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3 Imperfect Instruments in Single Equation Endogenous Binary Response Model

colheita. Além disso, observa-se uma barreira construída de rochas de basalto para conter a forte erosão do solo devido à elevada declividade do terreno.

Fonte: José Alves, Pinhalzinho, 20/03/03.

89 Não é difícil encontrar frascos de agrotóxicos jogados nos pastos ou até mesmo próximo das casas. Entretanto,

no geral, percebe-se uma preocupação com o destino dos frascos, mas mesmo que o produtor o guarde, não há outro destino a não ser a unidade produtiva.

do Pinhalzinho fazem uma espécie de plantio direto, pois plantam a aveia para a alimentação do gado no inverno e, após a retirada dos animais, cultivam a terra sem arar. Técnica semelhante é usada por 8,0% dos produtores da Vila Rica, que após a colheita do milho não aram a terra para o próximo cultivo.

Como elucidado, a produção agrícola praticada pelos produtores das comunidades rurais constitui-se principalmente para o autoconsumo familiar. Isso fica mais explícito após a redução da área cultivada devido às constantes dificuldades enfrentadas pelos produtores, seja no âmbito produtivo, técnico, de comercialização e/ou da própria disponibilidade do trabalho familiar. Além disso, as técnicas adotadas no processo produtivo caracterizam-se pelo uso de equipamentos tradicionais, além do uso de herbicidas e, em menor projeção, de outros insumos, não ocorrendo nas localidades alterações significativas na forma de produzir em virtude do processo de modernização que a agricultura passou após meados da década de 1960.

3.3.2 – (Re)organização da paisagem: a importância da pecuária leiteira

Como se verificou no quadro 03, a pecuária começa a ser adotada como atividade econômica nas comunidades rurais após meados da década de 1980, quando a produção agrícola já não gerava renda suficiente para o sustento da família.

Naquele momento, a pecuária não passou a ser adotada em todas as unidades de produção familiar e, mesmo aqueles produtores que a adotaram, o fizeram como uma atividade experimental. Isso porque, a criação de gado exigia e exige do produtor certos investimentos não disponíveis a todos, como para a compra de arames, palanques e animais (o gado), além da imobilização de áreas agricultáveis com a pastagem. “Trabalho até hoje [com a “lavoura branca”], mais a terra tá muito fraca, tá ruim de tudo aqui. O certo era eu te

aplicado no gado, mais eu não pudi aplicá na criação91 (J.B.C. 66 anos, Vila Rica, 19/19/99)”92. Neste contexto, essa atividade foi sendo inserida de forma tímida, sem muita

expressão, mas aos poucos ganhando novos adeptos.

As áreas dos sítios que não estavam sendo destinadas à criação de gado, tinham a produção agrícola como atividade principal. Todavia, devido ao fato dos produtores não adotarem a utilização de insumos para a recuperação da fertilidade dos solos, era comum até

91 Denominação dado pelos produtores à pecuária leiteira.

roça e queima da mesma e, em seguida, o plantio. A fertilidade conseguida com esta técnica tornava-se momentânea e relativa, durando no máximo três rotações de culturas, pois o tempo para a formação da capoeira não era suficiente para manter a fertilidade natural do solo, gerando uma boa serapilheira93.

Em outros trabalhos de campo realizados na localidade em 1999 (ALVES e TSUKAMOTO, 2000, p. 120), verificou-se a técnica de rotação de terras, na qual após a retirada da capoeira, introduzia-se cultivos como o milho, o feijão, o arroz, buscando assim, aumentar a produção possibilitada pelo “descanso” da terra. Já nos anos seguintes percebeu-se uma diminuição do pousio da terra e o aumento da pastagem, caracterizando o uso atual de 77,0% das terras no Pinhalzinho e 75,0% na Vila Rica.

Um produtor ao ser questionado sobre os motivos da redução da lavoura e do aumento da pastagem, com a criação de gado, afirma que:

Sinceramente, porque o grão vai indo, a terra tá fraca do jeito que tá, o adubo do preço que tá, a gente vai fazê uma análise de terra aí, pra sabê qual é o adubo, já querem cobrá 10 real pra fazê a análise. E se ocê pega um punhado aqui, outro lá, outro lá, leva lá num sei onde, o cara já cobrá 10 real pra fazê a análise da terra. Pra vê a qualidade do adubo pra colocá ali. Agora o adubo é um preço enorme, dependendo da qualidade do adubo. A gente vai adubá uma terra aí, as veiz o valor do que põe na terra, o mantimento não dá aquela importância, né, não compensa. E o pasto, pranta a grama, tá ali ó, ela não acaba, é só não dexá virá capoeira, ela não acaba, né! E põe gado de veis em quando, o bico vai pastando e vai criando cada veiz mais. Por enquanto o gado tá sendo mais lucrativo que a curtura

de grão (P. A. 79 anos, Vila Rica, 19/09/99)94.

