3.3 Implementation of a Benchmark
3.3.2 Implementation
Em “Quem é o dedo duro” João Antônio utiliza o procedimento de construção cena- a-cena em dois momentos distintos: no início e no fim da reportagem. No caso em análise, o início da trama foi colocado no fim da reportagem. Trata-se de uma narrativa em que o dedo duro Zé Peteleco - cujo nome verdadeiro não aparece - personagem principal da reportagem, precisa se infiltrar em uma quadrilha de ladrões para entregá- los à polícia. Para isso, Zé Peteleco usa a alcunha de Carioca.
A primeira cena é o contato inicial do dedo duro com um homem que pode levá- lo a essa quadrilha: “- Como é que é, meu compadre! De onde você é?
- Sou do Rio, meu. Tô passando uns dias aí na casa de um amigo. Mas daqui a pouquinho vou dar no pé para Brasília, pois lá está morrendo gente (correndo dinheiro, prosperando).” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 97).
A conversa entre os dois prossegue, e o dedo duro pergunta ao interlocutor onde poderia conseguir maconha para revender, mas a primeira resposta é uma negativa: ele afirma não saber nada sobre o assunto. Zé Peteleco resolve ganhar a confiança do outro homem: “- Que nada, meu irmão! Será que você está me estranhando? Eu sou limpeza, sou cadeeiro (que já tomou muita cadeia). Pode botar fé – e se abriu num sorriso – meu nome é Carioca.” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, pp. 97 e 99). A estratégia funciona e o homem convida Carioca ir a outro local, onde estaria a droga.
A segunda cena se passa em “um esquisito, onde vários malandros formavam a curriola.” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 99, grifo do autor). Peteleco conseguira, portanto, encontrar a quadrilha. “Era uma curriola de homens fortes, calejados em assaltos. Peteleco fazia seu papel com medo. No fundo, ele estava a perigo” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 99). O informante começa a conversar, sustentando a história de ser um bandido, procurado pela polícia, fugido do Rio para escapar de uma pena de cinco anos de prisão. E anuncia: “- Se alguém souber de algum bagulho (objeto roubado) é comigo mesmo. É aqui com o Carioca. E, olhe aí: estou pagando bem. Pois chegando em Brasília eu vendo tudo” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 99).
A terceira cena se passa dois dias depois, na mesma sinuca em que ele conhecera o homem que o levou aos bandidos. Um dos integrantes da quadrilha o aborda, diz que quer tratar de um assunto. “De novo lhe correra o frio nas pernas. Estava chegando a hora da colheita.” O homem lhe propõe um negócio, pois teria mercadorias roubadas para vender. Ele e Zé Peteleco marcam um encontro “no mesmo lugar. Lá no esquisito. Amanhã, às onze e meia da noite.”
A quarta cena se passa na manhã do dia seguinte, o dia do encontro, quando Peteleco acordou nervoso e “vasculhou todas as bocas, como um cachorrinho. Precisava encontrar o seu tira. Apanhou-o com uma cara de sono, ali por volta do meio dia. E deu todo o serviço” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 99). Este é o fim do texto da reportagem. Mas, na verdade, o desfecho da história está no início da reportagem, onde João Antônio escreve a quinta cena desta história, que se passa no lugar combinado entre Peteleco e o bandido. “Onze e meia da noite no subúrbio. Num terreno escuro e baldio, cinco homens formam uma roda. Fala o crioulo Macalé: - É hora. O Carioca ficou de passar aqui na quebrada para comprar os bagulhos” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 91). Na mesma cena, João Antônio revela que os homens que estão com Macalé fumam um cigarro de maconha enquanto esperam: “Um deles acende um cigarro estranho, fininho. Aspira fortemente, mais, mais, fazendo uma sucção demorada, nervosa. E passa o cigarro ao próximo. No escuro, a brasa do cigarro andando, parando, andando, é o que melhor aparece.”
A sexta cena é a chegada de Carioca, que cumprimenta a todos.
- Olá meus compadres! Estamos a bordo. Como é que é? Trouxeram os bagulhos?
O crioulo tem a seus pés duas malas de viagem. Abre uma. Lá dentro, alguns eletrodomésticos. Retira um rádio de pilha. Convida:
- Chega mais, meu camarada. Vem apreciar a mercadoria (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 91).
Na sétima cena, dois policiais chegam ao local onde iria acontecer a venda da mercadoria roubada: “- Aqui é cana! Todo mundo de mão para cima. Os repórteres e a viatura policial se aproximando paralisam os homens da roda. Não há movimentos. Descem mais três homens da perua. Agem rapidamente.” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 91).
Na oitava cena, os policiais colocam os bandidos presos dentro da viatura. “Um homem, aos trambolhões, é o primeiro a ser enfiado na perua. Vai debaixo de bofetões e pontapés. É quem mais apanha, cabeça encolhida se guardando das pancadas. É aquele um que Macalé disse que ia comprar os bagulhos. É o chamado Carioca.” (JOÃO ANTÔNIO, 1968a, p. 91).
A narração cena-a-cena acaba neste ponto. A partir deste trecho João Antônio começa a esclarecer a pergunta que dá título à reportagem: “Quem é o dedo duro?”. Ao contrário do que ocorre nos romances de suspense, o resultado da estratégia de revelar o desfecho da história no início da reportagem é o leitor fisgado pelo texto logo nos primeiros momentos da leitura. Isso acontece porque o repórter narra uma ação do dedo duro pela metade, sem mostrar logo a maneira como ele se aproxima de seus alvos. Durante a leitura, a incerteza sobre os fatos que originaram a cena inicial serve como um fio condutor do texto da reportagem e transmite ao leitor uma sensação de suspense. O repórter conseguiu, com esse expediente, ligar início e fim do texto da reportagem de uma maneira pouco usual para os romances, mas frequente em matérias jornalísticas. No jornal, por exemplo, uma matéria sobre assassinato em geral começa pela morte, para em seguida desvendar os acontecimentos anteriores. O resultado, no texto em análise, é a utilização de um procedimento do Novo Jornalismo, a construção cena-a- cena, mantendo a inspiração no jornalismo tradicional, em que uma história sobre prisão começaria pela prisão propriamente dita.