A pesquisa iniciou-se com o levantamento e a revisão bibliográfica acerca da temática e da área escolhida, no caso, o bairro Preguiça, o que possibilitou uma melhor definição dos objetivos e dos procedimentos metodológicos a serem adotados na mesma. Esses procedimentos e objetivos foram fundamentados principalmente nos estudos de Whyte (1977), Pompílio (1990), Xavier (1996), Souza (2006), Zanella (2006) e Souza e Zanella (2009). Paralelamente fez-se o levantamento cartográfico da área, coletando-se imagens de satélite, arquivos vetoriais e mapas, no intuito de realizar sua caracterização geográfica.
Baseando-se principalmente em Whyte (1977) , que propõe que os trabalhos sobre percepção sejam realizados sobretudo a partir de três ações (observando, ouvindo e perguntando), partiu-se para a área, no intuito de observar, ouvir e perguntar, fazendo-se registros fotográficos e anotações sobre informações relevantes para posterior elaboração do questionário, bem como para melhor definição da pesquisa como um todo. Um dos campos realizados deu-se com o auxílio do então coordenador da Defesa Civil em Maranguape, que transmitiu informações sobre a problemática ali presente.
Dando prosseguimento, novas bibliografias foram lidas. Concomitantemente, produziu-se o referencial teórico da pesquisa, fez-se a caracterização da área estudada, a partir da bibliografia estudada e de informações e dados coletados em campo, e foram elaborados os mapas, utilizando-se de técnicas de geoprocessamento.
Considerando a necessidade e a utilização de questionários ou entrevistas na coleta de informações necessárias à discussão da percepção de indivíduos expostos a riscos ambientais, procedeu-se a elaboração de um questionário piloto. Visando possibilitar a discussão dos diferentes aspectos relacionados à percepção dos riscos de inundações no bairro Preguiça, as perguntas do questionário foram elaboradas em torno de variáveis, de itens abordados em estudos que nortearam o
desenvolvimento dessa pesquisa, entre eles, os de Whyte (1977 e 1985), Pompílio (1990), Burton, Kates e White (1993), Souza (2006) e Souza e Zanella (2009). As referidas variáveis são: condicionantes/deflagradores, causalidade e responsabilidade; limiar de segurança; avaliação e escolha; ajustamentos e outras reações frente aos riscos. Além dessas variáveis muito utilizadas nos estudos de percepção de riscos, o questionário contém questões que contemplam uma outra, que é referente às experiências, aos conhecimentos que os moradores apresentam sobre a ocorrência de inundações, definida aqui como “experiências e conhecimentos relacionados à ocorrência de acidentes e/ou a situações de alerta”. A mesma apresenta semelhanças com o item “memória”, abordado por Pompílio (1990). A elaboração do questionário também se deu com base na realidade local.
Objetivando identificar a necessidade de alterações, aplicou-se o questionário a dez moradores (5 homens e 5 mulheres) do bairro Guabiraba, escolhido por localizar-se próximo ao bairro Preguiça e também por apresentar características semelhantes às dele, como a presença de pessoas convivendo com riscos de inundações e as condições socioeconômicas dos moradores de forma geral. A aplicação desses dez questionários deu-se nos dias 2 e 3 de junho de 2014, pela própria autora da pesquisa, acompanhada por uma agente de saúde do bairro.
Verificou-se então, que deveriam ser feitas algumas alterações na linguagem, nas alternativas e na sequência das perguntas. Além disso, foram acrescentadas novas questões. Desse modo, a versão final do questionário ficou pronta, compondo-se de duas partes. A primeira, solicitando dados pessoais dos pesquisados, a saber: nome, sexo, idade, escolaridade, renda familiar e tempo de moradia no bairro. A segunda, constituída por 41 perguntas, algumas com alternativas, outras abertas, todas elas tratando de aspectos relacionados à percepção dos riscos em questão.
A aplicação dos questionários no bairro Preguiça foi realizada pela autora da pesquisa, na maioria das vezes acompanhada por uma moradora do bairro, nos dias 6,8,9, 10,11,12,13 e 15 de setembro de 2014, quase sempre no horário de 16 às 18 horas, por ser esse o período disponibilizado pela moradora e ainda por ser um horário em que muitas pessoas já estão chegando do trabalho. Somente no dia 8, a aplicação se deu das 8 às 11 horas da manhã, pois a acompanhante voluntária estava de folga em virtude de um feriado municipal. Cada aplicação durou de 20 a 30 minutos. Antes de iniciar cada uma delas, buscou-se explicar, de forma bastante
sucinta, os objetivos da pesquisa e falar sobre a importância da mesma. Esse procedimento, aliado ao fato de estar sempre acompanhada por uma moradora do bairro, foi importante para que os indivíduos abordados para responder as questões, mostrassem boa vontade em responder as perguntas e tecer comentários relevantes.
Os questionários foram aplicados em indivíduos das ruas São Vicente de Paulo, Francisco Paulo Dias e José Valdir Barbosa. Escolheu-se essas três ruas, por ser nelas que se encontra maior vulnerabilidade às inundações e ainda ao rompimento de barreiras de açudes. No intuito de compreender e até mesmo comparar a percepção das pessoas partindo da experiência e da memória que elas apresentam acerca dos danos de inundações ocorridas, além de outros fatores, optou-se por questionar 25 indivíduos da rua São Vicente de Paulo, por ser ela a mais afetada na inundação mais recente, no caso a ocorrida em 2009. Os outros 25 residem nas outras duas ruas citadas, não atingidas em 2009, porém afetadas em uma grande inundação ocorrida em 1988. De cada casa visitada, somente um indivíduo foi submetido ao questionário.
Em cada rua, a seleção dos indivíduos que responderam ao questionário, deu-se de forma aleatória, pois nos estudos sobre percepção de riscos não se costuma definir critérios para a escolha do grupo a ser pesquisado, a não ser o de que as pessoas desse grupo vivam em algum momento, expostas a determinado(s) tipo(s) de risco, seja na moradia, no trabalho ou em outro local que frequenta. Não há necessidade de estabelecer outros critérios, pois a percepção de diferentes seres humanos não pode ser entendida com base em um único aspecto, pois ela é resultado de diversos fatores, tais como, idade, sexo, escolaridade, experiências, entre outros, sendo uns mais relevantes que os outros. Em um dado indivíduo sua percepção pode ser influenciada principalmente por um fator x, enquanto em outro, esse mesmo fator não exerceu/exerce influência.
A seleção aleatória leva a um grupo cujas informações coletadas, as percepções podem ser discutidas a partir de diferentes aspectos. Esse fato não compromete os resultados desse tipo de pesquisa, pois essas informações têm caráter qualitativo, conforme ressalta Souza (2006, p. 99): “As investigações no campo da percepção dos riscos baseiam-se em aspectos extremamente individuais, isto é, todo o conjunto de informações apresenta caráter qualitativo.”
Tendo os 50 questionários já respondidos, partiu-se para a organização dos dados, dispondo grande parte deles em tabelas. Realizou-se então, a interpretação e discussão dos mesmos.
Com base nos resultados, considerando-se as especificidades, os problemas verificados, partiu-se para a discussão de propostas para a redução dos riscos de inundações e prevenção de acidentes vinculados a estes.
Finalmente, produziram-se as considerações finais e fez-se a revisão geral da pesquisa, fazendo-se os ajustes necessários.