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No caso de racismo envolvendo os jogadores Grafite e Desábato, é preciso destacarmos alguns aspectos que cercam o próprio confronto, que de um lado tinha um clube brasileiro, do outro um argentino. As disputas entre Brasil e Argentina costumam ser marcadas por uma incidência maior de violência em campo: de jogadas mais duras a discussões acaloradas, há muita rivalidade em partidas entre as seleções e representantes de clubes nacionais. De forma sintetizada, Santos (2002, p. 18-19) lista as razões para tamanha rivalidade entre os dois países: Em primeiro lugar, por ter cerca de um século. Em segundo, por serem nações vizinhas e disputarem torneios continentais. Terceiro, por desenvolverem talvez o futebol mais artístico do mundo, com cinco jogadores sempre na lista dos melhores da história – Pelé, Maradona, Messi, Di Stéfano e Garrincha. Quarto, por serem duas das seleções mais vencedoras em Copas do Mundo, somando sete ao todo. Por último, pela história envolvendo os mais de 100 jogos entre esses dois times, que quase sempre são encarados como se fossem de Copa do Mundo.

Para Helal e Lovisolo (2007), a imprensa esportiva teve contribuição no acirramento dessa rivalidade por ter reforçado a retórica sobre identidades, estilo e geração de craques. O jornalismo esportivo teria fortalecido os estereótipos, imagens que foram construídas em torno do próprio futebol sul-americano na exaltação de um “jeito sul-americano de jogar”, estilo baseado no drible, na improvisação e na espontaneidade, em os times transitam em terreno mais flexível, com esquemas táticos que se opõem a rigidez do futebol europeu.

No “olhar” da imprensa argentina sobre o futebol brasileiro, os estereótipos falam de características como “alegria”, “diversão”, “habilidade” e “individualismo”, como marcas intrínsecas do jogador ou do futebol brasileiro. Características que se denominou chamar de “jogo bonito” e cuja equipe símbolo seria a seleção brasileira de 70. Na verdade, apenas características positivas e que os brasileiros podem partilhar até com orgulho. No “olhar” da imprensa brasileira não encontramos uma definição clara, uma marca intrínseca ao futebol argentino. Havia certa tendência a identificá-lo como “futebol-arte” ou “toque de bola”, mas de uma forma muito genérica, geralmente englobado na expressão “futebol sul-americano”.

A rivalidade entre Brasil e Argentina é fortalecida pela imprensa esportiva, intensificada pelos confrontos entre os dois países no cenário esportivo, mas há também elementos culturais e históricos que estão presentes fora da disputa do jogo de futebol, a construção do que é entendido pelas nações duas nações como “identidade”, como representações perfeitas de suas sociedades ganham destaque ao analisarmos a trajetória política dos países, conforme afirmam Helal e Lovisolo (2007, p. 2-3):

A implicância crescente em relação ao argentino talvez seja resultado da necessidade maior do Brasil de marcar sua alteridade, ou seja, de ter um adversário a quem se opor para se afirmar como nação. A popularização da nacionalidade brasileira foi construída em grande parte por meio do futebol, enquanto na Argentina o “nacional” já existia antes desse esporte, por meio das escolas públicas, a partir da época em que Faustino Sarmiento (1811-1888) governou o país, entre 1868 e 1878. O investimento que Sarmiento fez nas escolas tinha como intenção levar os imigrantes a encontrar ali um ideal de nação argentina.

Enquanto isso, o Brasil teria criado sua identidade apenas a partir da década de 30 como já demonstramos anteriormente. Acontece que nas coberturas esportivas atuais esse acirramento da rivalidade entre os dois países vizinhos nunca é justificado como forma de afirmação nacional, e sim como defesa às “provocações” argentinas. São recapituladas as declarações de Diego Maradona, ídolo argentino, e reforçada a comparação com Pelé, ídolo brasileiro (HELAL; LOVISOLO, 2007).

Ambos jogadores, além do talento, foram eleitos como personagens pelos seus respectivos países. Tamanha era a popularidade de Maradona ainda jovem, que ao comandar a seleção argentina júnior no título de campeã mundial, as especulações sobre uma possível saída do seu país natal estimularam os pedidos nas arquibancadas para que o argentino permanecesse em um time nacional, “Maradona não se vende, Maradona não se vai, Maradona é argentino, patrimônio nacional (ROSSI; MENDES, 2014). Da mesma forma, a mídia fazia pressão para que o ídolo não fosse negociado com clubes estrangeiros. A interferência do governo no futebol, naquela época a Argentina em ditadura militar, ocorreu ainda anteriormente ao Mundial sub- 20, quando Maradona foi liberado do serviço militar obrigatório, porque a junta militar entendia que o jogador deveria converter-se em exemplo no mundo do esporte e símbolo da Argentina.

