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Embora o epicentro do terremoto cultural acontecera na megacidade de São Paulo, carro condutor do progresso do país, ele se fez sentir em forma de cânone nas outras capitais da região sudeste criando um cenário faraônico que demandou

grandes investimentos. Como há 100 anos atrás, época da construção dos teatros municipais das grandes capitais, novamente a modernidade promoveu ações

inovadoras e deixou grandes construções para fins culturais. Um “legado”, palavra-

chave muito mencionada para marcar a passagem dos líderes pelo poder, vinculando a arquitetura à atividade sinfônica e que na capital mineira não passaria despercebido.

Desta forma, o patrimônio cultural material e imaterial se reconfigura. Novos testemunhos materiais e tangíveis do processo histórico surgem associados ao apreço pós-moderno pela imagem e pelo caráter simbólico dos locais destinados para as artes. Num surto de crescimento, novas redomas ou fortalezas inexpugnáveis de status nobilitante ao estilo paulista são projetadas e construídas como complexos culturais. São erguidos verdadeiros símbolos culturais, espécie de shopping centers da indústria cultural que atestam o caráter singular de opulência, permanência e continuidade em relação a um passado, enquanto constrói-se um ideal de pertença coletiva ao futuro. Desta forma, surgem visando oferecer segurança, facilidade em encontrar uma programação variada no mesmo lugar, associada à ideia de modernidade, progresso e conforto, com maiores atrativos para o público, que os elege como lugares privilegiados para encontro social e de lazer. Passos fundamentais e pontos de arranque na conformação de projetos culturais e no reforço da indústria ligada a essa área, os complexos culturais vêm representar também possibilidades de criação de novos postos de trabalho, dentro de um mercado musical decididamente politizado.

Os períodos históricos marcados pela opressão coincidem com a criação de grandes obras e a sedução dos egos de deixarem registrado o nome dos líderes de plantão em placas de metal. A ambição de estar no topo traduz o forte desejo de cultura do mundo atual, no qual intervém também a recuperação de áreas urbanas, a construção de grandes obras, o turismo cultural e a tentativa concreta de melhorar a imagem internacional do país.

O Governo de Minas, tentando alinhar-se com o eixo Rio e São Paulo, iria beneficiar a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFEMG) com a criação de um novo espaço cultural: a Estação da Cultura Presidente Itamar Franco idealizada em

idêntico formato da Sala da Orquestra Filarmônica de Berlim, como mostra a figura a seguir.54

Figura 9. Interior da Sala Minas Gerais.

Desta forma, apresentando um ar de contemporaneidade, Belo Horizonte pode se inserir no rol das cidades modernas e potencialmente culturais. O espaço físico para a realização do projeto encontra-se afastado da região central e por esse motivo a orquestra acabou se isolando e ao mesmo tempo abandonando o vínculo de formação de novos instrumentistas através de uma escola de música e a formação de novas plateias.

Na mesma onda de políticas culturais, com as mesmas perspectivas, o Governo do Estado do Espírito Santo também vem desenvolvendo seu próprio projeto de modernização ainda longe de ser inaugurado: o “Cais das Artes”. Nele, atuará a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES).

Já no âmbito municipal São Paulo, através de sua Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras (SIURB) iniciou em maio de 2009 a construção do um complexo Cultural. A obra denominada “Complexo Cultural Praça das Artes” de 28.500m² de área, é formada pelo quadrilátero das ruas Formosa e Conselheiro

54 Foto da Sala Minas Gerais. Disponível em: http://www.filarmonica.art.br/sala-minas-gerais/. Acesso

Crispiniano, Praça Ramos de Azevedo e avenida São João, e engloba a construção e restauração de um conjunto de edifícios que forma três módulos culturais: Módulo I, um prédio de onze andares que abrigará salas para ensaio da Orquestra Sinfônica Municipal, Orquestra Experimental de Repertório, Balé da Cidade de São Paulo,

Coral Lírico, Quarteto de Cordas de São Paulo e o Coral Paulista; Módulo II

Estacionamento; e Módulo III – Escola de Música e Centro de Documentação.

Em outro ponto da cidade, novas construções pretendem modificar o visual da cidade de São Paulo. O jornalista Mario Cesar Carvalho relata essas iniciativas culturais e os conflitos que surgem em torno das decisões que estão sendo tomadas atualmente:

[...] O governo paulista decidiu paralisar o mais ambicioso projeto do Estado para a cultura: o Complexo Cultural Luz, que teria três teatros, duas escolas e ajudaria, em tese, a revitalizar a cracolândia. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) mandou paralisá-lo por considerá-lo caro demais (R$ 600 milhões) e porque "tem cara de coisa para rico", como disse a dois interlocutores ouvidos pela Folha. O plano agora é reduzir o complexo -o original tinha 100 mil m², mas já havia sido encolhido para 70 mil m² (o que equivale a duas vezes e meia o prédio da Bienal). Num ano eleitoral como 2014, Alckmin temia que a obra se tornasse alvo de protestos e sinônimo de desperdício, tal qual o rótulo colado por ativistas nos estádios da Copa. O complexo consumiu dois anos e meio de projeto de um dos mais célebres escritórios de arquitetura do mundo, o suíço Herzog & de Meuron, autor do Estádio Nacional de Pequim, o "ninho de pássaro", e da Tate Modern, de Londres. Em 2009, quando o projeto foi lançado, o então governador, o também tucano José Serra, disse que a ambição era que ele tivesse um efeito restaurador na vizinhança, como ocorreu com a Tate Modern, velha usina que revitalizou a área ao sul de Londres ao ser convertida em museu. Desde que Mário Covas assumiu o governo, em 1995, os tucanos tentam revitalizar a Luz com obras como a Sala São Paulo, sem sucesso. Alckmin sempre teve reservas ao complexo. Dizia que era obra para "ricos" feita sem licitação, porque não houve concorrência para contratar os arquitetos. Há duas semanas, chegou a dizer a Serra que não seria feita. Sua equipe, porém, ponderou que a desistência teria repercussão péssima para a reeleição. Sem o complexo, o governo jogaria no lixo R$ 53 milhões -R$ 45 milhões para os arquitetos e R$ 8 milhões para a Theatre Projects Consultants, consultoria inglesa especializada em teatros. O projeto dos arquitetos suíços foi entregue em agosto de 2012. A desapropriação de 205 imóveis em três quadras só ampliou a degradação da cracolândia. Uma favela chegou a ser criada na área. Com a demolição dos prédios, a região ganhou ares de cidade bombardeada, como Bagdá, ao lado da Sala São Paulo, o principal espaço de concertos na cidade. Uma das críticas aos projetos culturais feitos nos últimos 15 anos na região é que eles só geram ocupação eventual; não há moradores dia e noite nas ruas. É o local perfeito para marginalizados como dependentes de crack. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2014).

Mais um testemunho de como a arquitetura e a música continuam de mãos dadas em prol da cultura brasileira e como a política intervém no controle das duas anteriores.

3.3 O terremoto cultural do início do século XXI. Como em toda catástrofe