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The impact of using different parameterization models for one problem 14

Como foi visto nos conceitos de P&D das principais pesquisas internacionais, o termo “sistemático” está presente na maioria das definições. A discussão acerca do que se considera sistemático, na conceituação de P&D, é especialmente importante à medida que se analisa o setor de serviços, tendo em vista a escassez de departamentos específicos de P&D no setor.

Desta forma, o termo sitemático imprime restrições à identificação e mensuração das atividades de P&D no setor. O Manual Frascati (OCDE, 2002) que serve de base para as principais pesquisas referentes à P&D traz uma definição bastante ampla do que é identificado como sendo atividades de P&D e, a priori, não a restringe às atividades formais de criação e difusão de conhecimento. No entanto, como argumentam Djellal et al (2003), ao “sistematizar” a produção de conhecimento, o Manual Frascati exclui a possibilidade de serem considerados os processos de aprendizado “automáticos”, que produzem P&D despropositadamente e de forma desorganizada. Assim, tanto o Manual Frascati, como o Manual de Oslo25

25 O Manual de Oslo (OCDE, 1997) é outra referência em pesquisas internacionais. É um guia para pesquisadores e

instituições com relação aos aspectos a serem considerados na coleta e interpretação de dados de inovação tecnológica.

e tecnicista do conceito de P&D.

Quando se tenta melhor elucidar a representação de um processo “sistemático”, uma análise detalhada do Manual Frascati (OCDE, 2002) não traz explicações claras quanto à delimitação do termo “sistemático”. Contudo, um exame dos manuais precedentes indica algumas nuances. Como descreve Godin (2001), na 4ª revisão do Manual Frascati houve esforços para excluir ou melhor definir o termo. Foram propostos sinônimos tais como “trabalho realizado sob uma base permanente ou organizada”, mas tais sugestões nunca foram aceitas. Todavia, como prossegue o autor, o termo “pesquisa”, por si só, já tem suas origens em uma atividade sistemática, quer seja, o ato de “examinar muito”, de forma “cuidadosa” e “de perto”, ou de forma “intensiva”. As similaridades entre os termos, não proporciona grandes avanços.

Com o objetivo de entender a sistematização das atividades de pesquisa, Godin (2001, p. 2- 3) analisa o termo a partir de três proposições: primeiro, o significado de sistemático nas definições de pesquisa deveria ser entendido como um método científico, como uma maneira de fundamentar a idéia de se reconhecer a pesquisa institucionalizada, contínua, e não individual. O autor então critica que os objetivos das pesquisas eram de reconhecer a atividade de pesquisa nas instituições, definidas a partir de seu setor econômico (classificadas pelo NAS, sigla inglesa para Sistema Nacional de Contas). Além disso, o autor chama a atenção para o fato de que alguns setores não são analisados na sua totalidade. Apesar de Godin (2001) ter se baseado no Manual Frascati de 1993, para fazer tal afirmativa, a última versão, de 2002, ainda apresenta deficiências. Uma delas se vincula à diversidade de empresas que compõe o setor privado, o que impede que sejam consideradas todas as empresas. Desta forma, o Manual (OCDE, 2002) sugere que se considere duas possibilidades de composição da amostra: mensurar as pesquisas realizadas nas grandes empresas e definir uma amostra de pequenas empresas, ou pesquisar as empresas conhecidas por ou que declaram produzir P&D. A primeira possibilidade não cobre a totalidade das pequenas e médias empresas, que devido à sua diversificação, podem produzir volumes de P&D muito diferenciados. Tal problemática poderia levar à subestimação da P&D produzida nas pequenas e médias empresas (KLEINKNECHT, 1987; RENESER, 2006). Já a possibilidade de serem pesquisadas as empresas conhecidas por ou que declaram produzir P&D recai no problema de serem consideradas apenas as atividades de P&D que tendem à formalidade. Esta constatação é sustentada quando se verifica os fatores que determinam a inclusão das empresas na lista daquelas “conhecidas por” ou “que declaram” produzir P&D, nas especificações que definem os métodos e procedimentos de pesquisa relacionados ao setor privado. Segundo o Manual (OCDE, 2002, p. 128), a lista seria formada por:

empresas que recebem recursos governamentais ou possuem contratos de P&D, listas de empresas que relatam atividades de P&D em pesquisas de P&D anteriores, pesquisas de inovação ou outras pesquisas, listas de laboratórios de P&D, membros de associações de

pesquisa industrial, empregados altamente qualificados e listas de empresas que demandam deduções fiscais de P&D.

