Na ESCOLA ESTADUAL, foi vivenciada a organização do processo de
início do período letivo de 2008. Foi um encontro que reuniu as cinco coordenadoras da escola e a direção, no qual se discutiram o cronograma de atividades a serem desenvolvidas em cada turno e as diretrizes para que essas acontecessem. Nessa reunião ficou previamente definido como sugestão de tema para o projeto: HUMANIZAÇÃO, CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA E EDUCAÇÃO PELA PAZ. O referido tema foi indicado pela Secretaria Estadual de Educação e Desportos - SEED, porém o grupo lançou outra proposta de tema, versando sobre a questão dos direitos humanos (DIREITOS HUMANOS: 60 ANOS DE EXISTÊNCIA) ambos seriam apresentados aos docentes para uma definição consensual. Definido isso, as coordenadoras dividiram as tarefas de cada uma e concluíram a reunião.
O planejamento geral dos professores da ESCOLA ESTADUAL que atuavam nos anos iniciais do ensino fundamental aconteceu no mês de março de 2008 e foi coordenado pela Professora Isabel. No primeiro dia, depois de realizar uma dinâmica, cujo objetivo foi dar as boas-vindas aos professores, Isabel apresentou uma síntese do conteúdo de um filme que foi exibido no momento seguinte e que tratava da concepção e organização de projetos no âmbito escolar. A fundamentação do referido filme considerou as orientações apresentadas pelo professor Celso Antunes, que, entre outras informações, afirmou que o projeto não precisava abranger todas as áreas. O filme62 serviu para fundamentar o trabalho com o projeto, sendo uma iniciativa da equipe pedagógica.
O objetivo da exibição do filme era auxiliar os professores a compreenderem o sentido do projeto, fundamentando as intenções de trabalho. O filme apresentou um conceito de projeto como a busca de estudar um conteúdo de forma profunda, colocando-o dentro de diferentes perspectivas ou concepções pedagógicas, superação de situações convencionais. Justifica o uso do projeto a partir de experiências exitosas de comunidades internacionais. Utilizou a expressão aprender a aprender, mas não explicou a idéia. O autor fez uso de uma frase que serviu como justificativa para seu uso: “uma pessoa bem sucedida é aquela que tem projetos”. Defendeu ser esta uma metodologia que busca o conhecimento.
No filme, os exemplos de projetos desenvolvidos convergiram para a mesma
origem: o olhar do professor sobre o processo de aprendizagem. Apresentou como sugestão
dez (10) passos para a organização do projeto, e sugeriu que o objetivo do trabalho com
62 FONTE: http://www.educadores.com.br/acervo.asp Por: Celso Antunes: O trabalho a partir de projetos
pedagógicos causa profundas e benéficas transformações no cotidiano escolar. Mas como fazê-lo? Neste vídeo, Celso Antunes trata dos novos papéis que educadores e estudantes têm nesse contexto, mostra passo a passo como realizar projetos e traz diversos exemplos inspiradores. Tempo de duração 50 minutos.
projeto é ensinar o aluno a elaborar o projeto (apêndice D). Dos elementos apresentados, apenas a origem do projeto – de onde o projeto deve partir – foi alvo de discussões no grupo de professores, embora outras questões tenham emanado: nessa perspectiva será que o professor deixa de ser esse dono absoluto do saber que define arbitrariamente os conteúdos e rumos da ação de aprendizagem? Será que o seu papel não continua o mesmo? Definidor da aprendizagem? O fato do projeto permitir a convergência de múltiplos saberes para construir um conceito por meio de investigação, significa mesmo uma mudança nas relações de poder ou apenas um pretexto para mobilizar os interesses do aluno que ainda não define os eixos de sua aprendizagem?
Foram questionamentos feitos pela pesquisadora no silêncio da observação, que também influenciaram na definição de aspectos que poderiam ser observados.
O segundo momento dessa reunião, coordenado pela Professora Isabel, foi marcado pelos questionamentos a respeito do conteúdo do filme. Uma das professoras expôs a importância da fundamentação do trabalho.
O que eu pude analisar é que a pessoa nesse vídeo [no caso o Prof. Celso Antunes] colocou muito bem essa questão do projeto, até mesmo porque a gente sente muita dificuldade de trabalhar com projeto. Isso é uma realidade que a maioria aqui vive. Eu não vou dizer que adoro trabalhar com projetos. Tem projeto que a gente trabalha, mas que na hora de elaborar sempre surge uma dificuldade. Então aqueles passos que o autor colocou foram muito validos; eu gostei, é uma pena que tenha sido assim uma vez só e que a gente não possa acompanhar numa outra reunião para que se possa aprofundar mais no que ele citou. Eu achei válido e espero que as colegas também tenham gostado (depoimento gravado em áudio, de uma professora na sessão de planejamento da ESCOLA ESTADUAL em fevereiro de 2008).
