Os relatos sobre máfia desempenharam um papel tão importante no cinema que já se faziam presentes nas produções fílmicas antes mesmo de elas estarem classificadas dentro do gênero gângster, nos anos 1930. The black hand, filme de 11 minutos, aborda os crimes praticados pela Mão Negra23, primeira organização criminosa formada por famílias de italianos que deixaram a Sicília em busca de uma nova vida nos Estados Unidos. O nome fazia referência à “assinatura” usada nas cartas de extorsão e ameaças: a impressão digital de uma mão com tinta preta.
No filme, o diretor opta pela assinatura convencional no bilhete que dois criminosos entregam a um açougueiro. “Cuidado! Nós estamos „desperados‟!24 Senhor Angelo,
precisamos de $ 1.000,00. Entregue para nós ou pegaremos sua filha.” O açougueiro mostra a carta à esposa e eles entram em pânico com a ameaça. Dias mais tarde, Maria é sequestrada em meio ao movimento da Sétima Avenida, em Nova York. No cativeiro, os homens bebem e jogam enquanto a menina tenta escapar, sem êxito. Enquanto isso, Angelo recebe a visita de dois policiais, e combinam uma forma de render os bandidos. O plano ocorre conforme o planejado, com a invasão ao cativeiro e o resgate de Maria.
23 Mano Nera, em italiano, ou Black Hand, em inglês.
Embora seja um curta-metragem25, o filme da Mutoscope & Biograph figura como uma das principais produções26 sobre máfia por dois fatores: o pioneirismo em apresentar, na ficção, fatos verídicos recém-ocorridos nos Estados Unidos e a realização da filmagem nas ruas de Nova York – as mesmas em que se passou o crime real (LANGMAN, 1998). Grieveson (2005, p. 14) destaca que o próprio título proclama, desde o início, que o filme era “uma história verdadeira de uma ocorrência recente no bairro italiano de Nova York”. Além disso, o boletim que anunciava a estreia do filme reforçava que todos os ambientes eram típicos da ocorrência real (GRIEVESON, 2005).
As câmeras, posicionadas na Sétima Avenida de Nova York, gravaram a abertura da película mostrando o movimento dos transeuntes, como que por acaso, deixando o espectador sujeito, por um período substancial, apenas ao vaivém de pessoas na rua:
The black hand lida com a sequência do sequestro como um evento registrado, como que por acaso, por uma câmera posicionada semiclandestinamente em uma rua coberta de neve da movimentada Nova York. A primeira parte da sequência, aparentemente filmada na Sétima Avenida, permite ao público ficar no quadro da imagem por um período substancial de tempo antes de ocorrer uma ação típica de noticiários, especialmente aqueles de gravação „vistas‟ de espaços urbanos, tais como estações ferroviárias ou ruas comerciais27 (MAGGITTI, 2011, s.p., tradução
nossa).
A movimentação de personagens na cena em que há uma onda de transeuntes anônimos, completa Maggitti (2011), capacita os espectadores a escolher onde focar sua atenção. Conforme o autor, o uso de locais autênticos interrompe o fluxo da narrativa de uma forma bastante imprevisível, mudando a partir da clara teatralidade das cenas do estúdio para o realismo documental das cenas externas. “The black hand cria, involuntariamente, um contraste entre os diferentes conjuntos e fornece um exemplo único da coexistência narrativa do documentário e ficção na aurora da história do cinema”28 (MAGGITTI, 2011, s.p, tradução
nossa). Essa mudança visual é claramente perceptível, conforme aponta Maggitti (2011), pela evidente reação de espectadores à presença da câmera (Ilustração 1).
25 De acordo com Bondanella (2004), The black hand é considerado historicamente importante o suficiente para
ser um dos filmes mudos recentemente restaurados pela Biblioteca do Congresso.
26 Cópias do filme compõem o acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e do Museu de Arte
Moderna do país, em Nova York. Em 2007, integrou a antologia Treasures III, de curtas mudos que retratavam questões sociais nos filmes norte-americanos entre 1900-1934.
27 Texto original: “The black hand handles the abduction sequence as an event recorded, as if by chance, by a
camera positioned semi-surreptitiously in a bustling snow-clad New York street. The first part of the sequence, apparently shot on Seventh Avenue, allows the audience to linger on the frame for a substantial length of time before any action takes place in a manner typical of newsreels, especially those recording „vistas‟ of urban spaces, such as railway stations or commercial streets”.
28 Texto original: “Thus The black hand unintentionally creates a contrast between the different sets and provides
Segundo Grieveson (2005), as tomadas foram fielmente gravadas como ocorria em cenas típicas de noticiários, especialmente aquelas sobre cenários urbanos, como estações ferroviárias ou ruas comerciais. Essa confluência de características, mesclando o realismo documental e o mise-en-scène ficcional, definiu um “docudrama sobre crime” (MAGGITTI, 2011). O núcleo do filme é a sequência de sequestro, que começa a ser revelado junto ao cenário urbano, quando um dos sequestradores entra em cena. Os recursos técnicos utilizados foram considerados uma inovação para a época, uma vez que o cinema dava os primeiros passos. “O que se segue é um uso muito sofisticado de uma câmera fixa para enquadrar uma série de detalhes narrativos importantes, como as pessoas entrando e saindo do olho da câmera”29 (BONDANELLA, 2004, p. 177).
Ilustração 1 - Gravação de cenas nas ruas de Nova York interrompe o fluxo da narrativa em The black hand (1906)
Entre as novidades, Serra (2009) aponta a divisão em seis episódios, compostos por muitas cenas, em poucos minutos de duração, o que era uma novidade técnica, e a utilização de um dos primeiros planos com enquadramento fechado, mostrando apenas parte do objeto.30
29 De acordo com o Film Glossary da Rice University (Houston, EUA), a expressão camera’s eye, no cinema,
refere-se à capacidade de comunicação tão detalhada e independente como uma fotografia. Disponível em: <http://www.owlnet.rice.edu/~engl377/film.html>. Acesso em: 16 jan. 2016.
Para o autor, o fato teve um forte efeito, pois, além de evitar o uso de título para explicar o conteúdo da carta do sequestro, acrescentou um realismo à narração.
A obra de McCutchen explora ainda o potencial do filme como instrumento pedagógico. Em outras palavras, conforme discorre Maggitti (2011), os filmes não visam apenas ao entretenimento, mas também buscam instruir audiências. Bertellini (2004) aprofunda o conceito ao afirmar que a produção em massa de filmes de ficção entre 1905 e 1906 não só tornou a máfia mais popular nos Estados Unidos como também forjou dois tipos de italianos: os bons imigrantes e os criminosos.
Luconi (2010) sustenta que a cultura de massa ajudou a difundir e fortalecer as representações de imigrantes italianos de temperamento violento prontos a recorrer a uma faca para resolver qualquer problema:
Com o lançamento do filme de Wallace McCutcheon, The black hand, em 1906, o cinema também começou a fazer sua própria contribuição para a suposta identidade entre o submundo e os recém-chegados da Itália. O filme, sobre uma organização de bandidos ítalo-americanos dedicados ao sequestro, teve um forte eco, especialmente por sua pretensão de ser inspirado por uma história verdadeira31 (LUCONI, 2010, p. 8, tradução nossa).
O argumento de Luconi encontra respaldo em Jameson (1995). O pensador norte- americano ressalta que as obras da cultura de massa também estão carregadas de contradições de uma época.