Miguel era aluno da professora Amélia e fez 17 anos no ano em que decorreu a investigação. Concluiu o 11º ano com a média de 15,5 valores e obteve 17 valores na disciplina de Ciências da Terra e da Vida. Nos seus tempos livres pratica skate e toca guitarra numa banda. Sempre desejou tirar um curso de engenharia. Inicialmente, influenciado pela actividade profissional do seu pai, pretendia seguir o curso de Engenharia Mecânica; no entanto, a falta de saídas profissionais nesta área e o seu gosto crescente pelas questões ambientais motivaram-no a optar pelo o curso de Engenharia do Ambiente.
“Sempre me interessei pela protecção do ambiente, sempre gostei de coisas tipo Green Peace e essas coisas assim, esses grupos de protecção do ambiente, e então achei que ia gostar de ser um engenheiro do ambiente. Pronto, às vezes não dão muita importância a esses grupos, não ligam muito ao que eles dizem, mas também há pessoas que se começam a preocupar um bocado mais com o ambiente depois das campanhas pela protecção do ambiente, protecção de animais... Portanto, gostava de vir a fazer avaliação dos problemas ambientais causados por construções... estudos de impacto ambiental.” (Miguel, EA)
A sua atracção pela engenharia, em geral, e pela temática das radiações, em particular (radiações emitidas pelos telemóveis, radiação nuclear, radiação solar, etc.), influenciaram a opção pelo tema da sua história de ficção científica. Miguel afirma que o enredo da sua história revela muitas das suas ideias e preocupações, nomeadamente sobre a forma como pensa que o empreendimento científico é conduzido. Logo, o enredo “não se limita a uma boa história de ficção científica impossível de vir a acontecer” (EA).
A História de Ficção Científica A Conspiração
Capítulo I – Introdução
Sexta-Feira 13, Dezembro de 2002, dia mundial da física. Dr. Nunes descia lentamente as escadas em direcção ao hall. Tentava manter um pensamento positivo em relação ao que se viria a passar nas seguintes 32 horas, mas a falta de confiança consigo mesmo era tal que até o levara a esquecer o seu habitual café da manhã. Enquanto esperava à porta de casa pelo táxi que chamara para o aeroporto, olhava o mundo em seu redor. Que cenário tão triste! Era uma tristeza como as pessoas ingenuamente falavam dos problemas da actualidade pensando que estavam completamente certas acerca de tais. Constantemente atravessavam-se à sua frente vizinhos e desconhecidos em conversa dando relevância a supostas “crises” que em pouco ou nada afectavam a sociedade. Sentiu-se bastante deprimido ao pensar que estava a presenciar a maior de todas as tiranias – a ocultação de factos.
Naquele momento, o mundo estava completamente ignorante em relação aos perigos a que irão ser expostos dentro de poucas horas. Esta era uma época cujo objecto que servia de palco para o aumento de lucros da imprensa eram as consequências das radiações no corpo humano, mas a informação transmitida não correspondia na sua totalidade à realidade. Subornados e ameaçados para se calarem ou completamente ignorantes às questões de que falavam, os jornalistas apresentavam reportagens onde induziam as pessoas a pensarem que as novas tecnologias aplicadas aos microondas e aos telemóveis faziam com que estes já não tivessem efeitos tão devastadores, mas em vez dos preços subirem, desciam!!! Falava-se dos medonhos depósitos de lixo radioactivo como se estes fossem altamente seguros e fiáveis, e excluía-se a hipótese de que futuras gerações viessem a sofrer com eles. Apenas alertavam as pessoas para terem cuidado com exageradas exposições ao Sol (e outras fontes naturais radioactivas), e eram criticados os tão antigos diagnósticos com raio X (que apesar de tudo o que se dizia eram completamente controlados os níveis de radiação emitidos por estes). Acerca de experiências atómicas, já não se discutia uma vez que se julgavam acabadas.