Esta especificação parece delimitar muito as possibilidades de alguns setores identificarem e mensurarem suas atividades de P&D, em virtude da necessidade de formalização das atividades de P&D ao citar contratos, laboratórios e deduções fiscais de P&D. A pesquisa de Kleinknecht (1987)26

A segunda proposição de Godin (2001, p. 2-3) relacionada aos equívocos referentes ao termo “pesquisa sistemática”, está vinculada “à utilização do (moderno) instrumento utilizado na mensuração da pesquisa e suas limitações, chamado de pesquisa”. Esta idéia estaria vinculada à noção de pesquisa científica, comum nas ciências naturais, em que experimentos são realizados para comprovar uma verdade científica a ser generalizada. Esta atividade deveria ser executada por indivíduos que dedicariam um período de tempo significativo de seu trabalho, para desenvolver atividades com base em um programa de trabalho, sendo que uma certa quantidade de recursos financeiros deveriam ser especificamente alocados para esse trabalho. Além disso, para tentar diferenciar o que faziam os inventores, do que era pesquisa, a introdução do termo “sistemático” permitiu “organizar” os esforços que produziriam as descobertas e a solução dos problemas.

, por exemplo, demonstrou as diferenças nos resultados das pesquisas de P&D, quando a mesma toma limites não convencionais. O autor, ao investigar empresas com a seguinte pergunta: “Alguma atividade de P&D foi realizada na sua empresa em 1983, mesmo que você não tenha um departamento formal de P&D?”. Ao investigar empresas entre 10 e 49 empregados, o autor encontrou uma queda de 13,7% na participação das grandes empresas na produção de P&D na Alemanha. Os resultados da pesquisa de Kleinknecht (1987) demonstram pelo menos duas fragilidades das delimitações ainda impostas pelo Manual Frascati (OCDE, 2002): uma certa tendência em vincular a coleta dos dados à atividades de P&D formais e os riscos em se negligenciar a capacidade das pequenas e médias empresas, na produção de P&D, ao fazer estimativas com base em uma amostra delimitada.

A terceira proposição de Godin (2001) está vinculada à industrialização da pesquisa. O fato das primeiras pesquisas dedicadas à inovação e P&D terem sido realizadas no setor industrial influenciou a série de pesquisas e questionários que foram surgindo ao longo dos anos. Além disso, como os sub-setores eram muito diversificados, delimitações foram necessárias. Também, devido aos custos das pesquisas, as empresas investigadas eram aquelas com maior desempenho, as quais

26 Em pesquisa realizada pelo autor, utilizando a classificação da OCDE, as grandes indústrias alemãs eram

responsáveis por 91% da P&D produzida (de acordo com o número de profissionais por ano envolvidos nas atividades de P&D). Contudo, ao adicionar à pesquisa as empresas que possuíam entre 10 e 49 empregados (que não estavam cobertas pela pesquisa oficial da época), a contribuição das grandes empresas caiu para 77,3% da P&D, enquanto que as empresas que possuíam entre 10 e 49 empregados eram responsáveis pelo restante da P&D produzida no país.

eram grandes empresas, com laboratórios de pesquisa (pesquisa organizada). Apenas uma amostra das empresas que tinham baixo desempenho eram investigadas, mas isso nem sempre era realizado.

As sugestões de Godin (2001) tentam explicar a utilização frequente do termo “sistemático” relacionado às atividades de P&D. No entanto, parece que mais importante que as justificativas relacionadas ao uso de “sistemático”, são suas consequências para a identificação e mensuração das atividades de P&D, tanto no setor industrial, como no setor de serviços. Como explica o autor, a definição teve efeitos negativos nos dados coletados, sendo o mais importante deles, a subestimação da P&D. Além disso, os vieses relacionados às pesquisas, que identificam e mensuram as atividades de P&D, estão intimamente vinculados à inexistência de departamentos de P&D específicos, que parecem dificultar ainda mais a investigação sobre o desempenho dos setores.

