• No results found

Implikasjoner for praksis, forskning og utdanning

A prosopopéia que Lacan inaugura num texto intitulado A coisa freudiana é retomada aqui. O resumo justo que aqui se encontra dessa prosopopéia são as breves palavras “Eu, a verdade, falo...”. O tratamento que a elas ele confere deve também ser mencionado:

Emprestar minha voz ao sustento dessas palavras intoleráveis, “Eu, a verdade, falo...”, ultrapassa a alegoria. Isso quer dizer, muito simplesmente, tudo o que há por dizer da verdade, da única, ou seja, que não existe metalinguagem (afirmação feita pelo lógico- positivismo), que nenhuma linguagem pode dizer o verdadeiro sobre o verdadeiro, uma vez que a verdade se funda pelo fato de que fala, e não dispõe de outro meio para fazê-lo 288.

Arrisquemos-nos em dizer: não é o caso que em psicanálise se pretenda falar a verdade, mas sim o contrário, que a verdade fala. Assim a verdade é causa. Lacan possui notadamente uma inspiração hegeliana para seu conceito de verdade. Grosseiramente falando, a verdade em Hegel 289 deve ser entendida como processo, como dialética – como um saber que incide sobre si mesmo e somente assim se desvela enquanto verdade. A consciência, o entendimento, não seria outra coisa senão consciência de si, saber sobre o saber, sobre como se chega ao saber, de maneira que nesse processo dialético se acredita poder superar aquela inacessibilidade kantiana à verdade

287 GARCIA-ROSA, Op. cit. 288

LACAN, A ciência..., p. 882.

289 Um comentário interessante e acessível sobre o assunto está em PERTILLE, Aufhebung, meta-

130 por detrás do fenômeno. Ao notarmos que o objeto a, conforme Lacan, é o objeto causa de desejo, devemos ler nisso que a verdade, se a compreendermos como a verdade do objeto almejado no mundo, o qual se pretende um saber, está, por assim dizer, em uma relação de causalidade com a fala. Que já nos seja possível especular uma diferença: entre a concepção de verdade em Hegel e em Lacan, se para um a verdade é alcançada como um mérito do processo de saber, como consciência de si ao término desse processo, para o outro a verdade seria a própria causadora do processo, estando em seu início.

Não se limitando em afirmar que o lugar estrutural da verdade deve se relacionar à causa, como já dissemos, a verdade como causa, para ele é importante avançar igualmente em uma definição de como essa relação mesma pode ser estabelecida. Inspirado em Aristóteles, Lacan pensa em quatro modos possíveis de como essa relação pode ser pensada, o que ele chama de modos de refração da verdade: enquanto causa eficiente, causa final, causa formal e causa material. Segundo Iannini, estabelecer o estatuto da causa em psicanálise é um assunto amplo que tocaria tanto a questão de seu correto estatuto junto à ciência quanto o problema, já mencionada nesse texto, da redução do sujeito a alguma unidade psicológica. Segundo ele,

Um dos resultados mais astuciosos dessa operação de reconfiguração do lugar da psicanálise com relação aos discursos da filosofia e da ciência é a possibilidade de evitar os impasses relativos à substancialização do sujeito do inconsciente, e de recusar, num só golpe, tanto o naturalismo quanto a hermenêutica como estratégias de fundamentação da psicanálise. 290

Com respeito a essa causa de que quer falar, Lacan especifica: “não a causa como categoria da lógica, mas como causando todo o efeito. A verdade como causa, irão vocês, psicanalistas, recusar-se a assumir sua questão, quando foi a partir disso que se alçou sua carreira? Se existem praticantes para quem a verdade como tal supostamente age, não são vocês?” 291 . Apesar de serem intrigantes tais palavras, podemos tecer alguns

290 IANNINI, Estilo e verdade na perspectiva da crítica lacaniana à metalinguagem, p. 208. 291 LACAN, A ciência..., p. 883.

