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Impact of baseline coronary flow and its distribution on fractional flow reserve prediction

591 CERRADO 592 593 RESUMO 594

O Cerrado, principal savana neotropical, possui elevada biodiversidade, e grande

595

diversidade de paisagens. O elevado valor biológico do bioma é consequência de um

596

isolamento geográfico de outras savanas, das condições climáticas atuais e pretéritas e da

597

distribuição de diferentes formações vegetais em forma de mosaico, além da influência dos

598

demais biomas da América do Sul. Determinar os padrões espaciais da biodiversidade é

599

fundamental na biogeografia, especialmente para priorizar pesquisas biológicas e direcionar

600

políticas de conservação. Algumas propostas de subdivisões foram realizadas no Cerrado, no

601

entanto ainda há necessidade de agregar novas informações a essas propostas. Nossos

602

objetivos foram delimitar os Distritos Biogeográficos (DB) do Cerrado com base na similaridade

603

de comunidades de plantas arbóreas. Utilizamos uma base de dados ampliada e revisada,

604

caracterizamos os DB em relação ao clima, espécies indicadoras e estado de conservação.

605

Identificamos sete DB, dos quais os três das regiões extremas do Cerrado, apresentaram

606

maiores dissimilaridades em relação aos demais. Esses DB apresentaram, como espécies

607

indicadoras, menor número de espécies típicas do cerrado, tendo influência dos biomas

608

adjacentes. Os maiores números de espécies típicas de cerrado nos DB Centro-oeste, que

609

possui maior extensão, Centro, que corresponde às áreas altas do Cerrado, e Nordeste, que é a

610

região de maior estabilidade climática desde as glaciações do Quaternário. Temperatura

611

mínima anual, sazonalidade da temperatura e precipitação anual são as variáveis mais

612

importantes para a diferenciação dos grupos. Os DB apresentaram dois principais padrões

613

climáticos. Os DB Sul, DB Sudeste e DB Sudoeste possuem menores temperaturas mínimas e

614

maior sazonalidade da temperatura, enquanto os DB Centro-oeste, DB Norte e DB Nordeste

615

apresentaram padrão oposto. O DB Centro apresentou tanto baixas temperaturas mínimas,

616

quanto baixa sazonalidade da temperatura. Em termos de conservação, os DB apresentam

617

grande variação nos níveis de desmatamento e de áreas protegidas. Os DB, aliados a

618

ferramentas e técnicas consolidadas, podem servir de ponto de partida para equilibrar os

619

esforços de conservação do bioma Cerrado.

620

61

INTRODUÇÃO

622

A identificação de unidades biologicamente homogêneas é a mais antiga abordagem da

623

Biogeografia. Nas ciências naturais, essa ferramenta foi usada inicialmente para direcionar

624

pesquisas biológicas, especialmente durante os séculos XIX e XX e, a partir disso, usada na

625

chamada Biogeografia Aplicada (Diamond 1975, Wilson e Willis 1975, Ladle e Whitaker 2011).

626

Diversas propostas em escala global ou continental foram apresentadas, tendo como base as

627

formações vegetais, as comunidades de fauna, comunidades florísticas ou combinações dessas

628

(Clements & Shelford 1939; Dice 1943; Udvardy 1975; Wallace 1876).

629

Uma proposta unificando as terminologias e experiências anteriores (Udvardy 1975),

630

resultou em uma divisão hierárquica composta por Reinos, Províncias e Distritos Biogeográficos

631

(DB). Os reinos seguiram a proposta das regiões de fauna de Wallace (1876), e as Províncias

632

Biogeográficas, abrangendo grandes regiões, seriam a subdivisão desses reinos com o uso de

633

províncias bióticas (Dice 1943), as quais têm como critério a combinação de fatores como

634

vegetação, clímax ecológico, flora, fauna, fisiografia e solos. O conceito de províncias bióticas é

635

semelhante ao de bioma, definido como um complexo de organismos englobando a vegetação

636

clímax e suas subdivisões, além de componentes da fauna, ocupando extensas regiões sob um

637

mesmo domínio climático (Clements & Shelford 1939; Oxford 2010). Os DB são baseados em

638

diferenças mais sutis dentro das Províncias Biogeográficas. Esses distritos são fundamentais

639

para subsidiar iniciativas de conservação da biodiversidade (Udvardy 1975).

