7 Jerv og forvaltning av verneområder
7.4 Implikasjoner for forvaltningen
As relações entre as raças formadoras da sociedade brasileira foram condicionadas, desde a primeira metade do século XVI, pela monocultura latifundiária, de um lado, e pela escassez de mulheres brancas entre os conquistadores, de outro. Vencidos os índios, no sentido militar, e frente à necessidade de importação de escravos negros da África para o
trabalho, os Europeus tiveram que interagir com índios e africanos quanto às relações sociais e genéticas. A miscigenação foi, desse modo, a base da família brasileira. A relação do colonizador branco com as mulheres de cor criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos e adoçou as relações entre as raças (FREYRE, 2004).
O centro econômico, social e político do sistema é representado pela casa grande e completado pela senzala. Nele estão representados os sistemas de produção (monocultura latifundiária), de trabalho (escravo), religioso (catolicismo), de vida sexual e familiar (patriarcalismo polígamo) e político (compadrismo) (FREYRE, 2004).
Os senhores rurais eram os verdadeiros donos do poder, pois o possuíam, na prática, mais que os vice-reis ou bispos. Além de donos das terras, verdadeiros feudos, também eram donos dos homens e das mulheres sobre os quais possuíam poder de vida e morte. Embora o patriarca de Gilberto Freyre possa ter sido em certos aspectos um déspota doméstico, ele é apresentado com simpatia. A cultura patriarcal e o caráter agregador da casa grande são mostrados de forma positiva pelo autor. Alguns costumes ilustram este caráter como o hábito de tocar um sino na hora das refeições para que os viajantes próximos venham se servir, sendo que ninguém que chegasse seria repelido da mesa. A arquitetura da casa grande que incluía várias puxadas ou seja, instalações extras construídas para abrigar novos moradores, também era um claro sintoma desta tendência agregadora (FREYRE, 2004).
A relação entre os senhores rurais e os que estavam à sua volta parece ter sido a cobrança de obediência e lealdade em troca de proteção. Pode-se argumentar que daí resulta o traço paternalista vigente até hoje nas relações sociais, assim como a tendência ao autoritarismo e à hierarquização excessiva. No estudo de Hosfstede (2001), realizado em 1980, o Brasil aparece como um país com uma clara tendência ao coletivismo sendo que uma das características das populações coletivistas é justamente a troca de lealdade por proteção com os grupos aos quais pertencem. Outra tendência apresentada pelo Brasil, neste mesmo
estudo, é uma alta distância do poder, ou seja, uma desigualdade muito grande nas relações entre líder e liderado. Neste contexto, segundo Barros (2003), o liderado, vê como a chefia ideal, o autocrata benevolente e as relações entre líder e liderado estão, muitas vezes, carregadas de emoção.
O traço autoritário, resultante da relação entre senhores e escravos, expressou-se pela análise de Freyre (2004) devido ao sadismo dos dominadores e ao masoquismo dos dominados, e verificou-se também nas relações sexuais entre o conquistador branco e as mulheres das raças submetidas a seu domínio. Além da esfera privada e sexual este traço também se estendeu ao campo social e público (FREYRE, 2004). Não foram raros em nossa história recente os períodos de governos autoritários e nem são poucas as pessoas saudosas destes períodos, haja exemplo a ditadura militar vigente entre 1964 e 1985. Figuras políticas autoritárias com ares de salvadores da pátria tem sustentado a tradição conservadora no Brasil com discursos centrados no princípio de Autoridade ou na Defesa da Ordem. A afirmação de que “Entre estas duas místicas – a da Ordem e a da Liberdade, a da Autoridade e a da Democracia – é que vem se equilibrando entre nós a vida política” (FREYRE, 2004, p. 114 e 115) continua válida ainda no início do século XXI.