Quando da discussão a respeito do seu conteúdo, outra professora presente não se sentiu à vontade frente à idéia de elaborar um plano de ação antes de um contato com os alunos. Na verdade, o que esta professora queria, e questionou, era o fato do tema do projeto não surgir de uma questão suscitada pelos próprios alunos, defendendo que partindo do professor este seria quase que imposto. A Professora Isabel argumentou que muitos professores sentiam-se inseguros quando o tema partia do aluno; não se sentiam preparados para conduzir o desconhecido, daí advindo a necessidade e a opção de definir previamente a temática do projeto.
apontado por Isabel e a organização dos professores em dois subgrupos: um com as professoras do 1º ao 3º anos e outro, do 4º ao 5º anos, os quais iniciaram a sistematização do plano de trabalho com uma perspectiva de participação mais significativa do aluno no projeto.
No entanto a discussão sobre a participação do aluno na definição do tema do projeto voltou e devido a isso decidiram tentar incluir mais o aluno nesse processo. Para o contato inicial com os alunos, as professoras decidiram que fariam um levantamento de temáticas relacionadas à questão central (Direitos Humanos). Este levantamento tinha por objetivo também coletar sugestões de sub-temáticas, essas por sua vez subsidiaram a organização dos conteúdos dos projetos entre os bimestres. Uma iniciativa que mesmo considerando as sugestões dos alunos não perdeu a centralidade pelos professores.
O primeiro momento do projeto a ser desenvolvido junto aos alunos foi assim planejado:
Aula informativa sobre Direitos Humanos; Exibição de um filme;
Comentários sobre o conteúdo do filme;
A realização de uma leitura informativa com a produção de textos com ilustração.
Com esse conjunto de tarefas as professoras Palmira e Auta iniciaram com suas turmas o projeto. Nessa fase, que não foi observada pela pesquisadora por opção das professoras, foram desenvolvidas as atividades através das quais foi possível selecionar as sub-temáticas para ao projeto. Seguida a essa fase ocorreu um novo encontro para planejar a continuação do projeto.
Após esses dias, houve um novo momento de planejamento, no qual as professoras montaram um esquema (anexo A) para sua organização a partir dos temas sugeridos pelos alunos, distribuindo assim os conteúdos para os bimestres.
Quadro 8 – subdivisão da temática do projeto de 2008 da ESCOLA ESTADUAL – distribuição dos conteúdos nos bimestres
Fonte: registro das observações do planejamento do dia 28/03/2008
1º bimestre 2º bimestre 3º bimestre 4º bimestre
VIOLÊNCIA Conceitos Tipologia
Art. 3º, 5º, 7º, 9º dos DH
MISÉRIA
Violência contra a mulher Lei Mª da Penha Assédio Trabalho feminino Homossexualismo VIOLÊNCIA INFANTO-JUVENIL Negros Homossexuais Pobres ECA Trabalho infantil Drogas VIOLÊNCIA contra o idoso Estatuto do idoso.
Essa forma de organização da rotina escolar definiu a própria sistematização do período de observação em sala de aula, auxiliando na elaboração de um cronograma de ação, no qual foi decidido pelas professoras que as sessões começariam apenas no segundo bimestre. Então, no segundo momento de planejamento coletivo, maio de 2008, foi sistematizado o plano de trabalho do 2º bimestre, o qual foi desenvolvido e serviu de cenário para as sessões de observação.
Para esse bimestre foram selecionados os conteúdos abaixo ilustrados para compor o estudo proposto pelo projeto.
Quadro 9- Conteúdos elencados por disciplinas para o 2º bimestre Fonte: registro das observações do planejamento do dia 28/03/2008
Pôde-se ainda acrescentar algumas reflexões a respeito das situações vivenciadas. Em conversa (que não foi gravada em áudio) a Professora Palmira afirmou estar um pouco ‘insegura’ quanto à sistematização do projeto. Alegou que em outros anos o acompanhamento do trabalho foi feito de forma mais próxima pela outra coordenadora, que a atendia individualmente auxiliando na organização das etapas do trabalho. O fato de estar sob outra coordenação com outra forma de condução da orientação docente estava deixando-a insegura. Não sabia muito bem qual o rumo a ser dado no desenvolvimento das ações. Nas sessões de planejamento pode-se perceber que a sistematização e a condução do projeto se colocavam através do excerto a seguir retirado das descrições do planejamento da primeira parte do projeto (do 1º bimestre), quando os professores decidiram ouvir os alunos antes de definirem as atividades. Durante essa conversa, Auta e Palmira permaneceram atentas às experiências relatadas.como tarefas complexas para todos os professores, o que pode se confirmar
PROFESSORA 1 : Chega, agora vamos começar...
ISABEL: Como é o nome da parte do projeto? É a pesquisa de temas? Vai se chamar o que? Como trabalhar projetos, modelos de projeto? Seria geração de temas, não seria?
