Tô estudando pra saber ignorar.
[“Tô”, de Tom Zé e Elton Medeiros].
O livro das ignorãças é obra de 1993. A fotógrafa Anna Mariani buscou a imagem dos vegetais, especificamente os do Pantanal, para criar a capa da edição da Record. Num fundo bege, o marrom aparece nas letras do título. O instantâneo deve ter sido trabalhado artisticamente, pois aparecem nele camadas de cores: a primeira, de cima para baixo, está entre e o cinza e o azul, a segunda é azul claro, a terceira é verde claro, a quarta é marrom, a quinta é novamente verde claro e a sexta e última é verde escuro.
Capa da edição da Record de LI.
A obra está
dividida em três partes: “Uma didática da invenção”, “Os delimites da palavra” e “Mundo
pequeno”. E, para cada seção, há um desenho feito por Manoel de Barros.
Desenho de Manoel de Barros
Nessa primeira imagem, aparece um homem, que tem atrás de si um sol, seus braços parecem morros, seu tronco e seus pés lembram um rio. Assim, como na poesia manoelina, o ser humano se amalgama com os outros elementos
da natureza.
Aqui, Barros mostra um homem com um braço curto e o outro longo, o que pode ser uma metáfora que representa o horror à simetria da escrita manoelina ou a idéia, que vem da Antiguidade, de que o poeta é um mediador entre a esfera
terrena e a divina.
O outro desenho apresenta um homem-árvore, com um pássaro em seu braço-galho. No alto, no céu, aparecem outros muitos pássaros. Os braços-galhos são inacabados.
Nessa imagem, que está na quarta capa de O livro das ignorãças, aparece um homem com um pé humano e o outro parece de um animal, o de um papagaio talvez.
Assim, tem-se o retrato do artista quando pássaro [que aparece nos dois últimos desenhos] e também o retrato do artista quando lesma/parede:
Toda vez que encontro uma parede Ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes? Parece que lesma só é uma divulgação de mim. Penso que dentro de minha casca
Não tem um bicho: Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez de minha lesma até gozar na pedra.
[LI – 89].
Antes de ser citado em Retrato do artista quando coisa, Rodin já era mencionado em O livro das ignorãças. O sujeito poético ouve os clamores do silêncio das suas pedras: Adoecer de nós a Natureza: - Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin). (LI – 19).
“O grito”, de Auguste Rodin
O mutismo da escuta é recorrente, nesse livro: Só escuto as paisagens há
mil anos (LI – 65). O sujeito poético está atento à ausência e à presença dos
ruídos naturais não escapam: A lua faz silêncio para os pássaros, - eu escuto esse
escândalo! (LI – 69). Se o homem ouve o silêncio da natureza o contrário também
se dá: Os passarinhos ouvem o silêncio de Bernardo: Silêncio dele é tão alto que
os passarinhos ouvem de longe. (LI – 97).
Na orelha do livro, Ênio Silveira afirma que o resultado da literatura de Barros é desconcertantemente multifacetado, variando do telúrico ao surrealista,
da precisão descritiva à mais arrebatadora das metáforas, do lírico ao grotesco.
[Silveira, Ênio. Orelha de LI].
O grotesco aparece neste poema do livro: Aos blocos semânticos dar
equilíbrio. Onde o abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de um primal deixe um termo erudito. Aplique na aridez intumescências. Encoste um cago ao sublime. E no solene um pênis sujo. [LI – 21].
Ênio adverte, na orelha de O livro das ignorãças: não se pode classificar Barros como “o Guimarães Rosa da poesia”, porque Rosa é Rosa, Manoel é
Manoel.
Como se viu, na fortuna crítica de Barros, apresentada no primeiro capítulo desta tese, alguns críticos perceberam várias diferenças entre os escritos manoelinos e rosianos. Luiz Henrique Barbosa, por exemplo, afirma que a
vontade de chegar ao grau zero de uma palavra [Barbosa, 2003, p. 18] é
exclusiva de Manoel.
Esse grau zero de uma palavra é buscado em O livro das ignorãças:
Minha voz inaugura os sussurros. [LI – 63].
No começo era o silêncio:
O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro em água e luz. [LI – 95].
Água e luz antecedem o verbo, ocorrendo, em O livro das ignorãças, o inverso do que se dá na Bíblia, pois nesta vê-se a anterioridade da palavra com relação à criação das coisas [Deus disse: “Haja luz e houve luz”.30] .
Vejamos o poema inteiro:
30 Bíblia de Jerusalém, p. 218.
O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro em água e luz. Depois árvore. Depois lagartixas. Apareceu um homem na beira do rio. Apareceu uma ave na beira do rio. Apareceu a concha. E o mar estava na concha. A pedra foi descoberta por um índio. O índio fez fósforo da pedra e inventou o fogo pra gente fazer bóia. Um menino escutava o verme de uma planta, que era pardo. Sonhava-se muito com pererecas e com mulheres. As moscas davam flor em março. Depois eoncontramos com a alma da chuva que vinha do lado da Bolívia – e demos no pé.
(Rogaciano era índio guató eme contou essa cosmologia.) [LI – 95].
O sujeito poético ouve essa cosmologia de um índio guató, que contraria a gênese bíblica. Entre a leitura e a escuta, esse “eu” opta pela segunda, entre a escrita bíblica e o mito indígena falado, ele também prefere a segunda possibilidade. Assim, o silêncio audiente se intensifica: o sujeito poético ouve o guató e o menino do mito escuta o verme de uma planta.
Se o mundo não surgiu a partir da água e da luz, ele, então, nasceu da concha: De primeiro as coisas só davam aspecto/ Não davam idéias. A língua era
incorporante./ Mulhere não tinham caminho de criança sair/ Era só concha. [LI –
85].
