha se mudado

para Pernambuco no ano de 1811 já que Zacarias Gondim menciona ainda que foi substituído no cargo de professor neste referido ano299. Foi compositor de música sacra e

algumas de suas obras foram tocadas nas Igrejas de Fortaleza mesmo após sua morte. Segundo Pedro Veríssimo o estilo de suas composições era o da escola italiana, embora não existam exemplares que confirmem isso300. Outros dois músicos citados por Gondim

foram Boaventura José de Aragão, violoncelista, que dirigia uma pequena orquestra em Russas (região leste, baixo Jaguaribe) ou Aracati na qual fazia parte seu parente Felix José de Valois, que acrescentou o nome Areré no final301. Gondim não menciona se