A caracterização sociodemográfica dos profissionais participantes da pesquisa está disposta nas Tabelas 1, 2 e 3, os dados foram organizados por formação profissional (enfermeiro, médico e fisioterapeuta). Inicialmente, a Tabela 1 traz informações sobre faixa etária, sexo, estado conjugal e formação complementar dos pesquisados.
Tabela 1 – Distribuição das características sociodemográficas dos profissionais participantes da pesquisa, quanto a faixa etária, sexo, estado conjugal e formação complementar. Natal/RN, 2010.
Caracterização sociodemográfica
Formação profissional
Enfermeiro Médico Fisioterapeuta Total
N % N % N % N % Faixa Etária 22 a 33 anos 14 35,9 0 0,0 0 0,0 14 35,9 34 a 45 anos 8 20,5 6 15,4 2 5,1 16 41,0 46 a 58 anos 8 20,5 1 2,6 0 0,0 9 23,1 Sexo Feminino 27 69,2 3 7,7 1 2,6 31 79,5 Masculino 3 7,7 4 10,3 1 2,6 8 20,5 Estado conjugal Casado/união consensual 11 28,2 5 12,8 2 5,1 18 46,2 Solteiro 15 38,5 1 2,6 0 0,0 16 41,0 Separado/divorciado 4 10,3 1 2,6 0 0,0 5 12,8 Formação complementar Especialização 20 51,3 4 10,3 0 0,0 24 61,5 Mestrado 4 10,3 1 2,6 0 0,0 5 12,8 Atualização/capacitação e especialização 3 7,7 1 2,6 0 0,0 4 10,3 Especialização e mestrado 3 7,7 0 0,0 0 0,0 3 7,7 Doutorado 0 0,0 0 0,0 1 2,6 1 2,6 Atualização/capacitação e mestrado 0 0,0 0 0,0 1 2,6 1 2,6
Fonte: Própria da pesquisa.
Conforme dados da Tabela 1, a maioria dos profissionais pesquisados é constituída por enfermeiros (76,9%), entre 34 a 45 anos (41,0%), sexo feminino (79,5%), casado ou em união consensual (46,2%) e com especialização na área de cuidado a pessoa com úlceras venosas (61,5%). No entanto, apenas 12,8% dos pesquisados possuem mestrado e 2,6% doutorado.
A evolução clínica das pessoas com úlceras venosas, segundo Borges (2005) e Torres et al (2005, 2006), deve ser acompanhada por uma equipe multiprofissional, no intuito de planejar as ações e condutas a serem implementadas.
De acordo com Castro e Silva et al (2005) a assistência ao paciente com úlcera venosa, bem como o manejo e o tratamento específico dessa lesão, requer do enfermeiro e de toda a equipe multidisciplinar envolvida um conjunto de estratégias que possibilitem a identificação de possíveis caminhos para o alcance precoce dos objetivos propostos na assistência.
Entretanto, no que se refere ao tratamento de lesões, sabe-se que o profissional de enfermagem possui papel fundamental no cuidado holístico, desempenhando um trabalho de extrema importância, uma vez que representa a equipe mais próxima ao paciente, acompanhando a evolução da lesão. Além disso, orienta e executa o curativo, já que detém maior domínio dessa técnica, em virtude de ter, na sua formação, componentes curriculares voltados para tais procedimentos, sendo de sua competência essa atribuição. (TUYAMA et al., 2004).
Dessa forma, percebe-se, na atualidade, que as pesquisas sobre tratamento de feridas vêm tendo destaque nas publicações de enfermagem em detrimento das produções científicas médicas; demonstrando o interesse e a responsabilidade do enfermeiro na prevenção, avaliação e prescrição do tratamento mais adequado para as lesões, além da orientação e supervisão da equipe de enfermagem na execução do curativo, competências intrínsecas ao cotidiano do enfermeiro. (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).
A Deliberação n.o 65/00 do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais, que dispõe sobre as competências dos profissionais de enfermagem na prevenção e tratamento das lesões cutâneas, ressalta que compete ao profissional enfermeiro: realizar a consulta de enfermagem (exame clínico, entrevista e exame físico) do cliente/paciente portador de lesão ou daquele que corre o risco de desenvolvê-la; prescrever e orientar o tratamento; solicitar exames laboratoriais e de Raio X, quando necessários; realizar o procedimento de curativo (limpeza e cobertura); realizar o desbridamento, quando necessário. Ressaltando que o tratamento das lesões deve ser prescrito pelo profissional enfermeiro, preferencialmente pelo especialista na área. (CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM/MG, 2000).