Em nota de rodapé, aparece a seguinte explicação, com relação ao último verso: Era só concha: está nas Lendas em Nheengatu e Português, na Revista do
Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, v. 154. [LI – 85].
Aparece, em O livro das ignorãças, o silêncio da leitura:
Na enchente de 22, a maior de todas as enchentes do Pantanal, canoeiro Apuleio vogou três dias e três noites por cima das águas, sem comer sem dormir – e teve um delírio frásico. A estórea aconteceu que um dia, remexendo papéis na Biblioteca do Centro de Criadores da Nhecolândia, em Corumbá, dei com um pequeno Caderno de Armazém, onde se anotavam compras fiadas de arroz feijão fumo etc. Nas últimas folhas do caderno achei frases soltas, cerca de 200. Levei o manuscrito para casa. Lendo as frases com vagar imaginei que o desolo a fraqueza e o medo talvez
tenham provocado, no canoeiro, uma ruptura com a normalidade. Passei anos penteando e desarrumando as frases. Desarrumei o melhor que pude. O resultado ficou esse. Desconfio que, nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa. [LI – 31].
Assim, o “eu” poético segue penteando e desarrumando as frases de Apuleio (o canoeiro do Pantanal que voou fora da asa em seus escritos de 1922) que por sua vez dialoga com um outro Apuleio (o latino Lúcio, do século II AC, autor de O asno de ouro) não só porque são homônimos, mas também porque um menciona o outro: Eu hei de nome Apuleio./ Esse cujo eu ganhei por
sacramento./ Os nomes já vem com unha?/ Meu vulgo é Seo Adejunto – de dantes/ cabo-adjunto por servimentos em quartéis./ Não tenho proporções para apuleios. Meu asno não é de ouro. [...]. [LI – 35].
O Apuleio pantaneiro escreveu, ou melhor, reescreveu, um texto em 1922. Parece que aqui está presente o silêncio da elipse, pois não há nenhuma menção, ao longo do livro manoelino, a Oswald de Andrade, James Joyce e T. S. Eliot. No entanto, 1922 é um ano especialíssimo para a literatura modernista, já que nele ocorreram a Semana da Arte Moderna Brasileira e as publicações de Ulysses, de Joyce, e de “The waste land” (“A terra desolada”), de Eliot.
Oswald e outros propuseram uma visão (e audição) pautada na Antropofagia. Manoel de Barros, em entrevista, afirma ter conhecido os textos oswaldianos, quando adolescente, e utiliza, nesse mesmo relato, os termos
intertextos e subtextos:
Com 17 anos, talvez foi que conheci o Oswald de Andrade – e Rimbaud. O primeiro me confirmou que o trabalho poético consiste em modificar a língua. E Rimbaud me incentivou com imense dérèglement de
tous les sens. Para um bicho do mato criado em quintal
de casa, para um ente arisco, medroso das gentes e dos relâmpagos, bolinador de paredes pelas quais se esgueirava – esse Rimbaud foi a revolução. [...]. Falo daquele desregramento a que se referiu Rimbaud e que ilumina as nossas loucuras. Penso que os sub-textos e intertextos resultam de uma perversão sensorial. [PQT –
325].
Esse “primitivo”/bugre bicho do mato põe-se a devorar Rimbaud bem como 8
Andrade e o resultado pode ser notado em O livro das ignorãças. As sinestesias, tão ao gosto rimbaudiano, pululam nessa obra:
Hoje eu desenho o cheiro das árvores [LI – 17].
Escuto a cor dos peixes. [LI – 51].
Cheiroso som de asas vem do sul. [LI – 53].
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha. [LI – 55].
Quero apalpar o som das violetas. [LI – 59].
Um perfume vermelho me pensou. [LI – 69].
A oswaldiana proposta cabocla-moderna de aproximar a literatura do falar popular pode ser notada nesse escrito de Barros: Respeito as oralidades [LI – 47]. E mais:
Ocupo muito de mim com o meu desconhecer. Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou no Viterbo –
A fim de consertar a minha ignorãça,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
– Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
– Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
– Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
– Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco. Etc
Etc Etc
Maior que o infinito é a encomenda ...
[LI – 27].
A frase do “povinho” (o diminutivo deve ser entendido aqui não como desprezo, mas como uma referência carinhosa) fica no mesmo patamar de importância das citações cultas: Hamlet, Gênesis bíblico e Sócrates.
Não sou sandeu de gramática, afirma o sujeito poético de O livro das ignorãças, valorizando as estruturas lingüísticas populares. Quando essa obra foi
editada em 1993, Manoel, em entrevista à Folha de São Paulo, afirmou: O
choque do erudito com o primitivo, minha poesia tem muito isso. A boa literatura e a boa linguagem do povo. Câmara Cascudo dizia que o povo é uma universidade31.
O gosto do sujeito poético por seres pobres e anônimos o conduz na escolha das epígrafes. Na seção inicial, o desconhecido e inventado Felisdônio, que o leitor reencontrará num poema do livro, é o autor deste verso: As coisas
que não existem são mais bonitas. A segunda parte não tem epígrafe e, na
terceira seção, Sombra-Boa afirma: Aromas de tomilho dementam cigarra.
Há um poema na última parte do livro, em que Sombra-Boa e esse seu verso reaparecem. Tal escrito será analisado a seguir.
31 Manoel de Barros em entrevista. Couto, J. G. “Manoel de Barros busca na ignorância a fonte
da poesia”. Folha de São Paulo, 14/11/1993, p. 8-9, Livros.