A família, além da casa e da personalidade, é uma das dimensões sobre as quais se assenta a obra. Esta escolha ocorreu por ser a família, na visão do autor, a primeira e única unidade social estável no início da colonização brasileira. A estrutura social da Casa Grande é a de uma grande família formada por um patriarca, sua esposa oficial e suas mucamas. Filhos legítimos e ilegítimos foram criados juntos com o mesmo carinho e atenção. Os mortos eram enterrados em uma puxada das próprias casas e seus fantasmas continuavam fazendo parte da vida familiar. A mão de ferro dos senhores de engenho ocorria em várias situações. Um caso ilustrativo do poder e nível de controle que estes homens exerciam ao seu redor é o do
patriarca que manda matar seu próprio filho que havia se envolvido com sua mucama predileta.
A arquitetura das casas também representava este imenso poderio feudal, já que eram feias e fortes como que buscando a perpetuidade de seus donos. Nesta ânsia por perpetuidade um deles, ao término da obra, manda matar e enterrar dois negros em seus alicerces. Freyre (2004) argumenta que, além do óleo de baleia, foi o sangue e suor dos negros a principal matéria prima destas construções.
Assim como os mortos continuavam fazendo parte da família também os santos eram íntimos e havia total liberdade de tratamento. Nas cantigas a Senhora de Sant’Ana nina as crianças em seu colo, São Bento protege a casa das formigas e o Menino Jesus praticamente engatinhava junto com as crianças da casa. A religião foi um dos elos unificadores das duas culturas, um ponto de confraternização entre senhores e negros. Segundo Santos e Madeira (1999), o cristianismo no Brasil ficou reduzido a uma religião familiar, que supunha intimidade com o poder divino e a penetração de uma visão mágica na vida cotidiana.
No complexo formado pela Casa Grande e Senzala, em que não havia regras que não pudessem ser mudadas a qualquer instante pelo patriarca percebe-se a necessidade de seus integrantes em manter boas relações com o poder, encarnado nesta figura. Pode-se observar ainda hoje no dia-a-dia da sociedade brasileira, que o seu caráter relacional é bastante forte. É mais importante em algumas situações conflitantes do cotidiano, como disputas de trânsito, o relacionamento que os personagens têm com o poder do que as regras que deveriam valer para a solução do impasse. Uma das frases sacadas em situações como esta é Sabe com quem está
falando?, analisada em detalhes por DaMatta (1978). O poema Vou-me embora para
Pasárgada de Manuel Bandeira refere-se a esta característica relacional quando menciona o
desejo do poeta de ser amigo do rei, o que permitiria possuir qualquer mulher com direito à escolha da cama. Pasárgada poderia ser qualquer um dos engenhos descritos na obra de Freyre
(2004) em que estar nas graças do patriarca era garantia de uma vida mais confortável. São indicadores de uma sociedade altamente relacional.
A força do patriarcalismo e o caráter auto-suficiente dos engenhos, retratados pelo autor, geraram uma indistinção entre ordem pública e privada. O Estado, criado a partir das Casas Grandes, reflete a privatização do poder pelas famílias patriarcais. A ordem privada estendeu-se para a ordem pública. A formação histórica do país mostra a legitimação universal de regras criadas na esfera privada. Como conseqüência surge a dificuldade de universalização das regras jurídico-legais e o enfraquecimento das instituições intermediárias, capazes de incentivar a organização da sociedade civil (SANTOS e MADEIRA, 1999). Um dos traços culturais resultantes desta característica é o famoso jeitinho brasileiro. Este traço consiste numa interpretação da lei ou regra dependendo de quem está envolvido na situação em que ela deveria ser aplicada. Entre o Sim e o Não, o Pode e o Não Pode, sempre existe um Talvez ou um Pode Ser. Este traço está bastante relacionado a outro conhecido por Malandragem e consiste em adequar o sistema jurídico, desenvolvido a partir da ordem privada mencionada, à realidade social (DAMATTA, 1984).