Para Tenório e Braz (2002), o profissional de enfermagem deve ter a responsabilidade de manter a observação intensiva com relação aos fatores locais, sistêmicos e externos que condicionam o surgimento da ferida ou interfiram no processo de cicatrização, uma vez que está diretamente relacionado ao tratamento de feridas, seja em serviços de atenção primária, secundária ou terciária. Sendo necessária uma visão clínica que relacione alguns pontos importantes que influenciam nesse processo, como o controle da patologia de base (hipertensão,
diabetes mellitus), aspectos nutricionais, infecciosos, medicamentosos e, sobretudo, o rigor e a qualidade do cuidado educativo.
O enfermeiro deve ter uma visão ampla no que se refere ao tratamento de uma ferida crônica e atentar não apenas para a lesão em si, mas ter a capacidade de realizar uma abordagem holística de modo a contemplar o ser humano em sua plenitude. (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).
Somando-se a importância do enfermeiro no cuidado às pessoas com feridas, o profissional médico, em especial o angiologista, é fundamental no diagnóstico e tratamento das úlceras venosas. Esse especialista é responsável, além da anamnese e exame físico, pela realização e interpretação de exames complementares como: eco-doppler, plestimografia e flebografia, bem como pela prescrição do tratamento com uso de medicamentos vasoativos, compressão elástica e cirurgia para correção de valvulopatia e insuficiência venosa. (CASTRO E SILVA et al., 2005; PITTLER; ERNST, 2002).
Torres et al (2009) destacam, em seu estudo sobre as características sócio-demográficas, de saúde e da assistência prestada aos idosos com UV atendidos nos serviços de saúde nos níveis primário e terciário de assistência do SUS, em Natal/RN, um baixo nível (39,8%) de acesso a consulta ao angiologista, sendo 20,5% em nível terciário e 19,3% na atenção básica.
Forti et al (2004), em uma pesquisa realizada sobre a distribuição de angiologistas no Brasil, destaca uma grande defasagem de angiologistas e cirurgiões vasculares na região Nordeste, inclusive onde existem hospitais universitários e de maior complexidade. No Rio Grande do Norte, em 2004, existiam 21 angiologistas/cirurgiões vasculares para uma população de 2.962.107 habitantes, sendo 1:35.466 na capital e 1:2.217.313 no interior. Não havendo angiologistas/cirurgiões vasculares suficientes no interior do estado para atender a população, o que acarreta uma grande demanda para a capital.
Ressaltam-se que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda 1 angiologista para 17.000 habitantes nos países desenvolvidos e 1 angiologista para 35.000 nos países em desenvolvimento. (FORTI et al., 2004).
Além da equipe de enfermagem e médica, os fisioterapeutas têm importância fundamental nos processos ulcerativos, buscando a redução do período de cicatrização, possibilitando aos indivíduos um retorno mais rápido às suas atividades sociais e de vida diária trazendo uma melhora na qualidade de vida de pessoas portadoras de úlceras cutâneas. (BORGES, 2005).
Estudo realizado por fisioterapeutas na cicatrização de úlceras permitiu mostrar que esses profissionais têm grande importância desde a prevenção até a reabilitação destes pacientes. Eles
têm os recursos que podem auxiliar no processo de reparo dessas úlceras, no entanto destaca-se que prevenir o aparecimento das lesões é o tratamento mais fácil, além de permitir que este indivíduo permaneça ativo no convívio social. (MARQUES; MOREIRA; ALMEIDA, 2003).
Além da formação profissional de graduação, vale a pena ressaltar a necessidade de investimento em formação complementar dos profissionais envolvidos na assistência a pacientes com lesões venosas. Experiências de implantação de protocolos e capacitação permanente dos profissionais, em diversas instituições do país, têm demonstrado ser um dos caminhos para a prestação de uma assistência de qualidade e resolutiva. (BORGES, 2002; BELO HORIZONTE, 2003; RIBEIRÃO PRETO, 2004; NUNES, 2006; DEODATO, 2007, NÓBREGA, 2009).
