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O treino da perícia perceptiva baseia-se conceptualmente no modelo do processamento da informação, evidenciando-se preocupações ecológicas. Estrutura-se no conhecimento ecológico, sobretudo de Brunswik, em tarefas representativas.

A técnica perceptiva melhora como resultado da tarefa de prática específica e não através da maturação ou crescimento (Abernethy, 1988), ou factores genéticos (Williams, 2003), mas a questão crucial é se a aquisição destas técnicas pode ser facilitada através do treino e de uma instrução apropriada.

A tecnologia de vídeo ou simulação pode ser particularmente efectiva quando acoplada com as técnicas de instrução apropriadas, no desenvolvimento da perícia perceptiva no desporto (Williams & Grant, 1999).

A utilização típica da técnica de vídeo tem sido produzir simulações que recriam a visão do executante da acção (e.g., a resposta ao serviço de ténis ou a marcação da grande penalidade no futebol). Estas sequências de vídeo são posteriormente apresentadas ao grupo de treino em tempo real ou câmara lenta com o objectivo de focalizar a atenção na informação mais pertinente. As relações entre estas fontes de informação vitais e os requisitos da acção são subsequentemente reforçados e o feedback acerca da resposta correcta é então fornecido (Williams & Ward, 2003).

A prática com feedbacks visuais torna esta fonte de informação importante tanto para o planeamento como para a execução do movimento após níveis extensivos de prática. Feedback visual através de vídeo e técnicas de bio-feedback têm mostrado ter sucesso na obtenção de habilidades técnicas no desporto, no melhoramento da coordenação do movimento e na reabilitação em que tenha havido danos sensoriais (Khan & Franks, 2004). O treino de simulação baseada em vídeo parece melhorar a antecipação específica do desporto e a tomada de decisão.

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A criação e implementação de algumas medidas de transfer são essenciais para determinar se as melhorias observadas no laboratório são realmente transferidas para a situação real de jogo (Williams & Grant, 1999). Intervenções cognitivas que salientam os aspectos mais importantes da informação e correspondentes requisitos para a acção, tanto através de simulações de vídeo ou instruções no campo, parecem de utilidade prática na facilitação da técnica perceptiva no desporto (Williams & Ward, 2003).

Na técnica de reconhecimento e utilização de probabilidades situacionais padrão, uma sugestão é de que a exposição a padrões específicos de jogo resulta no desenvolvimento de receptores ou detectores especializados por um processo chamado “imprinting” (Williams & Ward, 2003), que, supostamente, se desenvolvem e fortalecem com a exposição ao estímulo, resultando, num aumento da velocidade, precisão e fluência geral com que o estímulo é processado.

Inúmeras equipas desportivas e atletas usam, hoje em dia, o vídeo para rever recentes desempenhos e estudar os futuros adversários. Este tipo de intervenção pode melhorar a estrutura do treino. Sessões de treino estruturadas podem envolver a apresentação de uma quantidade de estatísticas que salientem as movimentações e acções típicas realizadas pelos futuros adversários.

A análise pode revelar que os adversários normalmente jogam de acordo com um padrão ou que os atacantes sejam previsíveis nas suas movimentações. O conhecimento destes pontos pode ajudar a melhorar as habilidades dos jogadores para realizarem predições precisas tendo em atenção as acções dos seus adversários. Esta informação poderá servir também para a construção do treino uma vez que possibilita a utilização de exercícios específicos.

A principal razão para a falta de investigação na possibilidade de treino de reconhecimento dos padrões e técnicas de probabilidade situacional é de que pouco se conhece acerca das invariantes perceptivas importantes subjacentes a estas técnicas.

De acordo com Williams e Ward (2003) no que diz respeito às técnicas de reconhecimento do padrão, quais as fontes de informação essenciais que definem esse padrão? São todos os jogadores importantes, ou é apenas um grupo de jogadores que dá a esse padrão uma assinatura única? No caso das probabilidades situacionais, que informação deve ser passada ao jogador? Que probabilidades são importantes e quais ignoramos?

Algumas questões parecem necessitar de ser consideradas para que a implementação das técnicas possa ser mais eficaz.

