atestado, abonou! Você perde aquela educação que você tinha.
Ele estabeleceu um paralelo marcando as diferenças que percebeu entre suas experiências de trabalho no setor privado e público. A “falta de regras” dentro da Empresa K foi um elemento que lhe causou um grande estranhamento. Mesmo tendo indicado anteriormente os impactos nocivos que as regras rígidas e a pressão por produção do setor privado geraram à sua saúde, Rafael também percebeu como prejudicial a “falta de regras” que encontrou no serviço público, segundo ele: “prejudicou assim, porque você não tem cobrança, você não sabe como pode fazer certas coisas, não tava acostumado e isso me prejudicou”.
Ao que nos parece, ele admite que os dois contextos de trabalho prejudicaram-no, tanto na situação de rigidez e cobrança extrema da iniciativa privada, quanto na flexibilidade excessiva da Empresa K. As duas formas de organização do trabalho parecem ter sido nocivas para ele. A organização flexível do trabalho na Empresa K, por exemplo, permitiu que ele fosse “relaxando” e retomasse o uso do álcool:
Serviço público eu vou te falar com você uma coisa, não é metendo a ripa não, mas é um serviço que me prejudicou. Diz que não tem a seriedade, pessoal
relaxa, dois, três dias já era. Assim, você relaxa tudo, o ser humano ele não pode... ele não pode relaxar. E foi aí que eu fui entrando, não é que eu tô culpando lá não, lógico que não, cada um tem a sua, né? Mas eu tô falando, aí começou e eu usei álcool lá. Mas aí, mas foi aonde que o homem é produto do meio, você sabia disso? Não tô generalizando, mas vão supor, se já tem a
predisposição pra bebida, chega num ambiente desse! Então, aí foi onde que
eu comecei!
É interessante ressaltar que a organização flexível do trabalho, em geral, é considerada positiva para a saúde dos trabalhadores (MONIZ, 2002). Entretanto, no caso dele, foi percebida como negativa, possivelmente por sua grande dificuldade de encontrar em si mesmo as referências para balizar sua conduta, visto que este balizamento era quase sempre externo. Sem a existência de uma regra externa clara para controlá-lo e estabelecer as diretrizes de comportamento que ele deveria adotar, ele parecia “ficar perdido”.
Rafael estava em abstinência ao entrar nesse novo contexto de trabalho como servidor público e não encontrou, por parte da empresa, uma política clara de controle do uso do álcool pelos servidores. A entrada na Empresa K foi decisiva para o agravamento do seu consumo nocivo de bebidas alcoólicas e de sua dependência do álcool, pois lá encontrou
um contexto em que, segundo relatou: “você pode tomar o álcool. Foi um divisor de águas também pra mim a Empresa K, eu falei: “Ou eu vou trabalhar, ou eu vou beber””.
3.1.5.2 “A máfia da cana” - a grande disponibilidade do álcool e as estratégias de consumo
Rafael contou que ao entrar na Empresa K “estava parado com o álcool” e motivado em aprender o novo trabalho. No entanto, manter-se abstinente não foi possível, segundo ele, devido à grande oferta de bebida existente no local de trabalho e o assédio dos colegas. Ele sugeriu que a grande disponibilidade de bebida no local de trabalho20, o que ele chamou de a “máfia da cana”, foi um elemento prejudicial para ele:
Igual eu quando entrei lá eu tava parado, aí depois de um dia, dois dia [os outros mecânicos] te fala: “oh, se cê gosta de tomar uma.” Aí, já vem a facilidade, é
tipo uma máfia: “aí, sô, se você gosta de uma?” Cê vai resistindo, mas isso aí
não foi dando certo pra mim, algumas vezes eu conseguia trabalhar, desenvolver o trabalho. Mas depois lá pra mim não foi benéfico, não é benéfico porque lá a facilidade de ter o álcool é demais. Por isso que eu falo, a oferta tem isso lá também, tem o ambiente que cê trabalha. Quando eu entrei na Empresa K pegou mais porque tinha [álcool] em todo lugar, em todo lugar tinha. Facilidade que
tinha, foi aonde que aí que uniu mesmo a bebida, serviço. Porque aí você tem todo dia, aí comecei a beber.
