CHAPTER 4: FINDINGS
5: DISCUSSIONS
5.5 Implications of Renewable Energy Integration For Nigeria’s Energy Security
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“A figura de Medeia, a feiticeira da Cólquida, aparece como uma incrustação estranha na complexa tessitura da religião grega.” Maria Helena da Rocha Pereira (1963: 348) assinala a singularidade da fazedora de mito que é Medeia, ao apontar-lhe um aspecto fundamental ligado à unicidade, à raridade e à originalidade que comporta. Desde logo, a semi-deusa distingue-se pela sua pluri-identidade, tanto humana como divina, somando assim força e conhecimento. Mas o seu carácter é igualmente singular, o que resulta em decisões e reacções surpreendentes.
Quando Medeia pega nas rédeas, conduz-se para o mundo do fantástico e do sobrenatural, o qual, em boa verdade, ela conhece. Sempre cruzou as fronteiras entre o mundo terreno e o outro, coleccionando saberes e elementos.
Se num primeiro momento pretende aproximar-se das mulheres que a ouvem, no fim da peça, Medeia afasta-se do humano e do real, e assume a sua faceta divina. Como afirma Nancy Rabinowitz, a personagem balouça ente dois mundos, e assim que a acção se desenvolve, revela cada vez mais a sua diferença. Afinal, qual o seu “ontological status”? (Rabinowitz, 1993:131). É Medeia mortal, divina, ou ambas?
Porventura Medeia se defina nos dois territórios, como elemento conciliador de domínios. Medeia é descendente de deuses e deusas; maneja com precisão o saber das ervas, poções e encantamentos, o qual habitualmente escapa aos mortais. “Euripides chooses to develop her first as a woman, to whom we respond on the narrative level, then to reveal her as a divinity, to whom we respond…on the authorical level.” (Rabinowitz, 1993:134). Podendo escolher outras divindades, é por Hécate, deusa da magia e das noites, que Medeia jura destruir as núpcias de Jasão. Foi Hécate quem a ensinou a manipular venenos, e quem lhe ofereceu um conhecimento obscuro que os humanos temem; e será pelas mãos de Medeia que esse mesmo conhecimento tomará vida. “Our sympathy for her is in large part of what she has done for Jason, and his disloyalty in the face of that generosity, but those same powers also make her an uncanny enemy…Medea’s devices will run wild.” (Rabinowitz, 1993:135).
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Para Emily McDermott (1989: 25-7), Medeia transgride as básicas leis de familiaridade que regem a natureza humana sendo a cena do infanticídio fundamental para distinguir Medeia das demais. É evidente que ela não se guia por leis humanas, e da mesma forma não se prende às obrigações atribuídas ao seu género. Medeia constrói o seu caminho perante realidades que vai encontrando. Se parte dela perece quando degola as crianças, outra liberta-se: a de semi-deusa, que caminha entre dois mundos, e que pode mais do que os humanos. Os seus olhos possuem um alcance divino e mágico só concedido a quem entra nos diferentes territórios míticos. Assim se entende o final da peça, que possibilita à infanticida, uma fuga a cargo de dragões alados. E ao voar para o céu, com o corpo dos filhos, deixa em Corinto o que restava da sua humanidade. Os filhos concebidos com um humano e em território terreno, não têm lugar na fuga de Medeia; esta carrega os seus corpos, sabendo que só os despojos são autorizados a entrar em lugar sagrado. “Euripides’ character may be mortal, immortal or something in between…” (Griffiths, 2006:77).
É certo que ao achar-se encurralada, Medeia pensa primeiramente em matar-se. Mas rapidamente equaciona a hipótese de assassinar os amantes, e por fim, de concretizar a vingança tirando a vida aos filhos. O que é esta gradação caótica, senão uma prova da afirmação crescente da sua faceta divina e trágica? Assim como a perseverança e o sacrifício? A verdade é que esta metamorfose permite observar o crescimento de uma divindade e o desaparecimento de uma humana: neta de Hélios, deus Sol, sobrinha de Circe, e protegida de Hécate, Medeia percorre fronteiras, o que faz dela um símbolo da complexidade da relação entre os dois lugares. Apesar de se envolver em lutas humanas como o amor, a paixão, a lealdade e a traição, ela é, efectivamente, detentora de poderes divinos. Os seus poderes mágicos não são triviais; como feiticeira, tem acesso a saberes vedados aos terrenos, a técnicas e magias antigas. O conhecimento que possui é restrito, e dominá-lo, implica uma actividade que escapa ao alcance humano. Ela é “beyond nature” (Griffiths, 2006:42), filha do sobrenatural e transgressora natural das mais basilares regras de uma sociedade. Medeia apresenta atributos de pharmakis, (Griffiths, 2006:43), ou seja, a mulher que sabe utilizar pós e ervas, o que no mundo clássico estava associado à prática de bruxaria. Os seus comportamentos espelham uma força sobrenatural inata, pois corre-lhe nas veias uma seiva divina e apaixonada, a qual lhe permite assumir-se como figura nos limites do mundo. Toma decisões da
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responsabilidade dos deuses, pois na realidade é ela quem decide o futuro de Jasão, da princesa e seu pai, e naturalmente, dos seus filhos. Desta forma, assume um papel de justiceira que cabe aos deuses, e desta forma também, assume o controlo sobre a vida dos que a rodeiam.
A traição de que é vítima surge num momento em que Medeia está sujeita ao poder masculino. Neste estado de coisas, pouco ou nada poderia fazer; porém, tem armas que mais nenhuma mulher possui. Para as usar, tem de revelar as suas potencialidades divinas, transgredindo inevitavelmente, fronteiras. E assim, como uma estrela que se perdera da constelação, Medeia por fim encontra-se, provando “…her complete alignment with the world of foreign, the abnormal…” (Johnston, 1997:8-9).
Quando Hélios lhe proporciona a fantástica fuga, cena da tragédia que a coloca num outro mundo, adivinha-se que Medeia não vai ser punida, sorte à qual provavelmente não escaparia um mortal. E assim é a sua história de vida. Para Fritz Graf (1997:22), a feiticeira viveu entre fugas e impunidades, como demonstra a revisitação proposta pelo autor: Medeia conhece Jasão que chega com os Argonautas, favorece-o na obtenção do velo de ouro, mata o seu irmão, tem de fugir; ajuda Jasão a vingar-se do rei Pélias, convencendo as filhas, com a sua forte argumentação, de que se cortassem o rei e o cozinhassem, este rejuvenesceria. O rei morre, Medeia tem de fugir; Em Corinto, Medeia vinga-se e tem de fugir; em Atenas, já com Egeu, quase é sucedida na tentativa de lhe matar o filho, tem de fugir (Graf, 1997:22). Paradoxalmente, em nenhuma ocasião é ela caça, castigada ou punida pelos crimes. Nunca. Pelo contrário, descansará no paraíso de Elysion, na companhia de Aquiles.
Quando Emma Griffiths (2006:7-9) apresenta a sua análise quanto à impunidade de Medeia, de resto, bem próxima da de Fritz Graf, conclui que esta mulher é uma lição de como sobreviver no caos, que neste caso lhe lançaram. Desta forma, faz a pergunta que parece natural, após a última cena: Medeia foi alguma vez uma mortal indefesa? Como é possível uma mortal carregar tanta inteligência e conhecimento, ao mesmo tempo que apresenta uma impressionante resistência à dor, apresentada sob a forma de sofrimento? Para a audiência grega, uma mulher com inteligência excessiva não só era defeito como “unnatural” (Griffiths, 2006:44). Essa mesma inteligência guia-a para lá da mortalidade,
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precisamente até ao fim da peça, quando surge na mechane, mecanismo usado para trazer os deuses ao palco. E assim, ou Medeia é divina e vinga-se num mundo humano, ou é mortal, e por vezes os crimes mortais não têm paga.
Medeia é poderosa porque não é consensual, do mesmo modo que a sua análise está longe de ser pacífica. É ela mesma que admite o facto de as mulheres serem implacáveis em caso de amor (Eurípides, 1992:24), e assim sendo, mesmo com este pré-aviso, por que motivo falha a peça quando apresentada? Talvez, como adianta Emma Griffiths (2006: 82), a audiência não estivesse pronta para assimilar mulher tão poderosa, que poderá ter sido vista, sob uma perspectiva colonial, como uma bárbara não-civilizada. Porventura, a morte das crianças pela mão da mãe tenha sido demasiado crua; ou ainda, poderá não ter agradado a prestação de Egeu, rei de Atenas, que acolhe de forma insensata uma mulher que desrespeita os valores atenienses, e que, ao fazê-lo, torna o povo ateniense cúmplice de infanticídio.
Eurípides estava sozinho na amplitude do seu conhecimento de Medeia, e tratá-la em peça acarretava riscos. Felizmente tentou.
We have not been able to pin her down, and perhaps that is the lesson her story is trying to teach us…Medea can be mortal and divine, male and female, a positive image of female power and a warning about the dangers of female passion. Instead of finding Medea puzzling as she evades our attempts to categorise her, we should perhaps be realising that every one of us is as much a perplexing composite as is Medea. We all play different roles and relate to the world in a range of different ways…In facing the complexities of Medea’s identity we face the complexities of our own (Griffith, 2006:119).
Esta primeira parte pretendeu demonstrar como a época de eros termina na casa de Jasão por seu próprio gesto. Na verdade, ao escolher outro leito, Jasão aniquila o que de mais belo possuía, ou seja, a paixão eterna e profuda de Medeia. As especificidades de Medeia foram explicadas, como o seu carácter, génio, saberes mágicos, orgulho, as palavras pensadas e o seu forte sentido de honra. De Medeia só era possível esperar uma terrível vingança. Ao caos, ela reagiu com mais caos que cumpriu e perpetuou. Quando, abandonada, é condenada ao exílio, ardilosamente tece a morte de duas pessoas. E dos seus filhos. Este acto tão bárbaro destrói-a por dentro, porém é a melhor forma de se
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vingar. Caos aos caos. O seu requinte de malvadez vai ao ponto de deixar Jasão vivo. Para que visse e sentisse a perpetuação do caos que se atreveu a lançar.