640

A partir de 1829, surgiram diversas propostas de classificação da vegetação brasileira,

641

com pouca variação conceitual, porém com diferenças importantes entre os limites

642

estabelecidos (e. g. Torello-Raventos et al. 2013; Smith 1961; Rizzini 1963b; Rizzini & Pinto

643

1964; Veloso 1964; Veloso & Strang 1970; Morrone 2001). Atualmente, a delimitação dos

644

biomas brasileiros (IBGE 2004a), baseada na classificação da vegetação (IBGE 2004b), apresenta

645

os biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal.

646

O Cerrado é uma formação vegetal predominantemente savânica, composta por um

647

mosaico de áreas abertas e fechadas (Eiten 1972; Ribeiro & Walter 2008). Ocupa

648

principalmente áreas altas, como o escudo central brasileiro, as Chapadas e serras, mas

649

também ocorrem em vales e depressões periféricas das terras altas. Essa complexa paisagem, e

650

sua localização geográfica são responsáveis pelas grandes diferenças climáticas observadas no

62

Cerrado (Furley & Ratter 1988). O clima é um importante preditor das comunidades vegetais,

652

moldando diferentes ecossistemas sobre a superfície da Terra (Bongers et al. 1999; Castro

653

1994; Greve et al. 2011; Holmgren & Poorter 2007; Kubota et al. 2014; Mckenzie et al. 2003).

654

Algumas condições climáticas nas savanas, como umidade e sazonalidade, selecionam as

655

comunidades regionais (Furley 2006; Lehmann et al. 2014).

656

O Cerrado, a Caatinga e o Chaco compõem os biomas abertos da América do Sul

657

(Sarmiento 1975). As formações abertas são predominantes durante os períodos mais frios

658

(glaciações), e têm sua distribuição reduzida nos períodos interglaciais, quando as formações

659

florestais se expandem pelo continente (Haffer 1969). Nos dias atuais, a Amazônia e a Mata

660

Atlântica, os principais biomas florestais da América do Sul, estão separados pelo Cerrado, mas

661

elementos dos dois biomas são encontrados nas matas ciliares e matas de galeria do Cerrado

662

(Méio et al. 2003; Oliveira-Filho & Ratter 1995). Como consequência relictual das flutuações

663

climáticas, diversos encraves com vegetação de Cerrado são encontrados nos biomas

664

adjacentes (Vanzolini & Williams 1981).

665

Esse constante fluxo da vegetação como consequência das flutuações climáticas (Cole

666

1960), pode ter proporcionado ampla troca de espécies entre os diferentes domínios

667

fitogeográficos brasileiros (Salgado-Labouriau 2005), especialmente nas áreas de transição,

668

onde a riqueza de plantas lenhosas é maior (Castro 1994). Essa situação tem como

669

consequência a colonização bidirecional de diversas espécies ou gêneros entre o Cerrado e os

670

biomas adjacentes (Caetano et al. 2008; Colli 2005; Novaes et al. 2010; Oliveira-Filho & Ratter

671

1995; Ramos et al. 2009; Salgado-Labouriau 2005; Scariot & Sevilha 2005; Simon et al. 2009).

672

Tal situação se reflete na grande importância dos outros biomas para a flora do Cerrado (Castro

673

et al. 1998; Heringer et al. 1977; Rizzini 1963b). 674

Apesar de sua diversidade, distribuição e relevância, o Cerrado já foi reduzido a cerca da

675

metade do seu tamanho original (MMA 2006; Unesco 2000), em decorrência principalmente da

676

expansão agropecuária (MMA 2002). Essa realidade vem se concretizando de maneira contínua

677

e intensa, especialmente em algumas fitofisionomias (Bianchi & Haig 2012). Estimativas

678

apontam que, em poucas décadas, o Cerrado estará restrito somente às áreas protegidas, caso

679

o ritmo de conversão se mantenha nos níveis atuais (Klink & Machado 2005). A despeito de sua

680

importância biológica, apenas 1,8% são efetivamente protegidos por unidades de conservação

681

de proteção integral.

63

Os padrões de ocupação humana na paisagem do Cerrado e as peculiaridades das suas

683

biotas regionais implicam na necessidade de caracterizar a biodiversidade regional, para que

684

possam ser aplicadas medidas diferenciadas de conservação. Algumas propostas de subdivisões

685

desse bioma foram realizadas, pautadas em atributos físicos (Arruda et al. 2008; Cochrane et al.

686

1985) ou florísticos (Castro 1994; Ratter & Dargie 1992; Ratter et al. 1996, 2003).