Assim, a adoção da pecuária não é tomada como uma atividade que visasse um retorno financeiro elevado para o produtor, mas como um complemento da renda familiar, como uma espécie de reserva, poupança, com a reprodução do rebanho. Essa lucratividade mencionada pelo produtor, não pode ser vista como o lucro do capitalista, como “a razão da produção capitalista”, na qual se visa ampliar o dinheiro aplicado na produção de mercadorias, transformando-o em capital (KAUTSKY, 1998, p. 100). Isso porque, essa “lucratividade” viria uma vez que “a vaca cria, o bezerro cresce com seis mês, e a gente pode

93 Refere-se a matéria orgânica decomposta que ocorre no topo dos solos, podendo ser formada a partir de restos

de folhas, sementes, frutos, galhos e restos de animais que vivem em áreas florestais. “As bactérias e fungos são responsáveis pelo trabalho de decomposição da matéria orgânica. As minhocas também contribuem para a formação da serapilheira”. A matéria orgânica decomposta possibilita maior fertilidade do solo, além de diminuir o atravessamento e a lixiviação (GUERRA e GUERRA, 1997, p. 569).

bezerro de lucro [sic] e o leite” (P. A. P. A. 79 anos, Vila Rica, 19/09/99)95.

Essa forma de encarar a pecuária leiteira pelos produtores nas comunidades de Pinhalzinho e Vila Rica, mostra o por que eles não se especializaram, uma vez que os mesmo seguem uma racionalidade diferente do empresário capitalista. Isso porque, enquanto este busca auferir renda e lucro com a atividade agropecuária, aqueles visam com a pecuária leiteira uma renda, ou pelo menos o que eles conseguem reter da mesma para si, que complementa a sobrevivência da família no meio rural. Assim, ao venderem a produção leiteira e os bezerros, tais produtores vão realizar a troca do dinheiro conseguido por outras mercadorias não produzidas no sítio, necessárias a reprodução social no meio rural, e não reinvestem este dinheiro, transformando-o em capital.

Tendo como base este contexto da adoção da pecuária leiteira nas comunidades rurais, no qual percebe-se que esta atividade econômica passa a ser uma possibilidade de renda para o produtor familiar, buscar-se-á entender qual é a importância atual da mesma nas unidades produtivas.

Os dados da Tabela 18 dão um indicativo do quanto a terra é importante para a reprodução da produção familiar no campo, no sentido de proporcionar a constituição de um espaço produtivo que dê condições para o sustento da família, a terra de trabalho e não a terra de especulação. Deste modo, a maioria dos estabelecimentos abaixo de cinco hectares (dois num total de três no Pinhalzinho), por exemplo, não têm essa atividade, uma vez que para a adoção da mesma, o produtor teria de reduzir a produção agrícola, fonte principal do autoconsumo. No entanto, com o aumento do estrato de área, ocorre também a possibilidade relativa do aumento efetivo do rebanho bovino. No Pinhalzinho, no momento do trabalho de campo (março de 2003), das 956 cabeças de gado, 44,0% encontravam-se nos estabelecimentos de 50 a menos de 80 hectares, que representam 17,0% das UPFs. Na Vila Rica, das 409 cabeças, 68,0% estavam distribuídas no estrato de área de 20 a menos de 30 ha, responsável por 47,0% das UPFs.

O mesmo raciocínio serve para o efetivo bovino leiteiro (não especializado), no qual, das 166 cabeças para o Pinhalzinho, 53,0% encontra-se em unidades produtivas com áreas maiores, de 40 a menos de 80 ha. Na Vila Rica a concentração do rebanho bovino leiteiro nos sítios com maior área também é representativo, sendo de 55,0%.

Efetivo total do rebanho bovino e leiteiro por estrato de área

Pinhalzinho Vila Rica

Efetivo do rebanho Efetivo do rebanho leiteiro Efetivo do rebanho Efetivo do rebanho leiteiro Área (ha) Nº. % Nº. % Nº. % Nº. % Menos de 05 – – – – – – – – De 05 a menos de 10 33 4,0 6 4,0 26 6,0 8 10,0 De 10 a menos de 20 108 11,0 25 15,0 105 26,0 17 21,0 De 20 a menos de 30 32 3,0 4 2,0 278 68,0 55 69,0 De 30 a menos de 40 168 18,0 44 26,0 – – – – De 40 a menos de 50 193 20,0 25 15,0 – – – – Acima de 50 a menos de 80 422 44,0 62 38,0 – – – – Total 956 100,0 166 100,0 409 100,0 80 100,0

