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4. Findings and Discussion

4.1. Impact of shared values

4.1.1. The impact of Trust

Em muitos aspectos há uma convergência entre os pensamentos de Niklas Luhmann e de Maturana e Varela, pois se caracterizam pelo funcionalismo sistêmico e se fundam na cibernética de segunda ordem. Considerando a inovação, ou mesmo ousadia paradigmática das proposições teóricas de Luhmann, nos parece lógico que a sistêmica e a cibernética tenham contribuído para a formação de seu pensamento, já que surgiram como reação ao esgotado reducionismo científico cartesiano que, a partir de certo momento, não conseguia mais dar conta da complexidade do mundo. As perspectivas teóricas de Luhmann surgem num momento em que a busca por novos paradigmas científicos já era uma demanda premente, especialmente das ciências sociais. Logo após, com o contexto da hipermodernidade, isso se tornou imprescindível.

Dentro de uma orientação construtivista radical, Luhmann aplicou e aprofundou o conceito da autopoiésis para a elaboração de uma ampla teoria social na qual considera, e de modo bastante enfático, o sistema dos meios de comunicação como o operador central para o funcionamento e compreensão da sociedade. Isso se deve ao seu entendimento de que os fenômenos do mundo social são interdependentes e formam um sistema social no qual a comunicação cumpre funções muito específicas de fazer a sociedade realizar-se como tal. Suas teses são demasiadamente densas e complexas e vamos aqui apresentar algumas de suas premissas e discutir aqueles conceitos mais fundamentais à construção teórica da nossa tese.

Em Luhmann é bastante evidente essa ideia e sua teoria parte de uma distinção, para ele fundamental, de que “os sistemas vivos se baseiam na vida, os sistemas psíquicos na consciência e os sistemas sociais na comunicação. Os sistemas conscientes não são sistemas vivos, os sistemas sociais não são sistemas conscientes. Entretanto, cada um deles pressupõe o outro como parte de seu entorno” (1998, p. 30). Cada um desses sistemas está baseado em elementos diferentes e se organizam internamente segundo suas dinâmicas próprias e não poderiam, por essa razão, integrarem um mesmo sistema abrangente. Luhmann reafirmava, assim, o fundamento de que cada sistema está contido em si mesmo:

O conceito de autopoiésis traz consigo, necessariamente, o dificultoso e frequentemente mal interpretado conceito de sistema operativamente fechado. [...] é evidente que não pode significar isolamento causal, nem autarquia, nem

solipsismo cognitivo, como os seus contraditores frequentemente têm suposto. Este conceito é, antes, uma consequência forçosa do fato trivial (conceitualmente tautológico) de que nenhum sistema pode operar fora dos seus limites. (Luhmann, 1998, p. 55)

De fato, por esses pressupostos sistêmicos autopoiéticos sua concepção de sociedade, enquanto um sistema social, não poderia incluir o indivíduo, enquanto um sistema psíquico. Assim, a sociedade somente pode ser compreendida a partir daquilo em que se baseia e que a constitui como sociedade, ou seja, das comunicações. O indivíduo, como uma unidade psíquica, uma subjetividade, opera processos de consciência e não poderia ser considerado para explicar outro sistema, a sociedade. Luhmann rejeita, igualmente, a ideia de intersubjetividade, pois “o ‘inter’ contradiz o ‘sujeito’, ou dito com mais exatidão, cada sujeito tem sua própria intersubjetividade” (Luhmann, 1998, p. 32). A intersubjetividade se realiza pelas operações de consciência, ou seja, são internas aos sistemas psíquicos e não poderiam, portanto, explicar como se realiza a sociedade. Essa perspectiva, a que muitos chamaram de “sociedade sem pessoas”, encontrou forte resistência de outros teóricos de tradição humanista, em especial Jürgen Habermas, com quem travou um profundo e intenso debate intelectual19

. Sobre a abordagem de Habermas para explicar a sociedade a partir da concepção de intersubjetividade, Luhmann criticou duramente tal impossibilidade afirmando que “a intersubjetividade não é uma alternativa da subjetividade” (Luhmann, 1998, p. 32).