Capítulo II – A viagem
Três horas após a chegada ao aeroporto, embarcou num avião para Seattle (EUA) com o seu prestigiado colega de trabalho Dr. Álvaro Santos. O resto da sua equipa embarcava num avião que seguia duas horas mais tarde. A equipa de investigação física do Dr. Nunes tinha sido convocada para participar num projecto de testes nucleares no espaço, com o maior sigilo. Apenas alguns membros influentes dos governos dos países envolvidos tinham conhecimento de tal experiência. Desde o princípio a posição do Dr. Nunes e todos os seus colegas foi contra estas experiências e, durante um ano, praticamente sem férias, todos levaram a cabo uma investigação no
sentido de mostrar as possíveis consequências devastadoras no nosso planeta. Concluíram com este trabalho que à distância a que se pretendiam ser realizados os testes, haviam 47% de hipóteses de que as radiações atravessassem na sua globalidade a camada de Ozono, e os seus efeitos seriam catastróficos. Seria como se metade das bombas tivesse rebentado em terra. Era definitivamente o maior risco que a humanidade teria que enfrentar. Mas tais provas não foram suficientes para parar a ambição e a loucura das outras equipas envolvidas no grupo deste projecto.
Chegados a Seattle foram recebidos por Dr. Smith, um jovem americano ambicioso e simultaneamente frustrado. Após ter terminado o seu curso, o Dr. Smith tinha participado em apenas dois projectos durante quase sete anos, e tinha falhado a sua função em ambos. “Por alma de quem este falhado está metido nisto?!” perguntou-se o Dr. Nunes proporcionando uma gargalhada ao Dr. Santos. De imediato, o Dr. Smith deu-lhes a surpreendente notícia que o resto da sua equipa teria ficado no aeroporto de Lisboa e o seu voo não tinha descolado devido a uma suspeita de que iriam embarcar terroristas naquele avião. O supersticioso Dr. Santos comentou em português para o Dr. Nunes: “Hoje é Sexta-Feira treze, e isto já começa a correr mal!”
Capítulo III – A chegada
Por volta das 18.13, chegaram ao hotel onde seriam hospedados com as outras cinco equipas. Receberam a informação que o jantar se realizaria às 20.30, e à 1.20 estariam seis camionetas para os levar para o campo de onde seriam lançadas as bombas. Souberam também que o resto da sua equipa já só poderia chegar no dia seguinte, pelo qual desistiram todos da viagem. Durante o jantar, foram avisados para limitarem as suas conversas de modo a que ninguém à volta viesse a suspeitar de nada. O jantar foi assim animado por uma tentativa do grupo japonês de ensinar o seu idioma.
Capítulo IV – O lançamento das bombas
Finalmente chegava o derradeiro momento. O Dr. Nunes olhava para a sua camioneta como se esta tivesse como destino o Inferno. E a verdade é que todo o tempo passado na camioneta e no campo fora um verdadeiro inferno. Apenas a 10 minutos do lançamento das bombas o Dr. Nunes e o Dr. Santos ganhavam alguma confiança no acontecimento. Após a explosão, o Dr. Santos teve o infeliz comentário que quebrou o silêncio: “Este espectáculo consegue ser belo e horrível!”.
Capítulo V – A mentira
No dia seguinte, comentava-se em todo o mundo as explosões vistas naquela madrugada. Os vários governos acordaram numa reunião com o G8 em pagar a astrónomos à volta do mundo para dizerem que andavam desconfiados de que iriam acontecer várias colisões entre asteróides, mas não tinham material suficiente para provar que tal ia acontecer.
Capítulo VI – As consequências
Passou-se um ano e meio. Por todo o mundo surgiam inexplicavelmente novos casos de cancro e leucemia. Falava-se de que tinham sido detectados
altos níveis de radiações, mas ninguém sabia a fonte. Uns jornais diziam que talvez se devesse à destruição da camada de ozono, para outros eram todos os electrodomésticos que trabalhavam à base de radiões, apenas alguns semanários que abordavam temas mais científicos questionavam-se acerca da relação com os cometas, e os membros da comunidade científica sabiam que vinha do espaço e provavelmente devia-se aos choques entre cometas, mas era pouco evidente e tentavam arranjar uma relação entre os factos. O Dr. Nunes recordara-se no dia 13 de Dezembro, quando esperava pelo táxi. Era evidente para todas as equipas o que se estava a passar. Decidiram então marcar uma reunião com todos os envolvidos no projecto, onde lhes propuseram que fosse feita uma conferência para contar a verdade ao mundo, uma vez que toda a gente tinha o direito de saber o que se estava a passar, e relembraram-lhes também que os seus estudos sugeriram a hipótese de que efeitos tardios causassem uma anomalia nas gónadas (órgãos reprodutores), o que significava uma esterilização de toda a humanidade que iria durar à volta de 20 anos. O Dr. Nunes saiu chocado desse encontro. Os argumentos apresentados eram estapafúrdios! Chegaram mesmo a ter a crueldade de dizer que “essa catástrofe será um bem para países com excesso de população, como a China ou a Índia”, ou então diziam simplesmente “não vou ser alvo de críticas quando nada pode ser feito”, “E os motins que isto criaria? E as guerras civis?”. Só via medo naquelas caras. Não estavam a decidir o que seria melhor para a humanidade, mas apenas a pensar o que seria mais conveniente para cada um individualmente.
