A Terra é nossa nave, e com ela navegamos pelo espaço sideral. Há milhares de anos o ser humano vive nesta nave, ocupando e transfor- mando sua crosta. Mas a transformação desta, provocada pelas atividades econômicas que conhecemos hoje, começou há bem menos tempo.
No início as transformações se davam como forma de obter meio pa- ra a sobrevivência. Para o professor e pesquisador Milton Santos (2004), as intervenções seguiam uma série de comportamentos que tinham co- mo razão de ser a preservação e continuidade do meio de vida. Como exemplo destes comportamentos, podemos pensar nas práticas de pou- sio, na rotação de terras, na agricultura itinerante. Estes e outros compor- tamentos compunham o “comportamento social” do grupo que ali vivia com relação ao território que ocupava, conciliando, com as técnicas de que então dispunham, o uso e a conservação da natureza e criando con- dições para que ela pudesse ser outra vez utilizada.
A agricultura, o extrativismo, o comércio, os serviços e o artesana- to eram atividades desenvolvidas para se obter recursos para alimen- tar a família ou um grupo social. Os excedentes indicavam a prosperi- dade, a possibilidade de maiores trocas ou de garantir a sobrevivência na estação fria ou seca. A tecnologia existente não permitia alterar os ciclos naturais com grande intensidade. Assim, os ritmos da natureza eram observados e eram motivos de festa.
Você já participou de festas do tipo “Rainha da Primavera” ou “Ga- rota Verão”? Qual o significado destas festividades para nossa socieda- de? Estas festas são diferentes das demais? Elas são iguais, por exem- plo, às Festas Juninas?
No passado algumas festividades marcavam o tempo da produção, da preparação da terra, do plantio e da colheita. E estes dependiam do ritmo da natureza. Com o desenvolvimento tecnológico e com o ad- vento do capitalismo, por volta do século XV, esta ligação sociedade- natureza produzindo e transformando espaço se alterou e intensificou. O desejo do lucro, ou de maiores ganhos, levava à intensificação da produção econômica e, conseqüentemente, à transformação e produ- ção do/no espaço.
Mas o que transforma ou produz o espaço? O trabalho humano! Vo- cê já tinha pensado nisto? O mundo que nos cerca é resultado do tra- balho humano.
Dentre todas as espécies, somente o ser humano tem capacidade de executar trabalho? O que caracteriza o trabalho? Veja no quadro 1 e na charge as diferentes definições de trabalho. Com qual você concorda?
Para que o trabalho aconteça, há necessidade de outros recursos, chamados de meios de produção; estes podem ser divididos em meios de trabalho e objetos de trabalho. Os meios de trabalho são os instru- mentos de produção (máquinas e ferramentas), as instalações (edifício, etc.), as fontes de energia utilizadas na produção e os meios de trans- porte. Os objetos de trabalho são os elementos sobre os quais ocorre o trabalho humano (matérias-primas minerais, vegetais e animais, o solo, etc.) Qual é a principal atividade econômica de seu município? Identifi- que quais são os principais meios e objetos de trabalho existente nele.
O elemento mais importante para pensar a produção do espaço é o trabalho. Mas não o trabalho individual, e sim o trabalho social, de- senvolvido pelas sociedades, que criam, desenvolvem e estabelecem as condições de continuidade da própria sociedade. A cada geração utili- zam-se objetos do passado e acrescentam-se a eles novas criações. Co- mo exemplo disto, pode-se apontar o tear manual que evoluiu para o mecânico, capaz de produzir muito mais tecido em bem menos tempo. Ao longo da história humana os meios de trabalho vão se alteran- do, a primeira grande transformação foi a domesticação dos animais de tração e/ou de transporte (bois, cavalos, camelos), isto quando a re- lação sociedade-natureza apresentava um grande grau de dependên- cia. Por volta do século XVIII afastamo-nos dos ritmos da natureza com o desenvolvimento da mecanização. Esta intensificou as transforma- ções, dominações e alterações econômicas do/no espaço.
Você sabe o que é Revolução Industrial? Já ouviu falar dela? Esta “revo- lução” tem tudo a ver com a mecanização dos meios de trabalho (lembra do tear citado anteriormente?). A Revolução Industrial aconteceu no sécu- lo XVIII, mas seu impacto na produção do espaço foi tão grande que até hoje sofremos suas conseqüências (veja o Folhas “A indústria já era?”).
Quadro 1
Em Física, trabalho normal- mente é representado por W, do inglês work, é uma medi- da da energia transferida pe- la aplicação de uma força ao longo de um deslocamento. http://pt.wikipedia.org Em Economia Política, traba- lho consiste no tempo huma- no despendido na produção. É um fator produtivo como é a terra e os recursos naturais e o capital. (Samuelson – Di- cionário de Economia) Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, trabalho é o exercício de ativi- dade humana, manual ou in- telectual, produtiva.
Para o Dicionário Houaiss, trabalho é conjunto de ativi- dades produtivas ou criativas, que o Homem exerce para atingir determinado fim.