Ele relacionou também o uso do álcool com a busca de alívio para o estresse e para as tensões que sentia na realização da atividade, ressaltando que “não é na Empresa K que eu aprendi a beber não, eu já tinha o exemplo que o álcool era um calmante”. Como já vimos em sua trajetória, esse uso funcional da bebida já havia sido descoberto antes, ao tentar superar as dificuldades encontradas em outras experiências profissionais.
Com o passar do tempo, Rafael revelou que foi se familiarizando com essa relação entre o trabalho e álcool na Empresa K. À medida que perdia o “limite” no uso do álcool, percebia que entrava em um processo de “descaracterização” que fazia com que deixasse o trabalho de lado. O somatório desses novos fatores: a “máfia da cana”, a inexistência de “um chefe” no serviço público e a falta de cobrança por produção, contribuíram, segundo ele afirmou,
20
Como já apontamos anteriormente, entendemos que o fato de existir uma grande disponibilidade do álcool no local de trabalho não pode ser entendido como o principal fator de risco para desencadear ou desenvolver o quadro de alcoolismo no ambiente de trabalho. Tal disponibilidade do álcool é apenas mais um dos inúmeros fatores presentes na história de Rafael e que nos auxilia na compreensão das relações entre o uso de bebidas alcoólicas e seu contexto de trabalho.
para o aumento gradativo do uso de álcool e intensificaram o seu processo de “descaracterização”.
O que Rafael resumiu como “descaracterização” pode ser entendido como uma série de mudanças de atitudes e comportamentos que ele adotou após sua entrada na Empresa K. Como estava acostumado com o estabelecimento de regras rígidas pelas empresas onde havia trabalhado, quando chegou à Empresa K ficou “desorientado” por não ter regras para seguir. A liberdade de ir de um setor a outro durante o expediente de trabalho, a facilidade de justificar as faltas e os atrasos com atestados médicos, a grande disponibilidade de álcool na empresa e não ter que trabalhar com a “cobrança por produção”, foram elementos novos na sua vivência profissional. Veremos mais à frente, que esse processo de descaracterização também envolveu uma desvalorização dos seus conhecimentos técnicos como mecânico e a reduzida possibilidade de crescimento profissional, elementos que lhe causaram sofrimento. Mas antes, apresentaremos alguns elementos de regulação coletiva do consumo de bebidas dentro da Empresa K.
3.1.5.2.1 As estratégias de organização da “máfia da cana”
A “máfia da cana” possuía um sistema próprio de regulação que incluía estratégias individuais e coletivas para permitir o consumo de bebida durante o horário do serviço. Rafael relatou que já usou de várias estratégias para beber durante o horário de trabalho e/ou para disfarçar que estava embriagado. Ele revelou que existe uma logística para fazer o uso da bebida no trabalho:
Você podia inventar, falava o caminhão tá com isso, tá com aquilo. Quando eu entrei lá não, tinha álcool em qualquer lugar, embaixo do caminhão, perto da árvore. Agora, hoje já, hoje nem sei mais onde é que tem e tal. Lá tem a logística lá eh... caminhão velho lá embaixo, é uns caminhão velho, cê vai lá pra deitar dentro do caminhão cê nem sabe onde é que cê tá. Escondido entre o motor e o caminhão cê tá entendendo?
Atualmente, ele utiliza a doação de sangue no hemocentro local como uma estratégia para manter-se abstinente. No entanto, quando começou essa rotina, a doação de sangue era um mecanismo para “ganhar o dia” de trabalho:
Eu dôo sangue no Hemominas tem 10 anos, quer coisa melhor pra uma auto- estima? Pôxa, sou doador de sangue! E lembro uma vez também que serviu também como mecanismo... Eu tava doando né justamente pra beber sabe,
pra não ir trabalhar, ganhava o dia entendeu? Então, isso aí... a doação de...
Já ia falar doação de álcool, olha pra você ver! [risos] A doação de sangue.