687

Castro (1994) dividiu o Cerrado em oito grupos, com base em composição florística. Por

688

sua vez, esses grupos se juntam formando três supercentros, determinados pelo polígono das

689

secas e pelo polígono das geadas (Castro 1994). As regiões fisiogeográficas propostas por

690

Cochrane et al. (1985), e revisitadas por Silva et al. (2006) são baseadas em aspectos físicos,

691

como relevo, litologia e tipos de solos. Essa proposta foi corroborada pela maior diversidade

692

beta entre essas regiões fisiográficas estudadas (Felfili et al. 2004). Combinando características

693

físicas e oito taxa botânicos, Arruda et al. (2008) propuseram vinte e duas ecorregiões para o

694

Cerrado. Onze Províncias Fitogeográficas baseadas na distribuição do gênero Mimosa foram

695

sugeridas para o bioma Cerrado (Simon & Proença 2000). Em uma série de estudos florísticos

696

das espécies lenhosas, Ratter e colaboradores (Ratter & Dargie 1992; Ratter et al. 1996, 2003,

697

2011) identificaram seis províncias florísticas na área núcleo do Cerrado, além de duas regiões

698

disjuntas na Amazônia.

699

Caracterizar os padrões de distribuição das espécies em ecossistemas megadiversos é o

700

primeiro passo para a compreensão dos mecanismos que geraram esses padrões. Em tempos

701

de aceleradas mudanças climáticas, é importante entender como a biota responde às variações

702

climáticas, para que se possam prever eminentes perdas biológicas (Pearson 2006) e elaborar

703

propostas para minimizar tais perdas (Faleiro et al. 2013). Além disso, identificar as espécies

704

responsáveis pela estruturação dos padrões biogeográficos e avaliar seu estado de conservação

705

é de extrema importância para o conhecimento da biota regional. Apesar de numerosos, os

706

estudos biogeográficos do Cerrado pouco se ativeram a essas questões.

707

Dessa forma, o presente estudo teve como objetivos identificar os Distritos

708

Biogeográficos do Cerrado com uma base de dados atualizada e ampliada, e caracterizá-las

709

quanto aos limites climáticos, espécies indicadoras e estado de conservação. Para isso foram

710

testadas as seguintes hipóteses: (1) processos biogeográficos possibilitaram a formação de

711

padrões espaciais na distribuição de plantas arbóreas do Cerrado e tais padrões são suficientes

64

para a identificação de Distritos Biogeográficos; (2) esses distritos se diferenciam quanto ao

713

clima e (3) são singulares quanto à associação das espécies que suportam tais regiões.

714

MÉTODOS

715

Área de estudo e base de dados 716

O estudo foi realizado no bioma Cerrado e utilizamos dados florísticos de espécies

717

arbóreas de 448 inventários e levantamentos expeditos nos ambientes de interesse. No caso

718

particular deste estudo, denominaremos como cerrado sentido amplo o conjunto de

719

fitofisionomias formadas pelo cerrado sentido restrito e pelo o cerradão, devido à sua

720

semelhança florística com o cerrado sentido restrito (Ribeiro & Walter 2008). Dessa forma,

721

todos os registros obtidos nos trabalhos pesquisados e nas bases de dados consultadas

722

referem-se às espécies vegetais de porte arbóreo associadas com o cerrado sentido amplo por

723

toda a extensão dos limites do Cerrado (IBGE 2004a) (Figura 1). Incluímos também algumas

724

localidades do Piauí, pois em alguns pontos há a predominância de vegetação característica de

725

cerrado, sendo contíguas ao limite do bioma. Nosso universo de análise é composto por 786

726

espécies distribuídas em 75 famílias. Revisamos a taxonomia e nomenclatura pelas atualizações

727

do APG III no sítio eletrônico da Flora do Brasil (JBRJ 2014).

728

Análises 729

Para delimitar os Distritos Biogeográficos (DB) no Cerrado, realizamos uma análise de

730

agrupamento baseada em uma matriz de similaridade entre as localidades. Para o cálculo da

731

matriz de similaridade, excluímos as espécies que não contribuem para a formação de padrões.

732

As espécies que excluímos foram aquelas consideradas raras, as de distribuição ocasional e as

733

de ampla distribuição. Consideramos espécies raras aquelas presentes em menos de cinco

734

localidades (1%), e amplamente distribuídas as presentes em mais de 269 localidades (60%). As

735

espécies ocasionais são as de ocorrência predominante em outros biomas ou fitofisionomias,

736

mas ocasionalmente registradas em estudos de cerrado.

