Chapter 6 - Conclusion
6.2 Implications for teaching
Quando entrou o AI5, as opções eram drásticas, né? Ou você ia pro lado daqueles malucos pra fazer luta armada...mas nós optamos por começar a fazer arte, fazendo humor, indo pra rua fazer o Carnaval, falando poesia... (Filme As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, 2016).
Os depoimentos nos dois filmes100 consultados, as referências nas reportagens
100 20 Anos de Suvaco, documentário de Paola Vieira, lançado em 2006, e As Incríveis Artimanhas da
Nuvem Cigana, documentário de Paola Vieira e Claudio Lobato, de 2016.
Figura - Carta da moradora ao Jornal do Brasil - 1986
Fonte - Acervo João Avelleira
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e no livro de Pimentel (2002) e a entrevista de João Avelleira à autora mostram que influenciou diretamente o Suvaco do Cristo um bloco criado em 1975, em plena ditadura militar, chamado Charme da Simpatia. O Charme havia surgido de um movimento da “poesia marginal”101 dos anos 1970 chamado Nuvem Cigana, que era formado por um grupo de poetas, arquitetos, artistas visuais, músicos e jornalistas, que incluía pessoas como Ronaldo Santos, Bernardo Vilhena, Claudio Lobato, Pedro Cascardo, Dionísio de Oliveira, Cafi e o mais famoso deles, Chacal.Muitos dos integrantes do Charme da Simpatia participariam onze anos depois da ala dos compositores e da criação do Suvaco.
Figura 73: Coletivo Nuvem Cigana, que fundou o bloco Charme da Simpatia.
Fonte: Fotos de Ronaldo Gorin, publicadas no livro "Nuvem Cigana", da Azougue Editorial. Disponível em http://umahistoriaamargem.blogspot.com.br/p/nuvem-cigana.html - Acesso em 23 de Junho de 2016
Claudio Lobato, que dirigiu com Paola Vieira102 o documentário “As incríveis artimanhas da Nuvem Cigana”, diz em entrevista ao jornal Folha de São Paulo (ANGIOLILLO, 2014), quando iniciava as filmagens do documentário, que o Nuvem Cigana permitiu “sentir o enorme prazer de estar junto, de poder falar, de ocupar a rua
101 Para mais informações, ver nota explicativa sobre poesia marginal no Capítulo 3 – Os donos da
rua, na página 81.
102 Paola também é diretora do documentário 20 Anos de Suvaco.
Figura - Coletivo Nuvem Cigana, que fundou o bloco Charme da Simpatia na década de 1970
Fonte - Fotos de Ronaldo Gorin, publicadas no livro "Nuvem Cigana", da Azougue Editorial. Disponível em http://umahistoriaamargem.blogspot.com.br/p/nuvem-cigana.html - Acesso em 23 de Junho de 2016
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naqueles anos tão sombrios”.
O sociólogo Jorge Sapia também nos dá uma dimensão da essência do movimento Nuvem Cigana e do seu bloco Charme da Simpatia no texto que escreveu em seu blog A festa é boa para pensar, em 2016:
O lema tudo junto e misturado estava presente nas festas de poesia, batida de limão, futebol, alegria, maconha, samba, LSD, sexo e Carnaval que eram as artimanhas, o pano de fundo, o palco e a plateia da Nuvem e do seu rebento carnavalesco, O Charme da Simpatia. A juventude carioca que nos setenta estava antenada com o carnaval transitava por Olinda, no Recife, e por Búzios e Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Em Búzios nasceu o Bloco Carnavalesco Lítero Musical Euterpe Charme da Simpatia. De alguma maneira, a lógica performática que hoje se faz presente nas novas modalidades de participação carnavalesca estava presente no Charme da Simpatia, bloco não territorializado, que desfilou, em 1975, em Ipanema, Botafogo e Vista Alegre, num tempo em que colocar um bloco na rua era quase uma revolução – conforme conta o poeta e compositor Chacal, em Uma história à margem. O bloco foi tomando forma nas peladas do Clube Caxinguelê, que era uma espécie de Embaixada da Suíça. Ali a gente podia se reunir sem levantar suspeita de formação de quadrilha. Afinal, era uma simples pelada. (SAPIA, 2016).