Também existiam as estratégias coletivas para possibilitar o uso do álcool durante o expediente de trabalho. Havia uma série de códigos para sinalizar o pedido de auxílio ao outro colega de trabalho e locais específicos para ficar enquanto estava alcoolizado. Também existia uma rede de apoio entre os mecânicos, especialmente entre os que faziam o uso do álcool dentro da Empresa K, de forma que um mecânico “cobria o serviço do outro” quando estava alcoolizado:
Um colega meu lá, de vez em quando ele toma, aí, ele ia lá dormir e eu ia fazer o serviço dele e vice-versa, se ele soubesse também que eu tava sabe, meio assim oh, aí, já [fala para o outro mecânico]: “oh, tô ali no caminhão e tal, qualquer coisa cê me rende”. Então, é um código, cê tá entendendo a facilidade? Tem um outro lá que tá lá mexendo passa e oh [faz sinal com a cabeça indicando o canto da sala], tem código. É coisa que não tem jeito de acabar. Igual um colega meu lá falou assim: “se gritar pega ladrão aqui, um vai agarrar no outro”, entendeu?
As estratégias de organização e regulação da “máfia da cana” sinalizam o quanto é marcante a rede de suporte entre tais trabalhadores. Também demonstram a importância e a força do grupo de trabalho como elemento que pode desencadear, manter ou intensificar o uso de bebidas alcoólicas.
3.1.5.3 “Suicidar-se aos poucos” - a desvalorização do saber e a falta de perspectivas de crescimento profissional
Passaremos a entender agora outro elemento que Rafael considerou como agravante para o seu aumento de consumo de bebidas alcoólicas na Empresa K. Já descrevemos como foi o processo de adaptação ao novo trabalho e às formas de uso do álcool presentes nesse contexto. Acrescentaremos agora como ele percebeu a desvalorização dos seus conhecimentos e a falta de perspectiva de crescimento profissional.
A habilidade de Rafael em desenhar foi um elemento que contribuiu para sua adaptação nessa nova empresa. Inicialmente, teve algumas possibilidades de colocar em prática suas habilidades como desenhista, aproximando-se das experiências profissionais anteriores na área de ajustagem mecânica em que utilizava suas habilidades para desenhar e projetar.
Seu interesse pelo conhecimento e o alto nível de cobrança pessoal e profissional foram importantes fatores para esse processo de adaptação na área de manutenção mecânica dentro da Empresa K. No entanto, tal adaptação não ocorreu sem dificuldades. Com pesar, Rafael falou como sentiu que muitos de seus conhecimentos e habilidades, adquiridos na formação profissional no SENAI, foram desvalorizados:
Meu negócio era desenho, cheguei lá o negócio tudo no giz. No giz! Isso aí, pra mim que era um mecânico que ia lá, tal, tinha que fazer o desenho, traçar tudo na medida. E não ter como consertar esse erro. Falavam: “pô, aqui
você tá é na Empresa K”. Tipo assim, pode fazer de qualquer jeito tá bom. Eu
trabalhava numa mecânica mais sofisticada, mais precisa sabe? Não era assim,
eu não era mecânico de campo, eu era um mecânico mais detalhista, né? Pra mim fazer um eixo ali, eu tinha que fazer os desenhos.
Ele ilustrou como foi o seu “choque” quando efetivamente percebeu qual era a nova realidade de trabalho em que teria de se enquadrar, um misto de improviso e desvalorização do que tinha aprendido:
Chegando lá [na Empresa K], achei aquilo estranho, tinha um soldador trabalhando na peça, eu falei: “vou traçar direitinho para você tá?”. Ele falou: “que traçar o que?” Ele foi lá pegou o giz e zap! Falei: “meu Deus do céu!” Eu
era acostumado a fazer serviços precisos, então foi um choque que levei, eu ia pegar um compasso, fazer a medida do diâmetro, né? O cara pegou o giz e
vrum, e ainda fala: “isso aqui é assim mesmo!” Aquilo ali para mim foi um
choque, foi como se meu conhecimento como mecânico não tava valendo nada. Perguntei: “puxa, aqui é assim?” Os colegas [falaram]: “meu filho, agora
você tá no serviço público”.
Rafael sentia-se inapto para atender a algumas demandas de sua nova atividade na mecânica de manutenção. Avaliou que primeiro deveria ter recebido um treinamento da empresa para somente depois “ser introduzido no campo”. Segundo ele, um efeito desse aprendizado realizado “na marra” é que muitos mecânicos não possuíam alguns fundamentos técnicos necessários para a realização da atividade de manutenção. O efeito acumulativo dessas “coisinhas” que vivenciou na Empresa K, parece ter abalado sua estrutura psicológica: