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6 Analyse

6.3 Implementeringsprosessens forløp

6.3.3 Implementeringsprosessen

A professora Melissa trabalha várias disciplinas ligadas à gestão de pessoas nas organizações. O curso em questão é Gestão de Recursos Humanos, grau acadêmico de curso tecnológico. Na turma observada no estudo de caso, a professora ministra uma disciplina24 relacionada aos fundamentos de gestão, de natureza teórica. A seguir são apresentadas as habilidades, conforme Plano de Ensino fornecido pela professora, que a disciplina pretende desenvolver nos alunos (grifos nossos):

• Identificar a contribuição do comportamento humano para o desenvolvimento de uma gestão humanizada e participativa.

Realizar uma apreciação crítica sobre a motivação humana à luz de teorias básicas, sua aplicabilidade e relação com a satisfação no trabalho.

Demonstrar e apontar, criticamente, os aspectos ligados à liderança e os seus reflexos no comportamento do grupo.

• Compreender o funcionamento de grupos e equipes para incentivar posturas de cooperação, sinergia e colaboração.

• Saber identificar processos e canais utilizados na comunicação interpessoal, para garantir posicionamentos.

A despeito da sua natureza teórica, a disciplina propõe uma interação entre professor e alunos para que desenvolvam características pouco tangíveis, como “realizar uma apreciação crítica” sobre um determinado tema ou ainda “demonstrar e apontar criticamente” sobre outros aspectos relativos à disciplina. Diferentemente de um conteúdo teórico da disciplina, o desenvolvimento de habilidades não ocorre sem uma intencionalidade clara e estabelecimento de estratégias para alcançar determinados fins. A professora faz uso de diversos recursos pedagógicos que buscam trazer à tona, no decorrer da disciplina, a apreciação crítica. Para isso envolve os alunos, suas experiências de trabalho e de vida buscando desenvolver essas habilidades. Os recursos pedagógicos que ela inseriu na disciplina buscam promover essa reflexão como forma de aquisição das referidas habilidades.

A disciplina se insere na Formação Gerencial Básica do curso de Gestão de Recursos Humanos e, conforme Plano de Ensino fornecido pela professora tem como “bases

24 A professora Melissa solicitou que não fosse informado o nome da disciplina, qual é o outro campus onde

atua bem como quaisquer outras informações que permitissem sua identificação.

tecnológicas”25 os seguintes conteúdos: Comportamento Humano dentro do processo de globalização nas organizações; Maslow e Aldefer; Características e críticas; Relacionamento interpessoal; Comunicação organizacional; Estratégias para o processo criativo; Percepção; Liderança e tomada de decisão; administração de conflito; Comunicação intra e inter; Feedback e emoções.

A carga horária da disciplina é de 80 horas sendo que no 2º semestre de 2014, pela primeira vez, a confecção do horário de aulas estabeleceu quatro horas/aula seguidas para todas as disciplinas do curso.

O Plano de Ensino contempla também a distribuição de aulas ao longo do semestre e o cronograma que se segue foi também fornecido pela professora. O formulário “CONTEÚDO E CRONOGRAMA (PREVISÃO)” reproduzido no Quadro 6, contém a quantidade cumulativa de horas/aula, a data, o tema e tarefa prevista para cada dia.

QUADRO 6: Conteúdo e cronograma (previsão)

Aula número Dia/Mês Tema Tarefa

01/02 05/08 Simpósio dos professores 03/04 05/08 Simpósio dos professores

05/06 12/08 Apresentação da disciplina e da proposta de trabalho, contrato psicológico.

Dinâmica de grupo para integração da turma 07/08 12/08 Dinâmica de apresentação dos colegas e Expectativas em

relação à disciplina.

09/10 19/08 Capítulo 1 do livro Comportamento Organizacional Teoria do Comportamento Humano

Aula expositiva sobre o tema

11/12 19/08 Capítulo 1 do livro Comportamento Organizacional Teoria do Comportamento Humano – Exercício prático

Aula expositiva sobre o tema

13/14 26/08 Percepção Humana A compreensão do trabalho em equipe Capítulo 5 Comportamento Organizacional

Aula expositiva sobre o tema

15/16 26/08

Percepção Humana A compreensão do trabalho em equipe Capítulo 5 Comportamento Organizacional

Discussão sobre ética - Exercício em sala de aula

Trabalho em grupo - Case para debate

17/18 02/09 Inicio da Teoria da Motivação

Capítulo 6 do livro Comportamento Organizacional

Aula expositiva sobre o tema

19/20 02/09 Teorias da motivação - continuação Exercício de fixação - sobre motivação

Aula expositiva sobre o tema

21/22 16/09 Projeto Aplicado - Orientação dos trabalhos Orientação em grupo 23/24 16/09 Projeto Aplicado - Orientação dos trabalhos Orientação em grupo 25/26 16/09 Prova Final - Apresentação dos grupos - Trabalho Motivação Valor: 8 Pontos 27/28 16/09 Prova Final - Apresentação dos grupos - Trabalho Motivação Valor: 8 pontos 29/30 23/09 Grupos x equipe (Relacionamento Interpessoal)

Capítulo 8 e 9 do livro Comportamento Organizacional Aula expositiva dialogada 31/32 23/09 Continuação (Relacionamento Interpessoal, Grupos e

equipes) - Apresentação dos artigos Trabalho em sala de aula 33/34 30/09 Trabalho do filme - O diabo veste Prada Valor: 4 pontos

25 Ao invés de Ementa, esse curso tecnológico da IES BH, em conformidade com a legislação pertinente, adota a

nomenclatura “Bases Tecnológicas”.