Capítulo VII – O termo e a continuação da vida humana
Passados cinco anos, o Papa alegava haver uma forte crise anti-religião no mundo, pois nos últimos quatro anos, os baptizados tinham praticamente deixado de ser feitos. Em Portugal, nos últimos quatro anos tinham sido baptizadas apenas 9 crianças. De facto, tinham nascido apenas 9 crianças, das quais 6 já tinham morrido de cancro ou leucemia.
Com todos os acontecimentos (e de consciência pesada), realizou-se novamente um encontro, para reconsiderar a conferência. Desta vez foram os governos que negaram a proposta. Já era tarde de mais para isso. Já era tarde para se pensar em construir abrigos para toda a humanidade. Já nada poderia ser feito, por isso a conferência ia apenas levantar as revoltas. O Dr. Nunes sentiu o peso de ter aceite o cargo naquele projecto. Sentiu que preferia estar na ignorância a questionar-se acerca do que se estaria a passar. Sentiu-se como um assassino que lamentava o seu acto. O encontro foi finalizado com uns momentos de silêncio pela alma do Dr. Yanch, um cientista japonês envolvido no projecto que se suicidara depois da morte da sua esposa por leucemia.
Capítulo VIII – A verdade desvendada
Os dias de todos os conhecedores destes factos foram mais melancólicos do que aquilo que alguma vez imaginaram vir a ser, principalmente pelo facto de não poderem contar a verdade aos seus familiares e, por vezes, tinham mesmo que os ver morrer, sentindo a culpa das mortes na sua pele. Nada
contaram? Não era suposto, mas o Dr. Beneditte, natural de França, residente em Chicago, e o Dr. Frank Noggel, que deu a sua participação da parte de um grupo Alemão, não foram suficientemente fortes. Confiaram nos seus familiares para desabafarem.
Passara-se vários anos e a humanidade ficou reduzida a menos de dois terços da sua dimensão em 2002. O mundo estava completamente aterrorizado com esta catástrofe. Em 2011, após a morte de Marie Beneditte (esposa do Dr. Beneditte) com cancro no pâncreas, o seu filho François Beneditte sentiu uma enorme revolta dentro de si e decidiu revelar ao mundo tudo o que se tinha passado na madrugada de 14 de Dezembro de 2002, e fez saber os nomes de cada um dos presentes no campo de onde foram lançadas as bombas. Foi a loucura total. Todos demonstravam das maneiras mais violentas os seus sentimentos. 2011/2012 ficou marcado nos livros de história como o ano dos mártires.
Capítulo IX – O caos
Alguns meses após a data em que o mundo encarou a verdade, o Dr. Nunes foi morto a tiro por um cidadão revoltado, quando saía da sua casa em Lisboa. O mesmo sucedeu com outros cientistas, tal como o Dr. Beneditte. O assassínio do Dr. Beneditte levou o seu filho à loucura, pelo qual foi internado num manicómio no ano em que terminava o seu curso universitário.
Em muitos países com forças policiais menos organizadas ou menos poderosas, como foi o caso de Portugal, instalou-se uma completa anarquia causada pelo caos e a revolução. A sociedade em geral acorreu a vários movimentos religiosos numa tentativa desesperada de procurar a salvação. A imprensa perdeu todo o crédito que tinha anteriormente. Dois dos cientistas do grupo português, o Dr. Aguiar e o Dr. Paulo Dias, morreram vítimas de cancro na língua e pulmões (o Dr. Aguiar era também um fumador).