A sociedade é uma sociedade enquanto se mantiver “como um sistema social autopoiético, consistente de comunicações e reprodutor de comunicações por meio de comunicações” (Luhmann, 1998, p. 32). Pensar o indivíduo a partir de sua unidade como um sistema psíquico forçosamente nos leva a observar que o conceito de sociedade somente é possível a partir do que coloca os indivíduos em relação, as comunicações. Para ele, entender como opera o sentido em um mundo complexo não é possível se considerarmos a sociedade a partir da perspectiva que pensa os “seres humanos como entidades conduzindo- se dentro de um entorno”.

É interessante observar em seu trabalho como os conceitos são coerentes e reiteram sua abordagem sistêmica como ferramenta conceitual para compreender a complexidade. Em Luhmann, o sentido é intrínseco à autopoiésis, pois é o fundamento das operações de

19 Tal debate foi reunido no livro: HABERMAS, J.; LUHMANN, N. Theorie der gesellschaft oder sozialtechnologie.

autorreferenciação. Há algo que ele enfatiza e que é preciso ter com muita clareza e exatidão: um sistema não é um tipo de objetos, mas sim que um sistema é a forma de uma distinção particular entre sistema e entorno, ou seja, entre o interior da forma e o exterior da forma. E “somente as duas faces juntas constituem a distinção, a forma, o conceito. Portanto, o entorno é para esta forma tão importante, tão indispensável, como o sistema mesmo” (Luhmann, 1998, p. 32). Assim, os sistemas realizam operações de autorreferenciação, recursivamente afirmando sua identidade, que é um sentido possível e contingenciado, mediante uma diferença com o entorno. A relação entre sistema e entorno, portanto, é sempre uma operação de sentido e justamente essas operações de sentido que garantem sua neguentropia. Dessa distinção depende a existência do sistema.

Exatamente nesse ponto que a autopoiésis se articula com outras teses cognitivistas. Não há uma negação do mundo concreto, de um mundo real, pois por pressuposto sistêmico, deve existir um meio externo que assegure a possibilidade de existir uma diferenciação que define o sistema. Há sempre um meio externo, um entorno do sistema, mas que este somente o percebe como irritações às quais reage por interpretações seletivas. Esse mundo externo, o entorno, se dá ao sistema não como objeto, mas como algo intangível, inacessível, de modo fenomenológico. Por isso, afirmou Luhmann, “não sobra nenhuma outra possibilidade senão construir a realidade” internamente ao sistema por meio de operações de sentido.

A realidade, por ser uma construção cognitiva, não é uma qualidade dos objetos do entorno, do mundo real. Nessa perspectiva observamos uma forte aproximação com a sociofenomenologia. Em Schütz, o conceito de mundo da vida refere-se sempre ao mundo de alguém, e pensado de modo sistêmico, a realidade sempre será a realidade para alguém, pois o real é o horizonte intangível ou o entorno do sistema psíquico pertinente ao indivíduo, que construirá, por diferenciação, um correlato interno. Portanto, o mundo é sempre o mundo de alguém, porque na verdade é um sentido de mundo, seletivamente contingenciado por operações de diferenciação. E é por esse mesmo princípio sistêmico que se pode afirmar que o sentido jamais se transfere, mas que se produz internamente no âmbito do reconhecimento.

Retomando aspectos iniciais, a teoria social de Luhmann que entende a sociedade como sistemas baseados em comunicações é uma resposta ao que ele acreditava ser o problema central da sociologia até então: a dificuldade, ou incapacidade, em definir seu objeto (Luhmann, 2006, p. 5-21). Ele atribuiu muito disso aos conceitos de sociedade herdados de antes da constituição da própria sociologia como disciplina, mas também a uma visão humanista que pensava a sociedade em função de uma noção de centralidade da individualidade. A dificuldade da sociologia em definir conceitualmente o objeto chamado “sociedade” era para ele tão grave que a tornava incapaz de tratar os sistemas altamente complexos e diferenciados. E isso teria ficado ainda mais evidente com a reconfiguração e complexificação dos processos sociais na hipermodernidade.

Várias dessas concepções de Luhmann serão apropriadas e desenvolvidas no próximo capítulo, na construção da teorização sobre as comunicações das marcas contemporâneas.