Aula número Dia/Mês Tema Tarefa 35/36 30/09 Discussão sobre o filme em sala

37/38 07/10 Avaliação da disciplina Valor: 30 pontos

39/40 07/10 Dinâmica sobre comunicação Dinâmica em sala de aula

41/42 14/10

Correção da prova e discussão dos pontos

A Comunicação Capítulo 10 do livro Comportamento Organizacional

Aula expositiva dialogada

43/44 14/10 A Comunicação - Técnicas de Feedback

Capítulo 10 do livro Comportamento Organizacional Aula expositiva dialogada 45/46 21/10 Exercício prático de feedback - Janela de Johari Dinâmica em sala de aula 47/48 21/10 Dinâmica sobre negociação

49/50 28/10 Conflito e negociação na organização

Capítulo 14 do livro comportamento organizacional Dinâmica em sala de aula 51/52 28/10 Conflito e negociação na organização

Capítulo 14 do livro comportamento organizacional Aula expositiva dialogada 53/54 04/11 Projeto Aplicado - Aula de orientação aos grupos Orientação em grupo 55/56 04/11 Projeto Aplicado - Aula de orientação aos grupos Orientação em grupo 57/58 11/11 Liderança e Tomada de decisão

Capítulo 11 do livro Comportamento Organizacional Aula expositiva dialogada

59/60 11/11 Liderança e Tomada de decisão Aula expositiva dialogada

61/62 18/11 Pesquisa sobre o tema Cultura e Clima organizacional -

Estudo dirigido Aula dirigida

63/64 18/11 Apresentação e discussão sobre a pesquisa pelos alunos Valor: 2 pontos

65/66 25/11 Avaliação Multidisciplinar Valor: 10 pontos

67/68 25/11 Avaliação Multidisciplinar Valor: 10 pontos

69/70 02/12 Prova Final - Apresentação dos filmes produzidos pelos

alunos sobre os capítulos da matéria Valor: 6 pontos

71/72 02/12 Avaliação da disciplina Valor: 20 pontos

73/74 09/12 Devolução das provas e verificação das notas 75/76 09/12 Dinâmica de encerramento da disciplina

77/78 16/12 Prova alternativa Valor 30 pontos

79/80 16/12 Devolutiva da Prova Alternativa

Na metodologia das aulas, que foi definida pela professora, estão previstas aulas expositivas e a utilização de outros materiais também preparados por ela, como estudos de caso, estudos de textos, apresentações de seminários, utilização de vídeos e filmes.

Optou-se por hachurar o período de observação (12/08 a 14/10/2014) para melhor visualização deste em relação ao tempo total de duração da disciplina. A última aula em que se fez acompanhamento in loco foi quando a professora entregou a correção das provas do bimestre, encerrando ali a primeira etapa do semestre.

A turma em questão é heterogênea composta de alunos calouros e também veteranos, uma vez que o curso tem uma perspectiva de modularização. Na prática isso significa que o aluno vai entrando em turmas que não necessariamente se dividem em períodos, mas em módulos. Dessa forma pode iniciar o curso entrando no segundo período, mesmo sendo o primeiro semestre dele na escola. É um expediente da IES Alfa para preencher o número total de vagas de uma turma, antes que outra seja aberta. Internamente esse procedimento é chamado de “ensalamento”, consistindo em alocar os alunos em salas e depois definir o

módulo que será cursado. Ao instituir essa norma antecedente para o preenchimento das turmas, a IES que corresponde ao nível intermediário da circulação, dá vez ao polo mercantil, pautado em valores mensuráveis, que no presente caso, se refletem no incremento do número de alunos pagantes em salas de aula e na possível diminuição dos custos fixos. O critério presente nessa norma antecedente é a gestão dos custos que inclui itens relativos à infraestrutura, número de salas, os andares que serão utilizados, elevadores, entre outros. Também considera o dimensionamento do número de funcionários de apoio e administrativos, o quadro de professores e seu respectivo pagamento.

A professora Melissa informa que esse procedimento “alterou a quantidade de turmas para os professores darem aulas”. O que a professora relata evidencia que as escolhas estratégicas e econômicas da IES Alfa não passam impunes ao cotidiano docente. Para o professor que é contratado por hora/aula, denominado professor horista, o expediente administrativo do “ensalamento”, interfere no número de turmas, em seu número de horas/aula e, por fim no valor do seu salário mensal. A pesquisa quantitativa mostrou que 27 docentes, correspondente a 57,4% respondentes, eram exclusivamente professores horistas na instituição. Para esses professores o número de turmas representa acréscimo ou decréscimo de carga horária e salário. Dito isso, reafirma-se que a gestão acadêmica da IES impacta na atividade docente. Por exemplo, ministrar aulas para uma turma heterogênea conforme expediente administrativo do “ensalamento”, reflete nas dificuldades do cotidiano em sala de aula.