Passadas duas décadas, em 2031, começaram a nascer os primeiros bebés. Eram na sua maioria deformados com aspectos monstruosos, mas ao contrário do previsível, não houve praticamente abortos, uma vez que os casais tinham medo de não voltar a conseguir ter filhos. A esperança média de vida tinha descido em flecha para menos de 25 anos, numa altura em que a humanidade estava reduzida a um terço daquilo que fora até ao início do terceiro milénio. Tinham-se criado desertos em muitos países africanos e na América Central.
Alguns anos após o mundo ter estabilizado a sua evolução em 2056, foi criada uma disciplina escolar cujo objectivo seria moralizar as crianças para tentarem que a sua geração fizesse a diferença, para que as crianças quisessem mudar o mundo, esquecer o egoísmo, a ganância, a ambição. Essa disciplina foi aplicada na maioria dos países, mas de pouco ou nada serviu. O egoísmo, a ganância, a ambição, nascem com o homem e morrem com o homem. Tornaram-se características inatas que nada é possível fazer para se alterarem.
Se não fosse uma ficção...
Se não fosse uma ficção, era mais provável que o facto de que os testes se iam realizar fosse transmitido ao mundo, apenas se ocultava que estes
tinham corrido mal; não se ia correr um risco tão grande, e em vez disso praticavam os testes em distâncias mais seguras; não seria fácil subornar tantos astrónomos e outros acabavam por mostrar que se tratava de uma farsa; os cientistas dariam mais atenção aos resultados da avaliação de consequências e seriam estudados métodos para evitar o máximo de consequências.
As Concepções sobre o Conhecimento Científico e Tecnológico
Reflectindo sobre o enredo da sua história de ficção científica, Miguel afirma-se convicto da existência de “muita investigação científica realizada, em segredo, por cientistas motivados pela fama e pelo lucro” (EA). Acredita que o secretismo é, frequentemente, assegurado pelo Estado, de forma a permitir a realização de projectos, metodologicamente arriscados e com finalidades polémicas, sem o escrutínio da população em geral. Em toda a sua história, denota-se um forte sentimento de desconfiança e impotência perante opções científicas e tecnológicas da exclusiva responsabilidade de cientistas ou entidades governamentais e a manipulação dos media por estes grupos de interesse. Na sua opinião, a população dificilmente consegue intervir em processos que desconhece.
Outro aspecto marcante no discurso de Miguel é a sua grande preocupação com a contínua degradação ambiental da Terra, provocada pela utilização irreflectida e irresponsável da tecnologia. Apela, frequentemente, a um maior investimento tanto na prevenção como na resolução de problemas ambientais, algo que considera muito aquém do desejado.
Contrariando o mito da pretensa objectividade e neutralidade da ciência, comum entre os alunos de várias idades e nacionalidades (McComas, 2000; Ryan, 1987), Miguel sente que o egoísmo, a ganância e a ambição constituem traços característicos dos seres humanos (e, portanto, dos cientistas) que tornam inevitável a concretização de todo o tipo de projectos científicos e tecnológicos, independentemente dos seus perigos potenciais. Tanto a sua história de ficção científica como o seu discurso durante a entrevista, denotam a convicção de que a concretização de projectos potencialmente catastróficos depende, unicamente, da
combinação, extremamente perigosa, de dois factores: a falta de escrúpulos e o poder de decisão e de realização. Constata-se, também, o reconhecimento da ciência como empreendimento que, apesar de colectivo e internacional, é influenciado, de forma determinante, pelos países e cientistas com maior poder técnico, financeiro e decisório. Os restantes, independentemente da sua competência, são remetidos para o papel de meros espectadores, completamente impotentes.
Apesar destas preocupações, Miguel reconhece o papel de relevo desempenhado pela ciência e pela tecnologia na melhoria das condições de vida da população. Na sua opinião, os cientistas são “pessoas normais”, com características intelectuais, morais e éticas diversas, que se dedicam à investigação científica, ou seja, que procuram “alcançar um conhecimento maior, somando as coisas todas de forma a descobrir mais, (...) para sabermos melhor as coisas que nos rodeiam e para também facilitar muitas coisas, por exemplo, a construção de máquinas para nos facilitar a vida” (EA). Desta sua afirmação, depreende-se uma identificação da ciência com a produção de artefactos tecnológicos, o que corresponde a uma concepção comum entre os alunos (Aikenhead, 1987; Fleming, 1987; Ryan, 1987; Ryan e Aikenhead, 1992; Vázquez e Manassero, 1997), numa época caracterizada por uma subordinação crescente da investigação científica às suas aplicações tecnológicas (Acevedo, 1998).