Apesar dessas dificuldades, as pesquisas internacionais avançam, mas a utilização do termo “sistemático” é recorrente. Com exceção do questionário da CIS (CIS, 2004), o termo é citado em todas as outras pesquisas analisadas aqui. No Manual de Bogotá o conceito de P&D traz a especificação de “sistemático”, mas o formulário não faz qualquer menção à palavra (RICYT, 2001). Já a BRDIS (2008) utiliza o termo “planejado” para a definição geral e “sistemático” no que tange ao desenvolvimento. Posteriormente, ao questionar quanto à quantidade de pesquisa produzida e de desenvolvimento realizado nas dependências da empresa, o questionário faz as seguintes perguntas: “Qual o percentual de P&D realizado pela sua empresa...que foi de Pesquisa – planejada, busca sistemática de novos conhecimentos e saberes?”; e quanto ao desenvolvimento: “Qual o percentual de P&D realizado pela sua empresa...que foi de Desenvolvimento – sistemático uso de pesquisa e experiência prática para produzir bens, serviços ou processos novos ou significativamente melhorados?” (BRDIS, 2008, p.25). No formulário da PINTEC (IBGE, 2008), o conceito de P&D apresenta o termo “sistemático”. As instruções também definem a necessidade de “projetos, com orçamento e objetivos específicos”, contudo, no mesmo parágrafo explica que os projetos podem ser informais, “com a alocação integral ou parcial de técnicos” (IBGE, 2009, p. 17). Ainda que o termo “sistemático” não seja sinônimo de “formal” na língua portuguesa, já há uma certa idéia de que ao “organizar” (este sim sinônimo de sistematizar), os elementos que constituiriam esta organização estariam descritos em algum projeto formal. No formulário de pesquisa do MESR (2008, p. 2), o termo “sistemático” é citado na definição de P&D, mas no parágrafo posterior, o que se entende por sistemático é descrito: “os trabalhos realizados de forma sistemática são aqueles que envolvem o mínimo (grifo nosso) de organização e meios”. A explicação, ainda que sucinta, parece isentar a formalização de um projeto ou de um departamento, tendo em vista a “mínima” organização necessária.

origem das definições dos manuais e instrumentos de pesquisa acima expostos, a sistematização das atividades de P&D parece estar vinculada à existência de um “projeto de P&D”. Ao tratar de procedimento e metodologia de pesquisa (Seção 7), o Manual descreve que no setor privado “a condição de ‘trabalho criativo realizado sob uma base sistemática’ é cumprida por um projeto que tenha objetivos e orçamento específicos” (OCDE, 2002, p.27-8). Ao longo do Manual, o termo “Projeto de P&D” é citado diversas vezes, o que parece indicar a necessidade da formulação de um projeto, para que se possa identificar a existência concreta, ou sistemática, de atividades de P&D.

Porém, o Manual não estabelece quais são os critérios necessários para caracterizar um “projeto”. Com base nas discussões até aqui realizadas, entende-se que, para um projeto ser classificado como sendo de P&D, ele precisa objetivar um esforço de análise cuidadosa, baseado na indicação de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, que irão mobilizar conhecimentos e competências, durante um período passível de ser determinado, para, a priori, resolver um problema. Mas, diante das possibilidades do problema ser resolvido a partir da mobilização da base de competências e/ou base de experiências, como descrito por Guilhon e Gianfaldoni (1990), Guilhon (1992) e Gallouj (2002a), entende-se que este projeto poderia ser definido como um projeto científico, administrativo ou, até mesmo, um plano de trabalho para atingir um objetivo específico.

Desta maneira, o que importa é que se possa diferenciar tais atividades de mobilização de competências da simples geração de conhecimento por meio de aprendizagem natural ou rotineira. Neste sentido, seria interessante demarcar o momento em que as pessoas se reúnem, com o “mínimo” de organização (como sugerido pelo MESR, 2008), para mobilizar tais competências em torno da resolução do problema. Este momento poderia ser denominado de t0, o início do projeto, sendo que no tempo t1, deve-se ter aumentado o estoque de conhecimento sobre as disciplinas e operações envolvidas no projeto, necessário ao alcance dos objetivos ou à resolução do problema.

A discussão até aqui realizada não tem por objetivo indicar a exclusão da palavra “sistemático” da definição de P&D. Mas, ao contrário, busca entender as origens do termo, como bem exposto por Godin (2001), e até mesmo achar alternativas que não engessem o seu uso. Neste sentido, parece que a explicitação do que é entendido por “sistemático”, como realizado na França (MESR, 2008) e a definição do que seria considerado um “projeto”, seria a melhor opção para evitar subestimações nas pesquisas, especialmente no setor de serviços.