A rigor, tudo que foi descrito até o presente momento, sob o enfoque da ergologia, são denominadas normas antecedentes, que englobam as condições que estão presentes na situação de trabalho conforme características da anterioridade e anonimato.

A observação da atividade coloca em cena, em tempo real, as inúmeras gestões que um profissional deve mobilizar para dar cabo da tarefa que lhe foi designada por uma instituição. No caso da professora Melissa, para desenvolver sua atividade, articula os meios e instrumentos disponibilizados, as normas antecedentes, o real da atividade no tempo presente, aqui e o agora, a relação com os alunos, entre outras inúmeras variáveis, renormalizando o prescrito, mobilizando saberes e valores na sua realização. Esse movimento dramático mobiliza esforços de modo a, não apenas cumprir a atividade, mas também cuidar de si mesma, considerando a carga de trabalho engendrada nos inúmeros desdobramentos no decorrer da sua realização.

O desafio proposto é de desvelar essa atividade, desdobrando a descrição concreta em uma análise do mais ínfimo da atividade numa perspectiva de articulação teórico-prática.

Revelar a atividade em sua dinamicidade, de forma encadeada, simultânea, como ocorre no momento da ação, em que cada ato leva em conta o que está em jogo na situação. Cabe à professora fazer uso de si mesma de forma a atender ao aluno, ao proposto pela IES Alfa e aos seus valores. Parte desse engendramento começa a ser revelado e articulado a seguir.

A expressão ‘parte’, denota respeitosamente que as observações que se seguem seguramente não são o bastante para abordar a totalidade do que é mobilizado por um trabalhador para realizar seu trabalho. Não se trata, entretanto, de desinvestimento em conhecer a atividade, mas de reconhecer que todo esforço de descrição sempre será insuficiente. A descrição e a análise das situações de trabalho não necessariamente se reduzem ao que se vê, ao que se escolhe relatar. A própria descrição acaba por reproduzir lacunas, posto que, em princípio, não se pode ir além da observação dos comportamentos, dos gestos, dos deslocamentos, dos olhares, das posturas, do que se vê, mas não se pode ignar que há tudo que não é visível. Conforme Guérin et al. (2001) “a atividade não pode ser reduzida ao que é manifesto e, portanto, observável. Os raciocínios, o tratamento das informações, o planejamento das ações só podem ser realmente apreendidos por meio das explicações dos operadores” (p. 165). Assim as explicações dos trabalhadores permitem compreender o que não é visível como, por exemplo, os compromissos que o trabalhador assume, o que ele avalia para agir, com o que ele se confronta, como responde, o que mobiliza para se sair bem (HUBAULT, 2004; LIMA, 2005).

Retomando Schwartz (2004b) quando diz que é “em meio a este ‘tremor e temor’ que todo profissional do conceito deveria tecer seu material teórico” (p. 146) é que as observações foram aqui sistematizadas. A incompletude, não apenas da descrição, mas também da análise, reafirma que a atividade é “enigma”, no sentido de que sempre escapa à tentação da fácil categorização ou das análises rasas. Quando se imagina ter decifrado a atividade, ela se reinventa e algo escapa. É assim também em relação à prescrição extrema, em que os modelos de produção se constroem no abstrato, mas no cotidiano, são os trabalhadores que fazem a gestão do abstrato, infiltrando ali a sua história, a experiência individual ou coletiva. Quando se confia cegamente na prescrição, prevalece a racionalidade orientada pelos modelos abstratos que “nega a historicidade dos atos dos trabalhadores [...] que por meio de sua experiência, a única, de fato, capaz de assegurar a qualidade do processo (LIMA, 2005, p. 55).

Segundo Guérin et al. (2001) “a atividade se opõe à inércia. É o conjunto dos fenômenos (fisiológicos, psicológicos, psíquicos...) que caracterizam o ser vivo cumprindo atos” (p. 16). Ao aparato conceitual da ergonomia, coaduna-se a noção do ser vivo proposta por Canguilhem em que “busca-se com o conceito de atividade dar conta da vitalidade, da

energia do vivente, na luta contra a inércia e a indiferença” (BRITO; ATHAYDE, 2011, p. 261). Esse movimento do ser vivente coloca em jogo a apreensão da carga de trabalho, no sentido singular da gestão da carga e as renormalizações que convocam o trabalhador a fazer uso de si para dar cabo do que lhe foi designado.

De acordo Lima (2005) ao adquirir competências os trabalhadores “amplificam seus horizontes de ação, desenvolvem novos modos operatórios, assim como as capacidades de antecipação, a atividade vive em três dimensões temporais: passado, presente e futuro” (p. 66) (grifos nossos). Esses tempos marcam a trajetória dessa observação uma vez que se articulam, se combinam e se sobrepõem na atividade real da sala de aula.

Antes de iniciar a descrição da observação, contextualiza-se local onde ocorrem as aulas.