Um exemplo disto é a atribuição de enfermeiros na realização do exame de doppler vascular periférico e desbridamento das úlceras desde que esses profissionais tenha capacitação ou especialização na área de feridas, segundo os pareceres do COREN/SP n.o 019/2010 e n.o 013/2009. (CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM/SP, 2009, 2010).
Acrescentando ainda que esses pareceres sugerem a implantação de protocolos clínicos que subsidiem a sistematização da assistência de enfermagem, prevista na Resolução COFEN n.o 358/2009. Além disso, as ações dos enfermeiros especialistas devem respeitar o Artigo 12 do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, no que diz respeito a prestar assistência aos clientes sem riscos ou danos causados por negligência, imperícia ou imprudência. (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2007; 2009).
Os profissionais médicos e fisioterapeutas também necessitam de capacitação profissional, pois é imprescindível o conhecimento no julgamento clínico das lesões venosas, a fim de aproveitar a disponibilidade dos recursos disponíveis para prevenção, diagnóstico e tratamento. No panorama das lesões cutâneas é necessário que se considere o universo de fatores de risco que culminam no surgimento de feridas, a saber: os fatores clínicos, estrutura institucional e a qualidade do cuidado profissional (FERNANDES; CALIBRI, 2000).
No entanto, o inadequado tratamento tanto na atenção básica como na média e alta complexidade reflete, de certa forma, a falta de capacitação profissional nos outros níveis de assistência. Dessa forma, ressalta-se a importância do portador de UV ser atendido, em qualquer nível de assistência, por profissionais capacitados. (NUNES, 2006; DEODATO, 2007; NÓBREGA, 2009).
A Tabela 2, adiante, refere-se a unidade de trabalho, tempo de cuidado com UV, motivo que levou a esse cuidado e a opinião dos pesquisados sobre a importância da capacitação profissional.
Tabela 2 – Distribuição das características sociodemográficas dos profissionais participantes da pesquisa, segundo a unidade de trabalho, tempo de cuidado com UV, motivo de cuidado de UV e importância de capacitação. Natal/RN, 2010.
Caracterização sociodemográfica
Formação profissional
Enfermeiro Médico Fisioterapeuta Total
N % N % N % N %
Unidade de trabalho
Hospitalar 15 38,4 3 7,7 0 0,0 18 46,1
Ambulatorial 6 15,4 4 10,3 2 5,1 12 30,8
Estratégia Saúde da Família 7 17,9 0 0,0 0 0,0 7 17,9
Docência 1 2,6 0 0,0 0 0,0 1 2,6
Hospitalar e Estratégia Saúde da
Família 1 2,6 0 0,0 0 0,0 1 2,6
Tempo de cuidado com UV
De 1 a 5 anos 12 30,8 1 2,6 1 2,6 14 35,9 < 1 ano 10 25,6 3 7,7 0 0,0 13 33,3 De 5 a 10 anos 5 12,8 3 7,7 1 2,6 9 23,1 > 10 anos 3 7,7 0 0,0 0 0,0 3 7,7 Motivo cuidado de UV Afinidade 19 48,7 2 5,1 1 2,6 22 56,4 Especialização 6 15,4 1 2,6 0 0,0 8 20,5 Afinidade e especialização 4 10,3 1 2,6 0 0,0 5 12,8 Imposição 1 2,6 3 7,7 0 0,0 4 10,3 Importância de capacitação Sim 30 76,9 7 17,9 2 5,1 39 100,0
Fonte: Própria da pesquisa.
Conforme a Tabela 2, a maior parte dos profissionais da pesquisa atua na rede hospitalar (46,1%) e ambulatorial (30,8%), com tempo de cuidado de úlcera venosa até 5 anos (69,2%), prestando assistência por afinidade (56,4%) e considerando fundamental a capacitação profissional (100,0%).
Em relação à unidade de trabalho dos profissionais, houve a predominância de atuação na rede hospitalar, o que remete a cultura hospitalocêntrica que durante muitos anos foi realidade das práticas de saúde. (SOUSA, 2000).
Na concepção de Sousa (2000), a efetiva implantação da atenção básica possibilitaria a busca de integralidade da assistência e a criação de vínculos de compromisso e de responsabilidade compartilhados entre os serviços de saúde e a população. No entanto, segundo
os dados coletados no estudo de Nunes (2006), apenas 21,0% dos profissionais de saúde atuam na Estratégia Saúde da Família (ESF).