737

As espécies não se distribuem ao acaso pela paisagem, sendo seu padrão natural de

738

distribuição geográfica agrupado (Lieberman & Lieberman 1994). Quando a área de distribuição

739

das espécies foi maior ou igual ao observado ao acaso, sua distribuição foi considerada

740

ocasional. Para identificar essas situações, realizamos aleatorizações de Monte Carlo da área de

65

distribuição de cada espécie calculadas pelo mínimo polígono convexo, usando o pacote

742

adehabitatHR (Calenge 2006) no aplicativo R (R Development Core Team 2013). Calculamos 743

1.000 polígonos mínimos convexos aleatórios para espécies que ocorressem entre cinco e 420

744

localidades. O intervalo de confiança foi estabelecido em 0,05. Padronizamos esses valores pela

745

área de ocorrência das espécies.

746

A similaridade utilizada no agrupamento das comunidades foi calculada pelo índice de

747

Sørensen no pacote recluster (Dapporto et al. 2013), usado para dados binários e recomendado 748

por não considerar as ausências compartilhadas em sua equação (Meyer et al. 2004).

749

Considerando que o índice de similaridade baseado em presenças compartilhadas tende a

750

agrupar localidades com baixo número de espécies com as localidades que possuem grande

751

número delas, removemos as localidades com baixa riqueza. Removemos qualquer localidade

752

que tivesse uma riqueza inferior à média menos o desvio padrão do número final de espécies

753

de todas as localidades.

754

Dentre sete métodos de agrupamento hierárquico aglomerativo (ward, single, complete,

755

average, mcquitty, median e centroid), usamos o método average (Unweighted Pair Group 756

Method with Arithmetic Mean - UPGMA) por apresentar a maior correlação entre a matriz de 757

distância e a matriz cofenética (Sokal & Rohlf 1962). Agrupamos a matriz de distância usando o

758

pacote hclust (Rousseeuw et al. 2014). Estabelecemos três diferentes níveis de corte de

759

similaridade para maximizar não somente o número de grupos, mas também o maior número

760

de localidades em cada grupo. Desprezamos os grupos compostos por menos de dez

761

localidades.

762

Para os grupos resultantes, realizamos uma análise de espécies indicadoras (Dufrêne &

763

Legendre 1997) com o objetivo de identificar o melhor agrupamento dentre os diferentes níveis

764

de dissimilaridades. Usamos o mínimo valor médio do valor de p das espécies indicadoras como

765

valor limite para a definição dos grupos (McCune & Grace 2002). Verificamos a significância do

766

agrupamento por uma análise de variância da matriz de dissimilaridade explicada pelos grupos

767

no pacote vegan (Oksanen et al. 2014). A estrutura espacial, gerada a partir das coordenadas

768

espaciais com o pacote packfor (Dray et al. 2011), foi usada como co-variável para controlar o

769

efeito do espaço. Delimitamos os DB pela congruência da distribuição das localidades, de modo

770

que a maioria das comunidades pertencentes ao mesmo agrupamento permanecesse no

66

mesmo DB. Quando possível, usamos acidentes do relevo, como rios de primeira ordem e

772

divisores de relevo importantes, para delimitar as bordas dos DB.

773

Para o agrupamento selecionado, usamos a análise de espécies indicadoras para

774

verificar qual a importância de cada bioma na formação dos grupos. Para isso, caracterizamos

775

as espécies indicadoras quanto ao seu bioma de ocorrência (capítulo 1).

776

Para a caracterização climática das regiões biogeográficas usamos as variáveis Bio01

777

(temperatura média anual em ºC), Bio04 (sazonalidade da temperatura, medida pelo desvio

778

padrão em ºC), Bio05 (temperatura máxima anual em ºC), Bio06 (temperatura mínima anual

779

em ºC), Bio12 (precipitação anual em mm), Bio14 (precipitação da semana mais seca em mm),

780

Bio15 (sazonalidade da precipitação medida pelo desvio padrão em mm), Bio20 (radiação

781

média anual em W m-2), Bio28 (índice médio de umidade anual) e Bio31 (sazonalidade do índice

782

de umidade em desvio padrão). Essas variáveis climáticas são o resultado da interpolação da

783

média dos dados climáticos mensais de estações climáticas no período de 30 (1960-1990) a 50

784

anos (1950-2000), de acordo com a sua disponibilidade (Hijmans et al. 2004).