Outro aspecto interessante da história de ficção científica é a referência, exclusiva, a cientistas do sexo masculino (oito, no total), o que corresponde a um estereótipo comum entre muitos alunos (Chambers, 1983; Fort e Varney, 1989; Matthews, 1994; Matthews e Davies, 1999; Mead e Métraux, 1957). Esta ideia é particularmente interessante em Portugal (um país onde as mulheres constituem a maioria dos estudantes universitários e uma percentagem muito significativa, e crescente, dos investigadores científicos), sugerindo uma forte influência dos filmes e livros de ficção científica (frequentemente, marcados por este estereótipo).
Miguel revela bastantes dificuldades em descrever o trabalho dos cientistas, nomeadamente, as metodologias por eles utilizadas. Contudo, considera que as
propostas dos cientistas são, geralmente, testadas em laboratório ou no terreno, o que evidencia uma concepção experimental-indutiva segundo a qual a actividade científica se restringe a um processo faseado de (1) observação dos fenómenos, (2) formulação de hipóteses explicativas e (3) sua testagem. Por vezes, esta ideia é veiculada nas aulas de ciências naturais quando: a) se descreve a actividade científica como uma sequência rígida de fases a que, por vezes, se atribui a designação de “método científico”; e b) se apresenta o trabalho laboratorial como uma forma de “comprovar” conhecimentos teóricos abordados em aulas expositivas. Este aluno acredita, também, que a testagem das propostas dos cientistas pela comunidade científica internacional representa uma condição necessária para a sua aceitação como teoria. Na sua opinião, uma teoria consiste numa hipótese ou numa ideia explicativa que é reconhecida como teoria após avaliação pela comunidade científica. Contudo, de acordo com Miguel, as teorias são provisórias, nunca assumindo o estatuto de “verdades” em virtude da possibilidade, sempre presente, de sofrerem reformulação após descoberta de novos dados.
Provavelmente, a falta de conhecimentos deste aluno sobre aspectos processuais e epistemológicos da ciência é responsável por grande parte da sua desconfiança relativamente ao empreendimento científico. Geralmente, teme-se aquilo que se desconhece. Esta situação é, ainda, agravada pelos meios de comunicação social – a principal fonte de informação científica da população (Lewenstein, 2001). O facto dos media raramente retratarem os cientistas de forma positiva tem um efeito considerável sobre a confiança do público na ciência e na tecnologia (Haynes, 2003; Liakopoulos, 2002; Weingart, Muhl e Pansegrau, 2003).
Concepções sobre o Ensino e a Aprendizagem das Ciências
Miguel entende o ensino das ciências como uma preparação para o Ensino Superior e uma sensibilização para profissões futuras e problemas socialmente relevantes como, por exemplo, questões ambientais. Durante os últimos anos tem
utilizado alguns dos conhecimentos aprendidos nas aulas de ciências naturais, nomeadamente, na interpretação de relatórios médicos.
Classifica as suas aulas de ciências naturais como “normais”, ou seja, “aulas em que os professores dão uma matéria... falam sobre o assunto e sintetizam aquilo para nos pôr as coisas mais importantes na cabeça. (...) É, fundamentalmente, ouvir o professor e fazer fichas” (EA). Considera muitas aulas repetitivas e, consequentemente, cansativas. Por esse motivo, aprecia as aulas e os professores que rompem com este padrão desagradável através da realização de visitas de estudo, de actividades laboratoriais, de debates sobre temas actuais e da observação de filmes. Contudo, Miguel encara estas actividades como formas mais interessantes de promover a aprendizagem de conteúdos, ignorando, quase por completo, a sua eventual contribuição no desenvolvimento de capacidades.
Na opinião deste aluno, a aprendizagem dos conteúdos programáticos é bastante facilitada quando os professores se preocupam em explicar o seu interesse e relevância para a vida dos cidadãos. No entanto, isso nem sempre