Ao estudarmos a atuação dos prelados na capitania de Goiás, é necessário recordar o conflito entre o Conselho Ultramarino e a Mesa de Consciência e Ordens sobre a escolha dos primeiros prelados. Mas a questão principal não se restringe a este conflito abordado por Alencastre60
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A grande questão é de ordem econômica. Daí o desinteresse da Coroa Portuguesa na nomeação e sagração de prelados para Goiás. A presença de bispos numa diocese ou prelazia acarretava, gastos e despesas para o Estado.
A prelazia de Goiás, criada em 1.745, esperou quase quarenta anos para ter nomeado o seu primeiro prelado em 1.782. Vejamos o que nos diz Pizarro:
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- Capela Curada . Era a capela em processo para ser paróquia.
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- ALENCASTRE. J. P. op.cit.pp.104-105.
“Dr. Fr. Vicente do Espírito Santo, da ordem Augustiniana, e sagrado bispo das ilhas de São Tomé e Príncipe foi o 1º eleito no ano de 1.782 para ocupar o cargo prelático de Goiás61.
Este frade Agostiniano, sagrado bispo das ilhas de São Tomé, não podia por causa da saúde residir no seu bispado. Foi lhe pedido que renunciasse ao bispado, para poder exercer o seu cargo na prelazia de Goiás. Morreu, contudo em Lisboa em 1.788 sem ter tomado posse na prelazia.
Sem sucessor, D. José Nicolau de Azevedo Gentil, foi nomeado ainda no mesmo ano. Era prelado nomeado de Cuiabá desde 1.782, e fora sagrado bispo de Zoara no ano seguinte. Mas, enredado no ambiente da corte, acabou sendo nomeado deão da capela real de Vila Viçosa em 1.795, sem ter tomado posse da prelazia. Tudo isso nos confirma Pizarro:
D. José Nicolau de Azevedo Coutinho Gentil, da ordem de S.Bento de Àviz, que por eleição de 23 de janeiro de 1.782 havia sido destinado para a prelazia de Cuiabá, e por letras apostólicas do ano seguinte foi nomeado para sucessor desta prelazia: mas empregado depois no deado da real capela de Vila Viçosa por decreto de 16 de maio de 1.795, ficou Goiás sem prelado62.
Durante todo o capítulo em análise se percebe a submissão da Igreja ao absolutismo monárquico. É o “departamento do culto” que cuida das coisas religiosas das dioceses e prelazias.
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-PIZARRO, Memórias, op.cit.v9.p.219.
62
-_________, Memórias, op.cit.v9.p.220.
Em 1.802 foi nomeado o 3º prelado de Goiás, D. Vicente Alexandre de Tovar, sagrado no ano seguinte bispo de Titópolis. Foi pároco e vigário da Vara da freguesia de N. Senhora do Pilar em Goiás, nomeado pelo bispo do Rio de Janeiro.
Enquanto se demorava na corte, foi o primeiro prelado que tomou posse da prelazia por meio de seu procurador, Vicente Ferreira Brandão , a 20 de março de 1.805. Obrigado pelo príncipe regente a viajar para a prelazia, faleceu em Paracatu durante a viagem, em 08 de dezembro de 1.808. Observamos o que nos diz Pizarro:
O 3º prelado foi D.Vicente Alexandre de Tovar. Natural da Bahia, e presbítero secular, sendo Cônego reitor da Sé de Faro passara a Goiás, e proveniente do diocesano do Rio de Janeiro, ocupara de encomenda a Igreja de Pilar, e a vara daquela comarca eclesiástica, desde 06 de julho de 1.791, à 1800, ... por consulta da mesa da consciência e ordem, e resolução de 11 de setembro de 1.802, foi provido na prelazia63.
