1-Karmem- Hoje mesmo eu tive uma experiência assim: eu estava lanchando, aí tinha dois professores na orientação e na avaliação. Aí um aluno estava atrás de mim. Aí a minha colega disse assim: ‘ela foi escovar os dentes’[sorri]. Aí a aluna tava sentada com uma cara assim amarrada, mas muito amarrada. Aí quando eu saí, eu disse assim: ‘você já passou na orientação?’ Ela disse: ‘Não. Ele disse que não precisava, que eu podia ir direto’. Eu disse: ‘pois vamos lá comigo’. Aí eu fui lá, e disse assim: ‘eu queria lhe apresentar o professor Germano. Você conhecia o professor Germano?’ Ela disse: ‘Não. Ele não tava aqui quando eu vim’. ‘Que horas que você veio?’ ‘Eu vim depois das cinco’ ‘Pois o Germano está sentado aqui desde cinco horas’. ‘Você precisa nos conhecer. Eu sou a professora Karmem. Ele é o professor Germano. Você conversa um pouquinho com ele que estou na sala de avaliação’. Quando ela chegou na sala de avaliação, ela não estava mais com a mesma cara, amarrada, sabe! Ela disse assim pra mim: ‘professora, eu vou dizer uma coisa, eu acho lindo quem é esquerda, a senhora é esquerda’. Eu disse: ‘É. Isso aqui é uma herança de família’ Foi uma forma que ela teve, pra eu desmanchar aquela primeira impressão. Aí enquanto eu preenchia a ficha dela, eu
fui com ela, dizendo assim: ‘olha, eu sofri tanto, porque eu sou esquerda, porque o meu pai combateu sempre que ele pôde. Ele combateu pra que eu não fosse esquerda, mas mesmo assim ainda continuo escrevendo, (...) só enquanto eu preenchia a ficha, eu entreguei a prova dela, e ela fez a prova. Ela se saiu bem na prova, e quando ela foi embora, ela disse: ‘muito obrigada, professora’. E foi embora. E o que foi que eu fiz? Eu não fiz nada. [...] Então, será que essa minha construção serviu pra alguma coisa? Mas o que foi? Para que foi que serviu? Porque você não vai ter tempo. Talvez ela não volte mais no meu horário. Ela disse que nem me conhecia. [...] Eu coloquei essa grande interrogação. Eu acredito que tudo na educação é uma grande interrogação.
2-Graça- Então nós temos uma organização, um regimento, e a gente vai colocar tudo isso pra eles [alunos], que a sociedade precisa dessas normas, e que a gente tem que se submeter, porque a gente vive em sociedade, e tem que ser organizado e tal. Isso é uma aula de civismo e de cidadania.
3-Auxiliadora Coelho - E assim a nossa recompensa do dia a dia é quando algum aluno chega pra gente, como o exemplo que eu tive um, que eu gostaria de ler pra vocês. Ela disse que ia embora e não tava me encontrando. Aí eu estava na avaliação. Aí ela olhou pra mim: ‘professora, eu queria falar com a senhora’. Eu disse; ‘pois não. Vai fazer prova? Me dê sua ficha?’. Ela disse: ‘Não. A senhora lembra a última vez que nós nos encontramos? O que foi que a senhora me disse?’ Aí eu disse: ‘me desculpe, mas a gente conversa todo dia, com tanto aluno’. Aí ela disse: ‘Não. Leia meu cartãozinho’. Aí ela (ham) colocou: ‘professora Auxiliadora, parabéns pelo seu dia, obrigada por ter me incentivado a fazer a prova num dia em que eu estava tão insegura. Eu fiz e tirei nove e meio, que Deus a abençoe sempre’. Aí eu achei tão bacana. Eu disse: ‘olha, sinceramente eu não lembrava, mas você contando a história, agora eu lembro’.
4-Silvana- [....] tem momentos [nos atendimentos] assim que nos agradam muito, a gente fica é agradecida por isso, como um aluno que esteve aqui hoje. [...] Ele falou da vida dele, falou da esposa dele, falou (riso), quer dizer, ele falou muito dele, falou daqui, que ele consegue estudar. [...] E no fim, aí ele começou a falar das paqueras dele aí fora, eu comecei ‘nossa, lá vem’. Então, no fim, ele sutilmente (sorri) E a senhora? Eu disse assim: ‘não, fulano, é o seguinte: você pode vir aqui, a gente pode conversar, conversar sobre tudo, sobre arte’,[...]. Eu disse assim: ‘você pode conversar sobre o que você quiser, agora sobre a minha vida particular, ah, isso aí eu num falo não’. Aí ele ficou tão sem graça, e assim: ‘não, nem se preocupe’. Ele disse assim: ‘desculpa, professora, desculpa’. Eu disse assim: ‘não, não se preocupe que eu não estou chateada
não’, porque eu corto logo. ‘Num é isso, a minha função aqui num é essa, e você num veio pra cá pra isso.’ Então, a gente vai conversar sempre que você quiser, essa porta ta aberta, agora’. Aí estimulei, disse que ele era muito inteligente e tal. Aí o que ele disse, isso ficou na minha cabeça, que aqui ele chega aqui [na sala de artes], ele tem um diferencial. Por que ele se abriu muito comigo? Porque eu sou uma pessoa muito alegre, ele notou quando eu cheguei triste hoje. O que eu tinha? Certo, porque aqui poucas pessoas ele vê com esse sorriso, sabe, o tempo todo nos lábios na boca. Ele disse que eu era uma. Então eu agradeci, que às vezes eu estou até meia triste, a Karmem, ele disse que..., aí ele num sabia o nome, aí teve que dizer todas as características da Karmem. [...] e outras que ele falou também, quer dizer, ele falou de três pessoas, e eu acho que aqui é um mundo de professores [...] Eu disse ‘não, é porque você não vem aqui todo o tempo, todos os, como é se diz? Os turnos. Você num conhece todo mundo’. Ele disse: ‘não, mas eu percebo muito bem pelas pessoas quando elas são abertas e quando elas são fechadas.’ Então, eu deixei isso aqui tudo muito aberto, as bolas são abertas, as cabeças são abertas, as pessoas são abertas, num sei como é que eu vou fechá-las, ainda estou em processo de ...
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