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Immigrants in Education

Conforme relato histórico, Camille teve um pai que a superinvestiu libidinalmente, assim como seu irmão Paul Claudel, mas possivelmente, prenunciavam relações próximas à passionalidade, de intenso colorido incestuoso. O colorido incestuoso da relação com o pai e o irmão não é imediatamente evidente na história contada, mas é uma hipótese que foi se desenvolvendo durante a pesquisa, ao lado de outra acerca de uma superexigência do pai para com ela, o que me leva a pensar numa projeção dos próprios ideais paternos sobre a filha e o filho.

Suponho que com sua mãe, C.C. foi marcada pela rejeição, desde o primeiro encontro entre elas, no qual pode ter havido a ocorrência de um ‘traumatismo de encontro’ da mãe de Camille – seja pelo fato da filha vir numa hora não desejada, em que a mãe estava deprimida, seja pelo fato de Camille ser do sexo feminino. O

‘traumatismo de encontro’ impede o investimento libidinal no bebê, podendo no futuro, ter como conseqüências, certas formas de adição, de anorexia e estados- limites. Trata-se de algumas manifestações da potencialidade polimorfa – entre a estrutura neurótica e psicótica. No caso de Camille, como dito anterirmente, as depressões eram severas e constantes, ela desaparecia de casa por longos períodos sem dar notícias, manifestava baixa auto-estima e autodepreciação, sentimentos de fracasso e derrotas, incessante demanda de amor e reconhecimento, tendências a relações passionais e a adição (de bebida alcoólica).

Camille parece nunca ter compreendido a hostilidade de sua mãe por sua pessoa. Amarrada aos enunciados maternos, ao Cacha Diablo, como diz Anne Delbèe, Camille aprisionava-se às suas lembranças históricas, muito próximas aos traços melancólicos. Na trama da possível depressão materna, do luto do primogênito morto, do não olhar investidor quando de seu nascimento, o aborto do filho com Rodin, a perda do homem amado, da família rejeitadora e indiferente, do irmão que a abandona, Camille é coroada por perdas irreparáveis. Portanto, idealizar um lugar, uma relação, era uma tentativa de poder sair deste território arenoso e inseguro.

Este terreno é propício para o estabelecimento de uma relação assimétrica, mais especificamente, a relação passional que tem a alienação como uma variante. Como Aulagnier postulou, na relação passional, o objeto tornou-se para o Eu “fonte exclusiva de todo prazer, tendo-se deslocado para o registro das necessidades”.241

Não se trata de um excesso de amor na paixão. Em comparação com o amor, a diferença é qualitativa, porque o apaixonado não sabe partilhar e exclui a reciprocidade dos relacionamentos, alienando-se no desejo de outrem e investindo maciçamente naquele que exerce a função de força alienante. Esse objeto, por ser idealizado, tem o poder de decidir o que é o Eu, de escolher os seus ideais.

Para o apaixonado, é difícil a experiência de separação, por isso ele se aliena ao desejo do outro, tentando reduzir ao silêncio sua atividade de pensamento. É marcante a paixão de Camille por Rodin, que se fundia com ele, perdia-se nele, apesar de produzir tantas obras singulares e com toda a sua genialidade não conseguia sair dessa condição a que seu Eu estava subsumido. Pode-se conferir isso na fala do pai, pedindo para que ela esculpisse suas esculturas, tivesse seu

próprio ateliê, fizesse suas exposições, mas a fala do pai caía num vazio e não reverberava em Camille, que se encontrava alienada em Rodin. Ela parecia, dia a dia, desinvestir o seu próprio projeto identificatório, o que a levava a um desinvestimento no tempo futuro.

Rodin parecia queixar-se quando ela conseguia essa libertação, porque ele obtinha o seu ganho com sua alienação e paixão, pois ela o inspirava, ajudava-o nas suas encomendas. Vemos isso na citação de sua fala queixando-se que não tinha mais domínio sobre ela e que ela não o obedecia. Essas oscilações de dependência e independência fazem-me pensar que existiam momentos que investia o seu projeto identificatório, mas talvez pela própria constituição de sua psique – que, a meu ver, situa-se entre a neurose e a psicose -, perdia-se e voltava-se para os ideais propostos por Rodin.

Como vimos, Camille tem apenas 20 anos quando conhece Rodin, um escultor, então de 45 anos. O relacionamento entre eles é violento, porém criativamente profundo. Com a convivência descobrem e vivem uma paixão mútua pela escultura, uma identificação.

Os dados biográficos parecem revelar que Camille não suportava a auto- suficiência de Rodin. Resignada, conformava-se trabalhando com ele. Não podia formalizar para si mesmo o seu próprio futuro e seguir rumo a ele. Dia a dia caminhava para a morte de um investimento no futuro. Tanto o pai quanto Rodin aconselhavam-na, mas ela fazia-se distante, impossibilitada de captar o que significava marchar em direção ao seu próprio desejo.

Esta dependência de Camille em relação a Rodin era o prenuncio de sua impossibilidade de investir no seu projeto pessoal. Estava suficientemente satisfeita, alienada. Nessa relação e comungava com ele os mesmos ideais de beleza e de verdade. O pai não se cansava de alertá-la: “Cuidado Cam, vais perder tudo. A tua personalidade [...]. Ele é mestre em copiar e não criar [...]”. (cenas do filme)

Posso supor que Camille quisesse ser amada pelo seu primeiro objeto – a mãe e, na sua vida amorosa adulta, transfere esse desejo a Rodin. Camille esculpia, mas suas obras não eram vistas como suas, mas como cópias do mestre.

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