Fonte: Larpank, 2005. http://www.larpank.com.br/
Com o advento da era industrial, as máquinas passaram a ocupar os mais variados espaços da vida humana (máquinas de lavar, andar, cozinhar). No espaço agrário (campo) aconteceram significativas trans- formações. A introdução de maquinários para a preparação da terra, para o plantio e colheita, a seleção das espécies mais adequadas pa- ra a industrialização, alteraram não somente a produção agrícola como também causaram impactos sociais, visto que grande parcela da popu- lação rural dos países pobres (ou em desenvolvimento) não dispunha de recursos financeiros para produzir seguindo as novas técnicas (ve- ja o Folhas “Fome: problema econômico?”).
Assim, com a crescente adoção de técnicas de produção mais ela- boradas para as atividades agrárias, houve uma migração forçada de milhares de famílias para as cidades, pois, não podendo competir com os produtores com condições financeiras de adotar tais técnicas, estas famílias perderam o meio de produção de onde tiravam a sua sobre- vivência. Entretanto, as cidades não tinham infra-estrutura adequada para receber esta população, levando-as a viver em condições inade- quadas de moradia, saneamento, atendimento à saúde e à educação. Desse modo, o desordenamento do espaço urbano foi agravado em conseqüência de mudanças no espaço agrário.
Mas as transformações do espaço e a evolução dos meios de produção e do trabalho continuam em evolução. Segundo Milton Santos (2004), a década de 1970 foi marcada pelo início da mudança do meio técnico (tec- nificação) para o meio técnico-científico-informacional. Este novo espaço é marcado pelo desenvolvimento tecnológico, o que possibilitou a ascen- são da produção flexível em substituição ao modo fordista de produção (veja o Folhas “A industria já era?”). Essa transição modifica o território, que sofre um processo de desenvolvimento científico, técnico e de obten- ção de informação, elementos que possibilitam a falada globalização (veja o Folhas “Dinheiro traz felicidade?”, “A união faz a... ? e “Nós da rede”).
No período da tecnificação (o qual antecede o meio técnico-cien- tífico-informacional) as transformações e produção do espaço, segun- do os critérios técnicos, eram limitados, pois poucos eram os países e regiões que possuíam domínio da técnica ou podiam utilizá-la. No en- tanto, mesmo nestes poucos, as atividades econômicas desenvolvidas eram geograficamente concentradas, de modo que as alterações no es- paço estavam longe de ser generalizadas. Continuavam a existir luga- res sem industrialização, sem utilizar máquinas, etc.
O meio técnico-científico-informacional também não se espalha igual- mente por todos os espaços, existem as áreas desconectadas, que podem estar “nas cidades do interior dos Estados Unidos da América ou nos subúr- bios da França, assim como nas favelas africanas e nas áreas rurais caren- tes chinesas e indianas” (Castells, 2001, p.54). Este meio possui maior capacidade de interferir, criar hábitos, alterar o modo de vida das populações nos mais
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O meio técnico-científico-informacional é caracterizado pela capa- cidade da sociedade humana de utilizar a informação e pela agilidade com que esta percorre o mundo e os lugares, criando o “tempo mais rápido”. E, para isto, os computadores e a internet são elementos es- senciais. Compare o “tempo da internet” com o tempo “natural”, aque- le comandado pelo ciclo das estações. Eles são diferentes? Você conse- gue explicar o porquê desta diferença?
O que é um “tempo mais rápido”? A transformação, produção, recons- trução, a circulação dos objetos, informações e pessoas se dão de forma mais veloz. Podemos ver isto principalmente no ritmo de vida das pes- soas das grandes cidades; no tempo que uma gripe do frango leva para contaminar vários países; no período de tempo que leva entre a queda da Bolsa de Valores de Tokyo e a observações de efeitos negativos em nos- sa exportação (veja o Folhas “Dinheiro traz felicidade?”). O tempo agora é ditado pelo relógio (“Tempo é dinheiro?”) e não mais pela natureza.
A cidade, o campo, os lugares e os territórios assistem a transfor- mação de suas paisagens, sendo reestruturados para este novo tempo. Os espaços assumem novas funções – turismo, indústrias, setor terciá- rio superior, etc., tudo comandado pelo capital, pois este sempre pro- cura alterar os espaços em busca de maiores ganhos. Na busca de lu- cros, o capital vai criando mecanismos para que isto ocorra.
O Conteúdo Estruturante “Dimensão econômica da produção do/no espaço” é bastante amplo, os Folhas que seguem abordam com mais pro- fundidade alguns dos aspectos que tratamos nesta breve introdução. Cabe a você usar o seu tempo para pensar sobre o espaço e suas transforma- ções, afinal de contas, isto altera sua vida. Aproveite as novas tecnologias e embarque neste conteúdo e... bons estudos.
Referências Bibliográficas
CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2001. HOUAISS, A.; VILLAR, M de S; FRACO, F M de M. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 2922 p.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4 ed. São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 2004.
Obras Consultadas
OLIVEIRA, A. U. A lógica da especulação imobiliária. In: MOREIRA, Rui (Org).
Geografia: teoria e crítica. Rio de Janeiro: Vozes, 1982.
SANTOS, M. Por uma geografia nova. São Paulo: Hucitec, 1986.
Documentos Consultados ONLINE
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