Treino da tomada de decisão do treinador: Análise da influência dos constrangimentos metadecisionais 43 4.2.1. Como deve a informação ser passada ao jogador?

Não está particularmente claro se a informação geralmente abordada nos programas de treino perceptivo deverá ser aprendida explicitamente através de mecanismos conscientes, tais como: instrução verbal, demonstração, imagética e feedback ou se tal informação pode e deva ser aprendida através de estratégias mais implícitas sem intervenção directa (Williams & Grant, 1999).

Na visão da instrução tradicional, os treinadores forneciam informação detalhada e feedback em como corrigir o comportamento dos atletas (Farrow, Chivers, Hardingham, & Sachese, 1998; Williams & Burwitz, 1993). Recentemente tem-se defendido uma aproximação menos prescritiva da instrução (Davids et al., 2001).

Para Magill (1998) a aquisição implícita de pistas de informação perceptiva é pelo menos tão eficaz como estratégias de percepção explícita e sobre condições com incerteza elevada é melhor para a aprendizagem e desempenho. A atenção deverá ser direccionada para áreas de “informação-rica” em oposição a pistas específicas em que o aprendiz tenha oportunidade de adquirir o conhecimento de forma implícita.

A sugestão é de que as técnicas instrutivas implícitas (descoberta guiada) podem ser mais eficientes do que as estratégias explícitas, particularmente sob condições que envolvam grande incerteza ou stress (Williams & Ward, 2003). Parece que os atletas que aprendem técnicas através de estratégias explícitas são mais propensos a quebrar sob pressão, uma vez que afastam a sua atenção da informação do ambiente e conduzem-na internamente para os sentimentos, pensamentos e movimentos.

Horton, Baker e Deakin (2005) estudaram cinco seleccionadores nacionais para determinar os elementos centrais dos ambientes de prática. Os resultados do estudo suportam a noção de que os peritos procuram construir a prática de forma a maximizar a transferência de informação para os seus jogadores. A instrução táctica foi dominante.

4.2.2. Como é que criamos simulações eficientes para o treino?

A abordagem mais normal é desenhar a simulação que represente ou imite a tarefa no mundo real da forma mais próxima possível. É necessária mais pesquisa para determinar se as simulações que envolvem modalidades sensoriais adicionais resultam de uma forma de transfer mais eficaz do que aquelas que meramente envolvem a modalidade visual (Williams & Grant, 1999).

Para Williams e Ward (2003) a maioria dos estudos de treino perceptivo utiliza técnicas de simulação de vídeo, que têm vantagens como: baixo custo, acessibilidade e

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podem ser usadas durante toda a época, podendo ainda ser manipuladas e utilizadas quando o atleta está magoado ou fatigado. Contudo, levanta-se a questão: será o vídeo o meio de treino mais eficiente?

Apesar de o vídeo ser mais eficiente do que a apresentação em slide, a questão do ambiente da realidade virtual e dos simuladores parece ser uma potencial forma de treino. Porém, tem-se levantado a questão: serão estas aproximações tecnológicas mais eficientes na facilitação da aprendizagem, nomeadamente no aumento dos custos e na redução da acessibilidade?

As duas diferenças críticas existentes, entre a realidade virtual e o vídeo, são de que a realidade virtual reage ao utilizador e o criador pode manipular o ecrã de forma a que não adira às leis da natureza física existentes. Esta reacção ao utilizador significa que o praticante pode mexer a cabeça para ver o que está a acontecer ao seu lado ou explorar as consequências perceptivas movimentando-se de forma diferente, em tempo ou velocidade diferentes. O problema da realidade virtual é perceber se o transfer dos estímulos é realizado na situação real (Abernethy, Wann, & Parks, 1998a).

4.2.3. Como assegurar o transfer do laboratório para o campo?

Este problema é provavelmente o maior para aqueles que investigam nesta área de estudo, no entanto, pode ser o menos importante no que diz respeito aos treinadores. O problema pode ser resolvido através da colaboração entre investigadores e praticantes. Esta parece ser a melhor solução para testar o “casamento” entre as avaliações subjectivas, baseadas nas opiniões dos treinadores, as avaliações objectivas, baseadas no vídeo e na quantidade das análises do jogo (Williams & Ward, 2003).