Sousa (2000) ressalta ainda que a ESF brasileira surge como uma possibilidade de reorganização do modelo assistencial e propõe uma nova dinâmica para a estruturação dos serviços de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade assistencial. Assumindo assim o compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e, acima de tudo, resolutiva à população, na unidade de saúde e no domicílio, sempre e de acordo com as suas reais necessidades, identificando os fatores de risco aos quais ela está exposta e neles intervindo de forma apropriada.
Nesse sentido, todo o sistema de saúde brasileiro deve ser estruturado, segundo a lógica da atenção básica e posteriormente da média e alta complexidade, pois a continuidade da atenção deve ser garantida, através de um fluxo contínuo, em todos os níveis de assistência.
O tempo de cuidado dos profissionais com pessoas com úlceras venosas pode refletir maior experiência e dedicação nesses casos, uma vez que o tratamento da úlcera vascular geralmente é lento, envolve um processo complexo e dinâmico, que depende de avaliações sistematizadas, baseada na avaliação clínica, diagnóstico precoce, planejamento do tratamento adequado, implementação do plano de cuidados, evolução e reavaliação das condutas e tratamento, além do trabalho educativo permanente em equipe. (TORRES et al., 2007; DEODATO; TORRESa, 2008; NÓBREGA, 2009).
No que diz respeito à motivação para o cuidado com UV, os profissionais pesquisados destacaram a afinidade como principal motivo para trabalharem nesta área. Lino (2004), em seu estudo sobre satisfação profissional, detecta que o trabalho desenvolvido com prazer e satisfação gera um cuidar com aproximação humana, interferindo positivamente na evolução do tratamento e reabilitação dos pacientes.
Na Tabela 3 está expressa a opinião dos profissionais sobre sentir-se preparado e como adquiriu o preparo no cuidado à pessoa com úlcera venosa.
Tabela 3 – Distribuição das características sociodemográficas dos profissionais participantes da pesquisa, quanto ao preparo no cuidado a pessoa com úlcera venosa. Natal/RN, 2010.
Caracterização sociodemográfica
Formação profissional
Enfermeiro Médico Fisioterapeuta Total
N % N % N % N % Sente-se preparado Sim 27 69,2 7 17,9 2 5,1 36 92,3 Não 3 7,7 0 0,0 0 0,0 3 7,7 Como preparou-se Atualização/capacitação, especialização e na prática 8 22,2 1 2,8 0 0,0 9 25,0 Especialização 8 22,2 1 2,8 0 0,0 9 25,0 Especialização e na prática 3 8,3 4 11,1 0 0,0 7 19,4 Na prática 2 5,6 1 2,8 1 2,8 4 11,1 Atualização/capacitação e na prática 3 8,3 0 0,0 0 0,0 3 8,3 Atualização/capacitação 1 2,8 0 0,0 1 2,8 2 5,6 Atualização/capacitação e especialização 2 5,6 0 0,0 0 0,0 2 5,6
Fonte: Própria da Pesquisa.
A Tabela 3 refere-se ao sentimento de preparo por parte dos profissionais, destes 92,3% sentem-se preparados para assistir pessoas com úlceras venosas, capacitando-se em diversos níveis, como: cursos de atualização/capacitação, especialização e na prática (25,0%).
Segundo Deodato (2007) e Torres et al. (2007) é através da sistematização da assistência que a equipe multidisciplinar de saúde capacitada pode avaliar os fatores que interferem na evolução da úlcera e suas respectivas intervenções, acompanhar a evolução das etapas do processo cicatricial das úlceras e fazer a opção pelo melhor tratamento, condutas e curativos/coberturas a serem utilizadas durante o tratamento.
Prestar uma assistência de qualidade a clientes com lesões venosas é um desafio a ser enfrentado por toda a equipe. É através de um cuidado humanizado, compreendendo a patologia sem deixar de se preocupar com os fatores psicossociais e humanos que o profissional alcançará a excelência no atendimento. (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).
Além disso, faz-se necessário que os profissionais de saúde tenham uma consciência da relevância dos programas de saúde preventiva para doenças crônico-degenerativas e apliquem seus esforços na preservação da saúde e melhoria da qualidade de vida das pessoas sob seus cuidados, principalmente em relação a pacientes com lesões. (CAETANO; SOARES, 2007).
Após a caracterização sociodemográfica dos profissionais do estudo, iniciam-se as características dos aspectos para composição do protocolo de UV.