Na história dos prelados de Goiás, é importante ressaltar um aspecto que caracterizou todo o período colonial no Brasil. São as longas vacâncias entre um bispo e outro. O padroado retardava a nomeação e a sagração dos bispos para as dioceses. Tudo isso fazia com que muitos bispos retardassem na corte, tomando posse ou não da diocese
por meio de procuradores. Parece que muitos bispos aproveitavam da situação do padroado e colocavam empecilhos para assumir uma diocese ou uma prelazia que não fosse muito dos seus interesses, devido a localização geográfica e aos rendimento financeiros.
Os prelados da capitania de Goiás ilustram a idéia de Riolando Azzi sobre as vacâncias e o retardamento dos bispos na corte64. Eleitos a partir de 1.782, D. Fr. Vicente do Espírito Santo e D. José Nicolau de Azevedo não tomaram posse da
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- Idem, p.220
64
- AZZI, Riolando, op.cit.p.173.
prelazia, nem por procuradores. É a partir do terceiro prelado, D. Vicente Alexandre, que a prelazia deixa de ser governada pelos bispos do Rio de Janeiro e passa ser organizada por procuradores que faz às vezes dos prelados.
O sucessor do terceiro prelado de Goiás é D. Antônio Rodrigues de Aguiar, natural do Rio de Janeiro, foi nomeado em 1.810. Também demorou-se durante vários anos na corte do Rio de Janeiro. Quando em 1.818 decidiu finalmente empreender viagem a Goiás, morreu em Iguaçu, a seis léguas do Rio65
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No mesmo ano, a 18 de outubro, foi nomeado D. Francisco Ferreira de Azevedo. Em 1.811 fora eleito bispo de Meliapor na Índia portuguesa, e ao ser nomeado para Goiás, foi sagrado bispo de Castória. Tomou posse da diocese a 18 de agosto de 1.819 por meio de seu procurador o Cônego Luiz Antônio da Silva e Souza, que haveria de ser o seu vigário geral. Em 1821, enquanto permanecia na corte à espera dos acontecimentos políticos que agitavam em todo Brasil pela independência, ficou completamente cego.
Todavia, esta deficiência visual não abalou o ânimo deste pastor que pisou no território de Goiás em outubro de 1824.
A relação de submissão da Igreja ao Estado fez com que a prelazia ficasse longos anos sem a presença de um prelado e o processo de sagração episcopal se retardasse cada vez mais pelos entraves da Mesa da Consciência e Ordem. Dom Francisco eleito bispo de Meliapor em 1.811 só é sagrado em 1.833, pelo bispo de Cuiabá, Dom José Antônio dos Reis, quando viajava a este fim para Mariana. Todavia, só foi reconhecido em 1.843, recebendo a bula de Gregário VI, em 1.84466
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- RUBERT, Arlindo. op.cit.p.160.
66
- BRASIL, Antônio Americano do. Pela História de Goiás. Goiânia: Ed da Universidade Federal de Goiás, 1980, p.70.
É importante ressaltar a posição política de D. Francisco de Azevedo em defesa de uma pátria livre como um dos principais fatores do retardamento da sua sagração.
“ Dom Francisco não a manda para seus diocesanos a sua bênção portadora da paz e harmonia. Antes disso, ele apela às ovelhas, numa coleta de oração pela pátria, ainda sem sua liberdade e alforria de gente livre67”.
Conforme Americano do Brasil, em 1.824, no início do governo de Dom Francisco, Goiás estava dividido em duas repartições eclesiásticas. Em cada repartição havia um provisor e um vigário geral. Para o norte, Cavalcante era sede dessas autoridades. A repartição do sul contava com 8 freguesias, Araxá e Desemboque que pertenciam a capitania de Goiás.
Na verdade, era animadora a situação eclesiástica da prelazia em 1.824. Quase todas as paróquias tinham vigário residente e havia muitas capelas filiais com seu capelão. Na freguesia de Vila Boa militavam dezenove sacerdotes, e em Meia Ponte, quinze. “ Se algum mal havia... esse vicio vinha do regalismo português, em que menos governava a Igreja a autoridade do Bispo68
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67- SILVA, C.Trindade. op.cit.p.131
68
- Idem, p.140