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Immunodominant HLA-restricted epitopes of 21OH in AAD

A errância dos moradores dos sertões do norte de M inas, que marcou sua história, acontece até hoje e de forma cada vez mais intensa. Numa cidade como São Romão, como acontece em várias outras da região, é quase impossível encontrar uma família em que nenhum de seus membros tenha, em algum momento, migrado para outros lugares em busca de melhores condições de vida.

São movimentos migratórios definitivos ou sazonais que estabelecem o ritmo de vida das pessoas e das famílias e que geram, cada vez mais intensamente, retornos, idas e vindas de grande maioria da população de São Romão.

Sertão é lugar de errância. Obriga as pessoas a ir e vir de um lugar a outro na busca de uma vida melhor. Cria-se assim a identidade migrante do sertanejo que, em constante estado de viagem, reproduz sua errância em todas as dimensões de sua vida.

... e muitas idas e marchas: sertão sempre. Sertão é isso: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. (GUIMARÃES ROSA, 1985, p. 267)

Vai viagens imensas. O senhor faça o que queira ou o que não queira – o senhor toda-a-vida não pode tirar os pés: que há-de estar sempre em cima do sertão. O senhor não crei a na quietação do ar. Porque o sertão se sabe só por alto. Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou é traiçoeiro muito desastroso. (GUIMARÃES ROSA, 1985, p. 497)

Guimarães Rosa, em sua obra Grande Sertão: Veredas, res gata a identidade do sertão e do sertanejo. As condições em que vivem seus moradores os obrigam à “travessia”, ao contínuo processo de ir e vir em busca de lugares melhores, do trabalho recompensador e das possibilidades de sobrevivência. E nessa “travessia” carregam com eles os seus modos de ser e viver, sua cultura, e vão estabelecendo novas estratégias de se relacionar com o espaço e criar/recriar os lugares.

Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso? (GUIMARÃES ROSA, 1985, p. 33)

A migração pode tornar-se, então, a única alternativa possível de sobrevivência do sertanejo. E esta sobrevivência não é apenas material, implica também, e com a mesma intensidade, as formas de reprodução social e cultural de sujeitos de uma sociedade. Vivem em um mundo baseado nas lógicas capitalistas que aprofunda as desigualdades e a exclusão. José de Souza M artins (2002) reflete sobre este assunto, abrindo novas perspectivas para entendê-las.

Talvez devamos ent endê-l as como deslocamentos sociais que s e tornam problemáticos para o próprio ser humano quando esses processos ocorrem em sociedades que estão pass ando por demorado período de estreitamento das oportunidades de vida, como a nossa. É preciso pensar o deslocamento espaci al, isto é, pensar nos fatores propriament e sociais, culturais e políticos embutidos no processo de migração. (MARTINS, 2002:133)

Nos sertões do norte de M inas Gerais, para além de uma compreensão determinista que coloca nas condições naturais as causas da pobreza do povo, reproduzem-se mais intensamente as formas de concentração de terra e capital. A maioria da população torna-se cada vez mais excluída dos processos de produção/reprodução capitalista, que se reconfiguram a cada dia sob novas formas e novas estratégias, expulsando as pessoas do campo e obrigando-as a um contínuo ir e vir na luta pela sobrevivência.

Nas pesquisas que realizei em São Romão, com produtores e consumidores da cultura popular, encontrei uma forte presença de processos migratórios, que vão desde os movimentos do campo para a cidade, desta para cidades vizinhas, até a ida para outras mais distantes, como São Paulo. Caracterizam-se por: migrações permanentes, em que a ida para outros lugares é definitiva, mas que pode muitas vezes implicar no retorno para a cidade de origem diante do fracasso de se adaptar na nova realidade; migrações sazonais ou

temporárias, em que os movimentos da população obedecem ao ritmo das colheitas ou a época de maior oferta de trabalho em outros lugares.

Procuro aqui estabelecer uma classificação dos movimentos migratórios dos produtores e consumidores da cultura popular em São Romão, os quais denomino “errâncias”, dividindo-os em três diferentes tipos: a errância social, determinada pelas necessidades de reprodução material e social das pessoas e suas famílias, em movimentos mais de saída do que de vinda para a cidade, onde também se observa a presença do êxodo rural; a errância

cultural, em que predominam os movimentos de retorno à cidade, principalmente em momentos de realização dos principais eventos de seu catolicismo popular; e a errância

ritual, que procura identificar os caminhos e itinerários regionais e locais dos diversos rituais populares, contribuindo para o fortalecimento de sua identidade regional de “Vila Risonha” e estabelecendo os laços e as interações entre o campo e a cidade e entre o São Romão e os municípios vizinhos.

3.1. De onde vim até onde estou – a errância de vida e trabalho

Durante minhas pesquisas de campo, poucas foram as pessoas, direta ou indiretamente relacionadas com as manifestações da cultura local, que nunca passaram por algum processo migratório. Quando olhei para suas famílias, não encontrei nenhuma. Em todas as casas em que estive e com todas as pessoas com quem falei, existia sempre uma história de partida, de ida para um outro lugar, uma outra cidade. Filhos, netos, irmãos, pais (as mães nunca), que foram embora um dia, em busca de uma vida melhor, às vezes para estudar e, na maioria das vezes, para trabalhar.

Entre as pessoas e famílias investigadas, encontrei movimentos migratórios variados: a) saídas do campo para a cidade – de áreas rurais do próprio município ou de municípios vizinhos; b) saídas da cidade e/ou da área rural para outras cidades maiores da região; c) saídas da cidade e/ou da área rural para cidades grandes de M inas Gerais, São Paulo e Distrito Federal; d) saídas temporárias e/ou sazonais para trabalhar ou estudar, retornando, assim que possível ou em virtude do insucesso, para o lugar de origem. Em raríssimos casos, encontrei movimentos opostos, os de vinda com objetivo de trabalho. Entre as pessoas investigadas, pude detectar apenas dois casos, um de uma funcionária pública municipal, vinda de Belo Horizonte, e outro de um trabalhador do setor de carvoaria, vindo de Nova Ponte. Predominam, então, os processos de expulsão, tanto do campo, quanto da própria cidade, por suas condições precárias de trabalho e sobrevivência material.

O gráfico a seguir mostra as proporções encontradas entre as famílias investigadas desses movimentos populacionais, divididos nas seguintes categorias: êxodo rural no

município, para as pessoas que saíram das áreas rurais de São Romão e foram para a área urbana; êxodo rural – municípios vizinhos, para as pessoas que vieram para a cidade de São Romão, saídas de áreas rurais dos municípios vizinhos; ida para cidades da região, para as pessoas que mudaram-se, principalmente em busca de trabalho, para as cidades como Pirapora e M ontes Claros; ida para cidades grandes de MG, SP e DF, pessoas que migraram para cidades maiores, como Divinópolis, Nova Serrana, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília;

saídas temporárias – estudo ou trabalho, para pessoas que em algum momento da vida foram para cidades como São Paulo e Uberlândia para estudar ou trabalhar e retornaram a São Romão.

Os mapas que se seguem mostram a localização dos lugares e cidades citados no gráfico e os fluxos migratórios de saída, representados por setas com as mesmas cores utilizadas no gráfico.

Gráfico 1 – MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS EM SÃO ROMÃO

Fonte: dados obtidos pela investigação direta de 15 famílias de São Romão, num total de 106 pessoas. Org.: BORGES, M.C.