A dupla negativa considerada nesta pesquisa foi uma construção específica do
tipo “(sujeito) + não + verbo + (objeto) + não” como, por exemplo, “Eu não vi, não” ou “Não tem problema, não”. A escolha dessa estrutura para investigação partiu
principalmente das considerações que o próprio Paulo Henriques Britto faz, em seu livro A Tradução Literária, ao discutir aspectos pertinentes à reprodução do que ele chamou de marcas de oralidade. De acordo com Britto, quando a partícula negativa
“não” ocupa uma posição anteposta ao verbo, o acento tende a recair no próprio verbo.
Na modalidade oral da língua, a negativa pode ser então enfatizada acrescentando-se outra partícula negativa em posição final (BRITTO, 2012, p. 103). Essa estrutura seria uma estratégia de negação sentencial bastante frequente no português. A sua utilização pode ser, inclusive, dividida em negação pré-verbal (“Eu não quero”), dupla negação
(“Eu não quero não”) e negação final (“Quero não”).
A Tabela 9, a seguir, apresenta a frequência de ocorrência da dupla negativa para ênfase no CTTB e no CTOB, normalizada por trechos de 1.000 sentenças.
Tabela 9: Frequência de ocorrência da dupla negativa para ênfase no CTTB e no CTOB
Texto Frequência
normalizada
CTTB 5,78
Os dados da Tabela 9 indicam que Britto faz uso da dupla negativa para ênfase com maior frequência nos seus textos não traduzidos que nos seus TTs. A frequência de ocorrência identificada no CTTB foi de 5,78 enquanto que no CTOB foi de 10,53.
A Tabela 10 apresenta a frequência de ocorrência da dupla negativa nos TTs e no corpus de consulta do ESTRA, normalizada considerando trechos de 1.000 sentenças. A consulta ao COMPARA foi excluída dessa instância de investigação pois, como a fórmula para a busca de coocorrência de pelo menos duas partículas negativas não é muito específica, o volume de resultados foi expressivo. Dessa forma, por questões de direitos autorais, o COMPARA não permitiu acesso a todas as ocorrências, impossibilitando a eliminação de falsos positivos.
Tabela 10: Frequência de ocorrência de dupla negativa por TT do CTTB e no ESTRA Texto Frequência normalizada GC_Britto 8,04 IM_Britto 4,33 LL_Britto 4,53 ESTRA 1,67
O Gráfico 5, a seguir, ilustra os dados das Tabelas 9 e 10 a fim de facilitar a sua visualização e a comparação entre eles.
Gráfico 5: Comparação das frequências de ocorrência de dupla negativa
Britto emprega a dupla negativa no CTTB (5,78) com frequência consideravelmente maior que o registrado no corpus de consulta do ESTRA (1,67). Esses dados parecem indicar que Britto tem preferência por essa estrutura, já que a frequência registrada no CTTB é bastante superior à frequência esperada na língua, de acordo com o corpus de consulta. Quando os TTs são considerados separadamente, pode-se perceber que apresentam comportamentos um pouco distintos. IM_Britto (4,33) e LL_Britto (4,53) apresentaram frequências de ocorrência próximas, enquanto que GC_Britto (8,04) apresentou frequência superior ao que foi registrado nos outros dois TTs. Ademais, todos os TTs registraram frequências de ocorrência superiores ao que foi registrado no ESTRA. Esses resultados reforçam algumas tendências de Britto identificadas anteriormente. Ele demonstra preferência por determinada estrutura; neste caso, a dupla negativa, apresenta padrões de escolhas distintos para seus TTs e seus textos não traduzidos, faz escolhas independentes do TF e com foco na fluência dos TTs e parece enfrentar dificuldade para adaptar seu estilo pessoal aos estilos dos TFs.
0 2 4 6 8 10 12
GC_Britto IM_Britto LL_Britto Corpus ESTRA
O Quadro 21 apresenta exemplos da dupla negativa para ênfase alinhados e retirados do CP.
Quadro 21: Exemplos de ocorrências de dupla negativa para ênfase
TT TF
(1)
"VOCÊ NÃO CONSEGUE ficar de boca fechada, hein?", disse Itzie. "Por que é que você tem que abrir a boca o
tempo todo?"
Não fui eu que puxei o assunto, não, Itz, [...]
“YOU‟RE a real one for opening
your mouth in the first place," Itzie said. "What do you open your mouth
all the time for?" I didn't bring it up, Itz, [...]
(2)
"Bobby, fique de olho no seu irmão para ele não fazer nenhuma bobagem."
"Não estou a fim, não", respondeu Bobby, [...]
"Bobby, make sure that your brother doesn't do anything stupid." "I don't feel like it," Bobby said, [...]
(3)
"Seu mentiroso de merda!", exclamei. Ele se virou o mais rápido de que um
boi é capaz.
"Você não tem que aturar ninguém." [...] Não tem, não, seu metido!
"You goddamn liar!" I said. He spun around as fast as an ox can. "You ain't stuck with nobody." [...]
No you ain't, you snot-ass!
(4)
"Eli, você está aborrecido. Eu compreendo."
Não, você não compreende, não.
"Eli, you're upset. I understand." You don't understand.
(5)
Olhou para sua filha e ouviu a mulher falando, falando.
Não, a Ruthie não comia muito, não.
He looked at his own daughter and heard his wife go on, and on. No, Ruthie wasn't such a good eater.
(6) “O senhor é médico?”
“Não, não sou, não. [...]”
“You're a doctor?” “I am not a doctor. [...]”
Os exemplos do Quadro 21 indicam que o tradutor parece optar pela fluência nos TTs e se utiliza do emprego de marcas de oralidade típicas da língua portuguesa brasileira para fazer isso. Embora os exemplos (3) e (5) apresentem, nos seus respectivos TFs, construções levemente distintas do padrão de negação dos TFs (verbo auxiliar + partícula negativa), isso não afeta a fórmula da construção empregada por Britto nos TTs. Os exemplos (4), (5) e (6) apresentam, nos TTs, três partículas negativas. Esse tipo de ocorrência correspondeu a 9,37% do total de ocorrências verificadas no CTTB.
Britto defende, em especial para o tradutor literário, a importância da utilização de marcas de oralidade típicas do português – sobretudo, na reprodução de diálogos. No caso da dupla negativa, Britto justifica sua escolha ao considerar que a primeira partícula negativa passa despercebida quando ocupa uma posição de atonia e, então, na língua falada, é comum outra partícula negativa ser acrescentada no final, posição em que pode receber o acento primário. Os resultados da análise do cotexto de ocorrência da dupla negativa no CP sugerem que essa construção é empregada em situações diversas e, por vezes, menos óbvias em relação ao uso de formas não canônicas de negação sentencial. Uma observação a ser feita considerando-se os resultados de ocorrência da dupla negativa é o fato de que, embora Britto a classifique como destinada à ênfase e discuta o seu uso principalmente como resposta a perguntas, a fórmula da dupla negativa empregada como resposta a perguntas no CTTB correspondeu a apenas 32,81% do total das ocorrências registradas.
A próxima seção discute os achados referentes à investigação de “é que” e “foi
3.5. Ocorrência de “é que” e “foi que” depois de pronome interrogativo e de