Não existe, no filme, terra prometida ou herói, sonhos, crenças ou valores comuns. Não existe solidariedade – esta se traveste de caridade cínica. Não há espaço territorial de mudança, nem sujeitos históricos portadores de potência transformadora. Não há alegoria da identidade nacional ou, melhor dizendo, a representação do nacional é a barbárie. Cronicamente Inviável, portanto, constrói uma representação da identidade nacional de modo invertido. O que nos une é a vontade da destruição.
O que seria a identidade nacional brasileira? Ela tem sido apresentada segundo diversas idealizações e diferentes momentos históricos, expressando ou escondendo as contradições do próprio projeto da modernidade nacional, atualizado como capitalismo global. Este projeto oscila entre o pensamento único e a homogeneização, de um lado, e o respeito à diversidade cultural, de outro. O nivelamento pode ser tanto uma tentativa de construção de uma unidade – aquilo com o qual nos identificamos e que se mantêm acima de toda a pluralidade e diversidade cultural brasileira – quanto a tentativa de anular as lutas e tensões que afloram da pluralidade cultural.
O sistema de representações da identidade pressupõe uma carga valorativa e afetiva atribuída às coisas representadas. É uma construção coletiva que expressa realidades ou sonhos também coletivos, cuja função não é outra que ligar seus membros em torno de interesses comuns. Tradicionalmente, a construção das identidades grupais se faz por meio de representações que tentam subtrair as diferenças e reforçar as semelhanças como modo de manter a ordem e a coesão sociais. Trata-se de um processo simbólico e arbitrário, que se realiza nas redes e lutas de poder, e nem sempre se expressam de modo visível, isto é, podem ser co-extensivos à coisa representada (FOUCAULT: 1995).
Os debates sobre a identidade nacional tendem anular as diferenças étnicas e culturais por meio do discurso da miscigenação social. A divulgação da unidade nacional e da harmonia racial, a exemplo da representação do debate acima ilustrado. Os discursos de construção das identidades atravessam as distinções de classe, gênero ou etnia para representá-los de modo totalizante. Não importa, também, se o processo de unificação do grupo tenha ocorrido por meio de conquistas violentas e supressão forçada das diferenças culturais, pois mais que a unificação o que importa é a constituição de um discurso unificador com estatuto de verdade, onde as diferenças internas são unificadas por meio do exercício de diferentes formas de poder cultural.
Em Cronicamente Inviável não existe visão unificada de um Brasil autêntico ou de uma identidade verdadeira. Diferentes realidades coexistem, interpenetram-se e chocam-se.
Debate na TV entre um índio e um intelectual. O primeiro tenta falar da especificidade de sua cultura e da dominação branca
enquanto o segundo repete, com arrogância, o mito da democracia racial.
Conforme a perspectiva do filme, o que une os brasileiros é a visão unificada do fracasso, a destruição generalizada como parte da natureza humana, como se refere Gustavo Steinberg nos seguintes fragmentos:
Sem dúvida, nesse clipe gótico de destruição estávamos generalizando para a espécie, dentro de circunstâncias específicas de uma sociedade que tenta faturar acima dessas características particulares. Nesse ponto
ai eu e o Sérgio concordamos totalmente. E u identifico como genealogia de todos esses discursos circunstanciais brasilidade, dificuldades econômicas a destruição. ( ) No filme, como roteirista, eu quis me opor a certas questões que hoje não são questionadas. Hoje a liberdade de consumo é a única que interessa, a igualdade já foi e coligado com isso o lucro é a única justificativa da existência. Consumo visando o lucro e vice-versa. E por trás a destruição de tudo (SINOPSE : 2001, p.37- 38).
A falta de comprometimento com os valores humanos, assim como a ausência de um projeto de justiça social levaram Bianchi e Steinberg a marcarem suas posições contra a alienação e o ethos da sociedade do mercado, segundo a qual tudo gira em torno do consumo e do lucro. O filme apresenta, de modo contundente, a idéia nefasta de que no Brasil todos os problemas são lucrativos e que há sempre alguém disposto a tirar proveito da desgraça alheia, a exemplo do comercio de órgãos de bebês.
Cronicamente Inviávelfoi avaliado pela revista Sinopse, como o melhor filme
nacional da década (até 2001). Dentre as suas qualidades estão:
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Apresenta uma visão pessimista e negativa compartilhada por grande parte da população.•
Entende que a crítica do Brasil hoje cai na coexistência do horror e do cômico, do riso com o espanto, dada a ausência de um projeto coletivo.•
Enfatiza a destruição do meio ambiente e o extermínio da população.•
Apresenta um panorama totalizador percorrendo diversasregiões do país e seus vários projetos: a dominação baiana pela felicidade; o projeto sulista da dominação pelo trabalho; a destruição da Amazônia e o extermínio indígena; e a exploração e violência do Rio de Janeiro e São Paulo.
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O deslocamento do sertão como cenário simbólico para a Amazônia, São Paulo e Rio de Janeiro, lugares onde o capitalismo contemporâneo mostra a sua pior face.•
Mostra que a prostituição e o arrivismo diante dos poucos caminhos para a ascensão social numa sociedade de grandes desigualdades sociais.•
Recupera o caráter provocador e questionador do cinema.•
Tem a coragem de fazer um retrato do presente do paísescapando do medo, como é comum no cinema contemporâneo.
A cena final, antológica, carregada de agressiva resignação e alienação, mata todas as fáceis esperanças e as possibilidades de redenção: "Filho, seja pobre, mas
honesto".
Em síntese, Cronicamente Inviável apresenta a guerra social que atravessa o Brasil de norte a sul, leste a oeste. Apesar das diferentes realidades encontradas em cada lugar, o território brasileiro tem em comum a paisagem da destruição, a dominação das elites, a pobreza e a humilhação dos degredados sociais. Todos os personagens tentam “faturar” com os problemas existentes, seja o casal da elite, o proprietário do restaurante, o garçom, o intelectual. Toda a crueza das
micro-realidades cotidianas é representada de modo incômodo, chocante, sem cair em tom melodramático. Desperta indignação, não lágrimas.
Outro aspecto relevante do filme de Bianchi é o fato de ele explicitar seu ponto de vista, afastando-se das narrativas tradicionais. Em alguns momentos sua voz intervém para apresentar ao espectador duas versões de uma mesma cena, incitando sua participação ativa, sua indignação. Alem disso, utiliza alguns recursos para quebrar com a fruição do espectador e puxa-lo à realidade, de modo a não permitir que ele se exima de sua parcela de responsabilidade e omissão. Produzido com recursos levantados pela lei de incentivo ao audiovisual, portanto no âmbito da indústria cultural, Cronicamente Inviável não abre concessões conciliatórias, nem se dobra ao domínio da indústria do entretenimento. Nos incita a reflexão.