131 comentários sobre possíveis interpretações. Comecemos pela inspiração aristotélica do tema. Temos conhecimento de que a obra de Aristóteles funciona para sua época como uma espécie de grande síntese filosófica dos pensadores que o antecederam 292. Suas quatro causas funcionariam como uma estrutura que envolveria, por assim dizer, os diversos princípios encontrados entre os fisiologistas, os pitagóricos e os platônicos. Os fisiologistas, aqueles conhecidos por um tipo de investigação que punha como princípio maior do mundo a verdade que as coisas, quaisquer que fossem, eram compostas por uma substância única (que por sua vez variava conforme o pensador: água, fogo, terra, ar etc.). A esse tipo de pensamento, Aristóteles associou o termo de causa material, posto ser o tipo de princípio estático que daria origem a tudo. Houveram também aqueles que punham como princípio universal o amor ou o desejo, como se argumentassem a necessidade de que algo deva primeiro existir para pôr uma coisa em movimento. Esta seria a causa eficiente. Os pitagóricos inaugurariam o pensamento de que os números poderiam ser responsáveis por toda a constituição do cosmos, e assim deslocar a ênfase que estava numa física das coisas para sua abstração, a ideia. Esta seria a causa formal. Seria de Platão a síntese entre causa material e formal. Todavia, era preciso que houvesse uma superação desse modo de pensar, pois Aristóteles acreditava que uma quarta causa estava a ser negligenciada pelos demais, a saber, a causa final. O estudo dessas quatro causas seria fundamental para a metafísica. Seriam, por assim dizer, da ordem da verdade absoluta.

Ora, prosseguindo a frase, por que é importante frisar que é uma concepção tácita entre os praticantes da psicanálise que a verdade age como causa? Não seria o sofrimento do sujeito, ou a cura analítica, um argumento cotidianamente articulável sobre como a verdade com que esse sujeito lida promove em si grandes efeitos? Essa não é uma informação tola, pois o simples fato de se saber algo sobre alguma coisa não implica necessariamente em transformações subjetivas naquele que conhece. Talvez seja esse o intento do apelo de Lacan. Penso poder estabelecer a seguinte leitura: para o psicanalista, não é o caso que se deva procurar a verdade de se atribuir um

132 argumento ou outro no lugar de causa. Como pretendiam os pensadores anteriores a Aristóteles. Se for tarefa do filósofo averiguar através de seus meios quais coisas corretamente ocupam o lugar de causa e quais não ocupam, a sutileza de Lacan poderia ser deslocar a questão para o plano lingüístico, porque bem pode ser esse o sentido de se falar em verdade por si só. Pode se averiguar se é verdade que a verdade é causa? Somente com um pouco de ingenuidade é que se responderá essa questão sem perceber que a auto referência neste caso é um pouco peculiar. Não é um caso de verificação, mas de tautologia. Façamos um pequeno exercício de imaginação. Digamos que não é importante dizer o que é verdade, o que ocupa o lugar dessa verdade, mas apenas que, o que quer que seja, é verdade. No plano lingüístico, no campo do significante, pensemos ser possível definir que alguma coisa possa simplesmente ser concebida enquanto a propriedade de ser verdade. É um lugar, independente do que ocupe esse lugar. Não me refiro a ser verdadeiro, mas ser verdade. Pois bem, é somente nesse campo do significante que se pode admitir que alguma coisa é por definição verdade. E o conteúdo dessa verdade é, igualmente por definição, um “mistério”. Um vazio de saber? Ao falar de um inconsciente estruturado como linguagem, Lacan pode falar, sim, em um lugar da verdade nesse inconsciente. Ainda que esse lugar seja um vazio – o lugar da coisa (das Ding). Certamente que não se trata de uma verdade como a dos metafísicos, de uma tal substância que com razão tem seu papel na natureza, ou para além dela. Mesmo assim, com minhas palavras me atrevo a dizer que é uma verdade com “requintes” de metafísica, posto ocupar um lugar diante a linguagem que é estruturalmente inabalável. É a verdade (absoluta?) que o sujeito procura, e nisso pode se assemelhar aos metafísicos; mas é uma verdade, por definição, não apreensível inteiramente, da qual não podemos falar muito para além do lugar que ela ocupa em uma determinada estrutura. O próprio fato de ser uma verdade da ordem da linguagem, em sua materialidade, remete ao fato de ser indizível. Lacan trabalhará muito com a ideia de que o que se pode, com respeito à verdade, é apenas semi-dizê-la.

133