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

Tendo como base a Tabela 19, distribuição do rebanho bovino e leiteiro por UPF, constata-se que a maior parte das unidades produtivas do Pinhalzinho, ou seja, 71,0%, apresentam efetivo bovino de até 50 cabeças, não dispondo de elevado rebanho, uma vez que 59,0% dessas estão abaixo de 30 ha. As unidades produtivas com rebanho entre o estrato de 51 a 137 cabeças, estão acima de 40 hectares e representam a minoria, 29,0%. Todavia, mesmo em poucos sítios, a quantidade do rebanho é mais significativa nessas unidades produtivas. Na Vila Rica, a maior parte das UPF, 55,0% delas, têm de 21 a 50 cabeças, representando um efetivo bovino razoável para os índices da comunidade. A maior concentração do rebanho está nos sítios do maior estrato de área, 47,0% de 20 a menos de 30 ha.

Tabela 19

Distribuição do efetivo total do rebanho bovino e leiteiro por UPF

Pinhalzinho Vila Rica

Nº de

cabeças Nº de UPF c/ bovino

% Nº de UPF c/ gado leiteiro % Litros/leite mês Nº de UPF c/ bovino % Nº de UPF c/ gado leiteiro % Litros/leite mês Até 10 5 21,0 16 76,0 5.806 2 15,0 11 100,0 11.063 De 11 a 20 7 29,0 3 14,0 3.796 2 15,0 – – De 21 a 50 5 21,0 2 10,0 5.050 7 55,0 – – De 51 a 80 3 12,5 – – – 2 15,0 – – De 81 a 110 3 12,5 – – – – – – – De 111 a 140 1 4,0 – – – – – – – Total 24 100,0 21 100,0 14.652 13 100,0 11 100,0 11.063

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

nas comunidades rurais, a maior parte dos sítios, ou seja, 76,0% no Pinhalzinho e 100,0% na Vila Rica, dispõe de um rebanho de até 10 cabeças. Deste modo, mesmo naquelas unidades de produção com o rebanho bovino mais significativo, não ocorre um número proporcional de vaca ordenhadas. Aliás, isso acaba sendo uma constatação geral, uma vez que apenas 17,0% do efetivo bovino do Pinhalzinho e 19,5% da Vila Rica estavam no momento da realização do trabalho de campo (março de 2003) no período de ordenha. Nesse contexto, 40,0% da produção de leite/mês no Pinhalzinho é fornecida por essas unidades produtivas com até 10 cabeças. Na Vila Rica, o índice é de 100,0%. Essa diferença do total do rebanho para as vacas leiteiras produzindo não é atípico, pois nem todo o efetivo bovino é leiteiro, tendo os bezerros, as novilhas fora do ciclo de reprodução, as vacas prenhas e não prenhas. E, mesmo o efetivo leiteiro, segue o ciclo natural de reprodução, não havendo uma intensificação do ciclo produtivo por meio de melhoria genética ou inseminação artificial.

Um ponto que chama a atenção para a produção leiteira no Pinhalzinho se refere ao fato de duas unidades produtivas apresentarem uma produção de 5.050 litros/mês, ou seja, 34,50% da produção total dessa comunidade. Isso ocorre, não por que o rebanho é especializado, mas o número de cabeças é mais elevado, tornando a produção (e não a produtividade) maior.

O gado leiteiro nas unidades produtivas das comunidades rurais de Pinhalzinho e Vila Rica, como pode se observar nas Fotos 06 e 07, não constitui-se num rebanho especializado, composto por exemplo, de vacas Holandesas e Girolandas, pelo contrário, é um gado misto, sem raça definida, denominado pelos produtores como “pé duro”. Esse gado, conseqüentemente, apresenta uma baixa produtividade. No Pinhalzinho, a média obtida por unidade produtiva é de 697 litros/leite/mês e, na Vila Rica, o índice é mais significativo, 1.005 litros/leite/mês. No entanto, nas duas comunidades rurais a produtividade média é baixa, sendo de 3 litros/leite/dia na primeira e, de 4,6 litros/leite/dia, na segunda.

Essa baixa produtividade da pecuária leiteira se explica pelo sentido dado pelos produtores para esta atividade, ou seja, de não se especializarem na produção leiteira, mas que a mesma contribua para a reprodução social da família no campo. Assim, com a criação de um gado não especializado no leite, os produtores embora mantenham uma baixa produção, têm a possibilidade de vender o bezerro, pois a caraterística genética do rebanho permite obter animais machos que podem ser comercializados para engorda e para o abate. A venda de bezerros é um diferencial, uma vez que a mesma possibilita recuperar os baixos preços recebido pela produção de leite.