785

Testamos a diferença entre as características ambientais das regiões usando uma

786

análise multivariada de variância (Manova). Posteriormente, usando o pacote MASS (Venables

787

& Ripley 2002), realizamos uma análise discriminante por passos para verificar quais variáveis

788

melhor diferenciam as regiões fitogeográficas. As variáveis que melhor predizem os grupos

789

foram selecionadas pelo critério de Uschi que estima a confiabilidade da regra de classificação.

790

Usando as variáveis selecionadas pela discriminantes por passos, testamos a diferença entre os

791

DB com o teste Kruskall-Wallis com correção de Bonferroni. Posteriormente, usamos o teste

792

Duun com o pacote dunn.test (Dinno 2014) para identificar entre quais pares de DB haviam 793

diferenças significativas. Gráficos do tipo boxplot auxiliaram na interpretação da distribuição

794

das variáveis climáticas. Fizemos essas análises no aplicativo R (R Development Core Team

795

2013).

796

Quantificamos o desmatamento e a cobertura de unidades de conservação de proteção

797

integral para cada região, usando a função tabulate area no ArcGis (ESRI 2011). Essas

798

informações estão disponíveis em http://mapas.mma.gov.br/i3geo/datadownload.htm.

67

RESULTADOS

800

Recuperamos três diferentes agrupamentos das localidades, de acordo com o nível de

801

corte (Figura 2). No corte com um nível de dissimilaridade de 0,70 encontramos três regiões

802

biogeográficas nas extremidades do Cerrado e uma grande região central. No segundo corte

803

(0,65) houve apenas mais uma divisão do grupo central, e no nível seguinte (0,60) dois grupos

804

emergiram desses dois grupos centrais (Figura 2). Selecionamos o terceiro agrupamento, no

805

nível de dissimilaridade de 0,60, por apresentar o menor valor médio do valor de p das análises

806

de espécies indicadoras (Figura 2). Observamos que existem diferenças significativas entre a

807

similaridade dos DB (R6,150=57,76; p=0,001) (Tabela 1).

808

Os DB recuperadas apresentaram grande concordância com os padrões encontrados por

809

Ratter et al. (2003) (Figura 3), porém com subdivisões na maioria delas. Dessa forma, sempre

810

que possível mantivemos a mesma nomenclatura sugerida por esses autores. São eles: Distrito

811

Biogeográfico Centro (DBC), Distrito Biogeográfico Centro-oeste (DBCW), Distrito Biogeográfico

812

Norte (DBN), Distrito Biogeográfico Nordeste (DBNE), Distrito Biogeográfico Sul (DBS), Distrito

813

Biogeográfico Sudeste (DBSE) e Distrito Biogeográfico Sudoeste (DBSW). Os dados das regiões

814

DA (disjunct amazonian sites) e FWM (widely spread sites of strong mesotrophic character)

815

encontradas por Ratter et al. (2003) não foram incluídos nessa análise, portanto esses DB não

816

aparecem nesse agrupamento.

817

A análise de espécies indicadoras para o agrupamento selecionado apresentou 263

818

espécies indicadoras distribuídas entre os sete grupos, das quais 213 foram significativas

819

(Material Suplementar 1). A maioria das espécies é indicadora do DBS, e os DBSW e DBNE

820

apresentam os menores números. Poucas espécies de ampla distribuição suportam os grupos

821

(Figura 4). Os maiores números de Espécies Predominantemente do Cerrado (EPC, como

822

definido no cap. 1) dentre as espécies indicadoras estão nos DBC, DBCW e DBNE. O DBN foi o

823

único com contribuição expressiva da Caatinga. Poucas espécies compartilhadas com a

824

Amazônia sustentam esse agrupamento.

825

A importância das variáveis climáticas utilizadas para a caracterização dos DB variou

826

conforme pode ser visto na Tabela 2 e Figura 5. As variáveis mais importantes para diferenciá-

827

los foram temperatura mínima anual, sazonalidade da temperatura e precipitação anual, com

828

uma taxa de acerto da predição de 0,81. Os DBN e DBS tiveram 100% de acerto de predição

68

com esse modelo (Tabela 3; Figura 6) e as maiores taxas de erro foram entre DBNE e DBCW. O

830

único par que não apresentou diferenças entre as variáveis climáticas selecionadas foram os

831

DBS e DBSE (Tabela 4).