O transfer tende a ser superior quando se conseguir reproduzir o ambiente de desempenho actual, suficientemente fidedigno, de forma a reter-se a informação perceptiva essencial para a tarefa que justifique a vantagem perceptiva do perito.

No desporto, a maior parte dos investigadores negligenciaram o uso dos desenhos de transfer, enquanto aqueles que tentaram medir a utilização do transfer de habilidades de avaliação basearam-se em vídeo ou apoiaram-se na avaliação subjectiva do desempenho feito por treinadores experientes. Compreensão detalhada das fontes específicas de informação empregues durante a percepção habilidosa é um requisito essencial no desenvolvimento de programas de treino perceptivo eficazes no desporto (Williams & Grant, 1999).

Treino da tomada de decisão do treinador: Análise da influência dos constrangimentos metadecisionais 45 4.2.4. Prática estruturada para uma aprendizagem perceptiva eficiente?

O consenso geral é de que a variabilidade da prática e as condições de prática com interferências contextuais altas são benéficas para a aquisição das técnicas.

Em contraste, para Williams e Ward (2003), poucos investigadores examinaram se princípios semelhantes se aplicam na aprendizagem de técnicas perceptivas e cognitivas. É necessária mais investigação de forma a definir a duração e a frequência óptima das sessões de treino perceptivo. A média de uma sessão é de quinze minutos a duas horas e a frequência varia de uma simples sessão até seis sessões por semana. Contudo, será que o treino perceptivo continua a melhorar com o treino e prática ou haverá um ponto óptimo a partir do qual os benefícios do treino são mínimos?

Alguns investigadores têm verificado evolução significativa na antecipação depois de uma sessão de treino de sessenta minutos. Outros têm realizado até seis semanas no treino. O que não é claro é se o desempenho perceptivo continua a melhorar proporcionalmente quando a quantidade e frequência do treino aumenta. A lei da prática sugere que os melhoramentos seriam provavelmente rápidos no princípio e muito mais lentos posteriormente quando o desempenho atinge o auge (Williams & Grant, 1999).

4.2.5. Há um tempo chave para a aquisição das técnicas perceptivas?

É necessária investigação para determinar se o treino perceptivo deverá ser estruturado de forma diferente para os grupos etários. Evidenciam-se melhorias na maioria das pesquisas baseadas em desportos com praticantes principiantes. A experiência num desporto em particular pode ser um pré-requisito do treino perceptivo, mas a extensão desta experiência anterior não foi ainda claramente delineada. O nível instrucional do aprendiz poderá interagir com a fidelidade da simulação na determinação da eficácia de tais programas de treino (Williams & Grant, 1999).

Alguns investigadores sugerem que as técnicas perceptivas melhoram com a idade e a experiência (Abernethy, 1988). Alguns autores defendem a idade dos 8 aos 10 anos (French & Thomas, 1987; Williams & Ward, 2003;) como a idade ideal, outros a idade dos 12 aos 14 anos (Williams & Grant, 1999). Em contraste, Williams e Ward (2003) referem que o estudo de Groom e Paull (2001) não mostrou nenhuma melhoria no treino perceptivo da técnica de antecipação em jovens de 6 anos de idade.

Não é consensual qual a idade cronológica ideal em que as técnicas devam ser ensinadas, pelo que esta estratégia é desaconselhada devido às diferenças individuais no desenvolvimento cognitivo (McMorris, 1999).

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Em níveis de desempenho de elite, as técnicas perceptivas e cognitivas são mais importantes na diferença de jogadores do que as características técnicas e físicas (Williams & Reilly, 2000). Uma sugestão é de que os atletas estejam prontos para o treino perceptivo aos 12 anos de idade (Williams & Grant, 1999), mas este facto é baseado na intuição e na opinião de treinadores experientes e não em evidências empíricas. Apesar das melhorias actuais nas técnicas perceptivas nesta fase poderem ser pequenas os benefícios futuros podem ser muito maiores (Williams & Ward, 2003).