Na visão de Freyre (2004), o povo colonizador do Brasil desenvolveu na América Tropical uma colonização escravocrata e híbrida de índio e posteriormente de negro. “De formação portuguesa é a primeira sociedade moderna constituída nos trópicos com características nacionais e qualidades de permanência” (FREYRE, 2004, p. 73). As características do Português, um povo que teve seu caráter e instituições amolecidas pelo ar quente e oleoso que vinha da África, foram as grandes responsáveis pelo sucesso da colonização. Freyre (2004) rechaça as idéias que outro povo, como os sempre citados ingleses, franceses ou holandeses, teriam obtido o mesmo êxito. Casos de insucesso inglês na tentativa de colonização de países, como as Bahamas, ou as tentativas infrutíferas de estabelecimento de colônias francesas exclusivamente brancas no litoral Brasileiro no século
XVI, são citados como exemplos. No Português, a união da mobilidade, adaptabilidade tanto física quanto social e especialmente a miscibilidade foram fatores chaves para seu estabelecimento.
Muitos dos antagonismos sobre os quais está equilibrada a sociedade brasileira já estavam presentes em seus colonizadores: a mistura das culturas católica e maometana, européia e africana além de sua flexibilidade, indecisão e o equilíbrio ou desarmonia deles resultantes. O autor defende que, sem a influência moura que o português já trouxe em sua formação, teria fracassado nos tópicos. A escravidão a que foram submetidos os mouros em Portugal, após a vitória cristã, determinou a predisposição deste povo para a colonização agrária, patriarcal e polígama da América tropical. São citados alguns traços da influência moura no caráter e cultura portugueses. Sua nobreza era quase tão mesclada de raça como a plebe e a mobilidade social de famílias e indivíduos eram constantes em uma relação de causa e efeito com seu caráter plástico e inquieto. Em sua análise do aspecto social da colonização brasileira Freyre destaca que “nenhum antecedente social mais importante a considerar no colonizador português que a sua extraordinária riqueza e variedade de antagonismos étnicos e de cultura; que o seu cosmopolitismo” (FREYRE, 2004, p. 276)
A grande contribuição de Casa Grande & Senzala foi mostrar a mestiçagem brasileira, resultante da miscigenação do colonizador português com as mulheres de cor como algo positivo. Casa Grande & Senzala foi o divisor de águas entre um Brasil ressentido de sua negritude e um Brasil orgulhoso de sua mestiçagem.
Com os bandeirantes o Brasil autocolonizou-se e estendeu, em muito, seu território porém não houve, no primeiro momento, a colonização em densidade e profundidade de todas as terras conquistadas. O unionismo, uma das forças sociais da história brasileira deveu-se a vários fatores. Um deles foi o sistema uniforme de educação aplicado pelos jesuítas com a disseminação da língua geral. Outro foi o fato dos portugueses não terem trazido para o
Brasil nem separatismos políticos, como os Espanhóis, nem divergências religiosas como os franceses. O mais importante elemento unificador foi a ausência do orgulho de raça entre os portugueses que consideravam como seus iguais aqueles que professassem religião igual à sua. Essa solidariedade religiosa reuniu os brasileiros contra os calvinistas franceses, os reformados holandeses e os protestantes ingleses. “O Catolicismo foi, neste sentido, o verdadeiro cimento da nossa unidade” (FREYRE, 2004, p. 92). Como resultado disso, ainda hoje o Brasil é tido como o maior país católico do mundo e a religiosidade ocupa lugar central na vida da população.
Conclui-se, por fim, que a sociedade resultante do processo de colonização baseia-se no equilíbrio de antagonismos. Antagonismos entre a cultura Européia e a Indígena, entre a Européia e a Africana, entre o católico e o herege, entre o grande proprietário e o destituído de posses. Mas sobre todos os antagonismos predomina o principal e mais profundo: o existente entre o senhor e o escravo. E como amortecedores e, em certos casos, harmonizadores desta situação: a miscigenação, o cristianismo lírico à portuguesa, a tolerância moral, a unidade brasileira e a reciprocidade cultural entre as várias regiões do país. (FREYRE, 2004). Observa-se que, passados mais de 70 anos de seu surgimento, as conclusões de Casa Grande & Senzala continuam válidas. A desigualdade social não diminuiu significativamente neste período e o abismo econômico entre as classes sociais continua bastante alto.