O Charme da Simpatia não era um bloco estruturado como os de hoje, que têm local de saída e roteiro. Não territorializado, tinha por brincadeira misturar-se a outras agremiações carnavalescas pela cidade, como a Banda de Ipanema, ou o Arregaça, de Vista Alegre. Era assim que saiam para brincar o Carnaval, em uma cidade praticamente sem opções, especialmente na Zona Sul, naqueles tempos de ditadura, como narra João Avelleira:
Nós tínhamos essa única referência do Charme da Simpatia no Rio de Janeiro – onde não estava acontecendo quase nada na Zona Sul. [...] O Charme era um bloco muito iconoclasta, um bloco muito transgressor. Na verdade, era uma multidão de poetas, um bloco que saia e não acabava, não terminava o percurso, no meio do caminho voltava, a bateria se dispersava...eu, o Chain, o Xico e a Sonia, todos nós tivemos uma passagem pelo Charme. Essa era a nossa maior referência carnavalesca aqui no Rio. (João Avelleira em entrevista à autora em 22 de abril de 2017)
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Figura 74: Nuvem Cigana: baile de mar à fantasia no Posto 9, em 1976.
Fonte: Foto Ronaldo Gorin. Ronaldo com o estandarte do Charme, ao lado de Charles Peixoto. Disponível em: <http://umahistoriaamargem.blogspot.com.br/p/nuvem-cigana.html>. Acesso em: 23 jun. 2017.
Antigo folião do Charme da Simpatia, posteriormente fundador do Suvaco, o poeta marginal Chacal103 destaca o pioneirismo deste bloco e o quanto ele influenciou o Suvaco anos depois:
O Suvaco foi bastante importante neste período inicial de implantação do carnaval de rua da Zona Sul. Mas o pioneiro, a meu ver, é o Charme da Simpatia. O bloco tinha essa característica itinerante de estar um dia misturado à Banda de Ipanema e, no outro, em Vista Alegre, desfilando com o pessoal do Arregaça. O Suvaco herdou muitos foliões, como o Paulo Saad (fundador e diretor de bateria do Carmelitas, de Santa Teresa), o Nanico, eu. O próprio João Avelleira brincava no Charme. (CHACAL apud PIMENTEL, 2002, p. 83).
João Avelleira concorda com essa influência do Charme da Simpatia, mas vai além. Para ele, os fundadores do Suvaco “beberam nas fontes do Carnaval de Olinda e de Recife”, para onde iam na década de 1970 e até a metade da década de 1980, cidade em que teriam descoberto o verdadeiro Carnaval de rua.
103 No final dos anos 1990, Chacal, que participara do Charme da Simpatia e do Suvaco do Cristo,
será um dos idealizadores do Bangalafumenga junto com os músicos Rodrigo Maranhão e Celso Alvin. (MOREL, 2015, p. 30).
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Nós tínhamos mesmo era uma tradição do Carnaval de rua de Recife, de Olinda. E o que a gente achava legal era aquela festa na rua! [...] Eu começo a ir para Olinda em 1979, e lá acontece uma coisa muito interessante. A gente chega e descobre um carnaval em que as pessoas tinham uma ideia e logo criavam um bloco. Quando chegamos [ele, Chaim e Sonia] na cidade, pegamos a formação do Segura a coisa, um bloco criado pela irmã do Chico [Buarque], que mora lá até hoje. Miúcha ia, as irmãs do Chico iam. [...] Isso era uma tradição em Olinda: dez pessoas se juntavam e pronto, faziam um bloco. Nós tínhamos essa experiência de Olinda, que tinha sido muito bacana. (João Avelleira em entrevista à autora em 22 de abril de 2017)