No Brasil, da mesma forma que ocorreu na Argentina, o governo buscou aproximação com Pelé. Com a conquista da Copa do Mundo de 1958, ele ganhou reconhecimento e popularidade, bem como tornou-se uma referência internacional para seu país, era um símbolo nacional. Durante o período em que atuou, recebeu inúmeras propostas para que jogasse no exterior, essa já era uma prática da época, Pelé recusou, porque o próprio Santos já dava as vantagens financeiras esperadas e oportunizava com excursões intercontinentais que ocorriam no período conhecer o mundo. O clube soube aproveitar esse status de ídolo do jogador, obrigando o atleta a participar de jogos internacionais que rendiam economicamente para o clube santista (SANTOS, 2008). Por outro lado, a permanência durante toda carreira no Brasil fortaleceu a relação de “imagem e semelhança” com o torcedor.

Pelé e Maradona têm personalidades absolutamente diferentes, enquanto o primeiro construiu uma história com atuações e atitudes disciplinadas, embora também polêmico pelas

declarações, o brasileiro nunca esteve envolvido em atividades consideradas antidesportivas; o segundo ficou conhecido pelo comportamento controverso fora dos gramados, com envolvimentos com drogas e álcool, reações violentas com a imprensa, além das relações na vida pessoal com ações de investigação de paternidade por ter tido filhos que nunca assumiu. Ainda assim, são as habilidades em campo de cada um que serviram para torná-los ídolos nacionais.

O sociólogo Ronaldo Helal, além das pesquisas sobre racismo, ocupou-se também em estudar essa rivalidade histórica entre Brasil e Argentina. Ao analisar a narrativa de jornais argentinos nas Copas do Mundo entre 1970 e 2006, surpreendeu-se com a exaltação ao “jogo bonito” brasileiro por parte dos argentinos. Da mesma forma, que constatou uma torcida pelo Brasil em situações de confronto contra outras nações.

Quando Brasil e Argentina entram em campo, os narradores de futebol sempre recordam a enorme rivalidade que existe entre os países. Valorizando o drible e a improvisação, ambos produziram um “estilo de jogo” que se opõe aos esquemas táticos que são típicos do futebol europeu. Em comum, brasileiros e argentinos têm também a forma como usaram esse esporte para construir a identidade nacional. Mas quando o assunto é a opinião do torcedor, aparece a diferença: a análise de matérias de jornais, declarações à imprensa e estudos acadêmicos revela que os argentinos admiram muito mais o futebol do Brasil do que o contrário. (HELAL, 2011, p. 1). Conta o autor que de 1998 para cá, o discurso estaria mudando, fruto do conhecimento argentino sobre o tratamento contrário dado ao futebol argentino pelos veículos de comunicação daqui, o tom de deboche e acirramento de rivalidade; a internet colaborou para que essas informações chegassem por lá. Ainda assim, conforme os estudos:

Em 2002, na véspera da final contra a Alemanha, o jornal Olé, que “provocou” o Brasil durante toda a Copa, publicou pesquisa realizada com mais de 10 mil internautas em seu site e registrou que 55,6% preferiam que o Brasil ganhasse o Mundial. Nas duas partidas entre Brasil e Argentina realizadas em junho de 2005, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo e na final da Copa das Confederações, os argentinos se referiam aos brasileiros como os praticantes do “jogo bonito”. (HELAL, 2011, p. 2).

Pela mesma análise, durante a Copa de 2010, os jornalistas brasileiros enfatizaram na cobertura esportiva as frases provocativas de Maradona, enquanto técnico da Argentina, Helal (2011, p. 3): “prestando atenção às suas entrevistas na íntegra, é possível observar que a imprensa do Brasil fazia uma edição tendenciosa, sempre buscando a polêmica”. Também nessa edição do mundial, a publicidade usou da rivalidade como elemento negativo, o argentino aparecia como único antagonista, sendo que uma referência a um termo em espanhol, maricón

(homossexual), chegou a ser usado. Publicidade que poderia ter criado um incidente internacional.

De acordo com Bandeira (2009), dentre as características presentes no esporte, em especial no futebol, podemos considerar o poder de construção de identidades. Já abordamos a significância que a modalidade tem para os brasileiros nesse sentido, mas é possível pensarmos essa identidade também como forma de exaltação cultural diante de outra nacionalidade, como uma espécie de supervalorização do que é “nosso”. A rivalidade entre Brasil e Argentina, manifestada nas atitudes violentas em campo, por exemplo, seria a representação da afirmação identitária de cada país, uma disputa para reiterar as características nacionais e provar superioridade.

Em nossa análise, consideramos a questão da rivalidade no futebol argentino e brasileiro muito presente no caso de 2005, mas identificamos também um contexto extracampo no período, nas relações de política externa do país, que fortaleceu a disputa de identidades no episódio entre Desábato e Grafite.