Português Matemática História Geografia Ciências
Substantivos próprios e comuns Textos jornalísticos, narrativos; Gênero, numero,. Gráficos – noções de estatística; Números naturais As 4 operações História local Descobrimento do Brasil – colonização portuguesa O planeta Terra Localização do Brasil no mapa- mundi Elementos de cartografia Fases da vida humana
PROFESSORA 3: Acho que de tema gerador. No caso, quando trabalhei na outra escola, nosso tema era sobre o meio ambiente
ISABEL: Seleção do tema gerador não é, não?
PROFESSORA 3: No caso de trabalhar com os temas transversais, o tema gerador é esse e a partir dele se vai fazer os sub-temas a serem trabalhados. PROFESSORA 2: Seleção de sub-temas, não é assim?
PROFESSORA 3: É.
PROFESSORA 1: Só na próxima semana a gente vai saber o que vai fazer não é? Com a seleção de sub-temas?
PROFESSORA 3: O tema é gerador do projeto é esse? (referência aos Direitos Humanos) Ai nós vamos fazer uma seleção de sub-temas não é? É o que quero saber para colocar nesse papel. Digam, o tema: direitos humanos e a seleção de sub-temas vamos planejar juntas. Como que a próxima semana se vai fazer isso, como a gente vai colher os dados? Ai seria nossa leitura, o texto só com a intenção de ler os artigos dos direitos humanos. Pode passar o filme e depois relacionar com o texto. Colocar assim, o primeiro momento o filme63;
Junto com os alunos, questionar, comentar o filme, fazer atividade escrita sobre o filme. O que eles entenderam do vídeo. Do jeito que eles falaram, claro, que a gente vai aceitar. Não é assim? É o comentário do filme
PROFESSORA 1: Aí depois seria ideal que eles vissem o texto.
PROFESSORA 3 : Depois uma leitura informativa, se tiver livro que dê para cada aluno [...] Depois bota nos recursos. Eu vou arrumando logo os recursos que vamos precisar. De vídeo, essa leitura informativa, vê se tem os livros, se não tiver, fazer cartazes. Relacionar o contexto do vídeo com a realidade, aí depois vai ler, ou em livro ou transparência. Tem que ver em retroprojetor, a gente tem transparência? Pronto: depois do filme usa a transparência. Mais como é? Quem tirava Xerox? Pra quando é? Esse aqui é pra segunda-feira, não é?
PROFESSORA 1: Isso já é para ser apresentado na segunda-feira? PROFESSORA 3: Sim
PROFESSORA 1: Eu vou ter que digitar todos os direitos, ou tirar da internet e colocar no pen drive e imprimir na transparência.
PROFESSORA 3: Tudo aqui é 4º e 5º anos, ai pra gente planejar como é que vai ser?
PROFESSORA 1: Aí tem que fazer um programa. Quantas turmas vão caber na sala de vídeo, por exemplo.
63 Embora fizessem referência a um filme ainda não possuíam nenhuma definição de qual seria exibido aos
PROFESSORA 3: Duas turmas
PROFESSORA 1: Faz uma escala de horário. Quem vai primeiro.
PROFESSORA 3: 7:00 de manhã cedo. Nesse caso você quer ir primeiro? PROFESSORA 2: Quem é o outro 5º ano?
PROFESSOR 5: A que horas?
PROFESSORA 3: O filme tem 19 minutos, os comentários não serão feitos na sala de vídeo que é pra dar brecha pra outra turma vir. Faz na sala de aula. PROFESSORA 5: No caso,começando 7h30, 7h50.
PROFESSORA 1: Nunca dá certo começar cedo, porque a gente chega, faz chamada. Ai dá certo de 7:30.
PROFESSORA 2: Deixa meia hora pra cada um.
PROFESSORA 1: É meia hora pra cada um, né? 7h30 -8h00, 8h00 -8h30, 8h30-9h00
PROFESSORA 2: Agora tem que copiar isso aqui. O horário que cada um vai. (sessão de planejamento dos professores dos anos iniciais do ensino fundamental da escola estadual – março/2008)
Apesar da coordenadora Isabel orientar que se deveria pensar inicialmente nos objetivos que se queria, para que de alguma forma pudesse surtir efeito, sugerindo palestras, exibição de vídeo, oficinas, as professoras preocuparam-se em definir os conteúdos que deveriam ser explorados. As professoras discutiram brevemente sobre os temas para o 2º bimestre conforme plano inicial e começaram a definir os conteúdos de cada área.
A ação de selecionar conteúdos baseou-se apenas na experiência das professoras, que iam listando-os a partir de conhecimentos advindos de suas práticas cotidianas. As professoras questionaram sobre a metodologia para desenvolver a temática. Por fim, a professora Palmira elaborou um plano para o projeto que foi aceito pelas professoras do grupo (anexo B). Tal situação conduziu a uma reflexão neste trabalho a respeito das atividades e tarefas escolares que poderiam caracterizar o projeto. Isso porque, se o projeto foi eleito como processo de trabalho, não foi entendido pela pesquisadora, a dificuldade na organização das atividades de ensino.