832

Os DB apresentaram dois principais padrões climáticos. Os DBS, DBSE e DBSW possuem

833

menores temperaturas mínimas e maior sazonalidade da temperatura, enquanto os DBCW,

834

DBN e DBNE apresentaram padrão oposto. A única exceção é o DBC, que apresentou tanto

835

baixas temperaturas mínimas quanto baixa sazonalidade da temperatura. Há grande variação

836

nos parâmetros climáticos do DBNE, especialmente em precipitação anual.

837

Observamos grande variação de cobertura vegetal remanescente e áreas protegidas

838

entre os DB (Figura 7, Tabela 5). Os remanescentes naturais do DBS apresentaram os menores

839

níveis de cobertura vegetal remanescentes (11%), enquanto o DBNE apresentou o maior

840

percentual (75%). As áreas protegidas são também distribuídas de maneira desuniforme,

841

ocupando 0,34% da área total do DBS e 6,18% no DBNE.

842

Caracterização dos Distritos Biogeográficos do Cerrado 843

Distrito Biogeográfico Sul (DBS). Corresponde ao Cerrado do estado de São Paulo, 844

destacando-se na primeira divisão do cluster. A grande especificidade desse grupo é

845

corroborada pela grande quantidade de espécies indicadoras, por marcada influência da Mata

846

Atlântica e por evidente diferenciação climática, com invernos rigorosos e verões quentes. A

847

área remanescente é de apenas 11% da sua cobertura original, sendo que menos de 0,35% de

848

sua área total está legalmente protegida (Tabela 5).

849

Distrito Biogeográfico Sudoeste (DBSW). É composto por poucas localidades contíguas 850

ao Pantanal. A maioria das espécies que suportam esse grupo é compartilhada com a Mata

851

Atlântica, além de uma compartilhada com a Caatinga. Assim como o DBS, essa região

852

apresenta invernos rigorosos e verões quentes. Esse grupo aparece na primeira divisão do

853

cluster, evidenciando suas diferenças em relação às demais comunidades arbóreas de cerrado.

854

Sua cobertura remanescente é de 35%, estando apenas 1,15% em áreas legalmente protegidas.

855

Distrito Biogeográfico Norte (DBN). Também bastante dissimilar das demais regiões, 856

está localizado nas áreas baixas do Cerrado, incluindo parte da zona costeira do Maranhão e

857

oeste do Piauí. Localizado em transição com a Caatinga, esse grupo é sustentado basicamente

69

por espécies partilhadas com esse bioma. As temperaturas mínimas dessa região são as

859

maiores observadas no Cerrado. Sua área remanescente é de 75%, com menos de 3% de áreas

860

legalmente protegidas.

861

Distrito Biogeográfico Nordeste (DBNE). Corresponde ao oeste baiano, extremo norte de 862

Minas Gerais, sul do Maranhão, oeste do Piauí e porção leste do Tocantins (região norte da

863

bacia do Rio Tocantins). Apesar da grande variabilidade climática observada nesse DB, ele é

864

determinado por uma alta proporção de EPC. Nesse grupo são observadas grandes amplitudes

865

das variáveis climáticas. Essa região possui maior área remanescente (75%) e maior percentual

866

de áreas legalmente protegidas (6,18%).

867

Distrito Biogeográfico Centro-oeste (DBCW). Cobre grande extensão do oeste do 868

Cerrado, ocupando a bacia dos Rios Araguaia e Tocantins (especialmente porção sul), além de

869

parte das bacias dos Rios Paraná e Paraguai. Esse DB possui grande extensão territorial, o que

870

confere grande variação climática. A influência do domínio Amazônico sobre esse grupo é

871

predominante. Cerca de metade das áreas naturais é remanescente (49%), com menos de 2%

872

protegidas.

873

Distrito Biogeográfico Sudeste (DBSE). Região de invernos rigorosos e verões quentes. 874

Está localizado principalmente no estado de Minas Gerais, acompanhando os tributários da

875

cabeceira do Rio São Francisco e Espinhaço mineiro. A maioria das espécies indicadoras desse

876

grupo é compartilhada com a Mata Atlântica, porém o número de EPC não é desprezível. O

877

total de remanescente é de 48%, e a cobertura de áreas legalmente protegidas é de 2,57%.

878

Distrito Biogeográfico Centro (DBC). Localizado nas áreas altas do planalto central, 879

abrange o leste do estado de Goiás e oeste de Minas Gerais. É uma região climaticamente

880

peculiar, pois apresenta baixas temperaturas mínimas e também baixa sazonalidade. É

881

caracterizado principalmente por possuir espécies compartilhadas com a Mata Atlântica e por