O último princípio da transdisciplinaridade é o da lógica do terceiro incluído, que é bem simples, pois está bastante relacionada aos planos de realidade, já que o terceiro incluído indica a integração entre as polarizações, como vimos no capítulo I. No entanto, é importante percebermos que o terceiro incluído - termo designado por Nicolescu (2008) pela letra “T” - é possível a partir de um plano de realidade superior ao das oposições. Não há apenas superação, mas superação e abarcamento simultaneamente. A partir desse
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conceito podemos entender melhor a idéia do tempo como não sendo uma linha continua e linear, mas como algo cíclico, como nos ensina Mircea Eliade (1981), e também elucidarmos a diferença entre dialética e dialógica e o conceito de recursividade. Segundo Nicolescu (2008),
É a projeção de T sobre um único e mesmo nível de Realidade que produz a aparência dos pares antagônicos, mutuamente exclusivos (A e não-A). Um único e mesmo nível de Realidade não pode gerar senão oposições antagônicas. Ele é auto-destruidor, por sua própria natureza, quando completamente isolado de todos os outros níveis de Realidade. Um terceiro termo, digamos T’, que se situe no mesmo nível de Realidade que os opostos A e não-A, não pode efetuar sua conciliação. Toda a diferença entre uma tríade de terceiro incluído e uma tríade hegeliana se esclarece mediante a consideração do papel do tempo. Numa tríade de terceiro incluído os três termos coexistem num mesmo instante do tempo. Os três termos de uma tríade hegeliana, ao contrário, se sucedem no tempo. É por essa razão que a tríade hegeliana é incapaz de efetuar a conciliação dos opostos, enquanto a tríade de terceiro incluído consegue realizar essa conciliação. Na lógica do terceiro incluído os opostos são mais propriamente contraditórios: a tensão entre os contraditórios constrói uma unidade maior que os inclui (Nicolescu, 2008, pg.4).
A dialética hegeliana concebe o tempo como linear e assim a síntese supera e resolve a dicotomia anterior entre a tese e a antítese. Resolver significa eliminar as polarizações. Já o conceito de dialógica trabalha com a idéia de abarcamento das polarizações, pois elas não são eliminadas, mas continuam a existir e a se antagonizar. Assim, o que num plano de realidade pode ser antagônico, num outro se complementa.
Numa sala de aula tradicional, por exemplo, professor e aluno estão em pólos contrários, na medida em que o professor é aquele que ensina (A) e o aluno o que não ensina (não A). Em algum momento essa tensão pode atingir o plano da aprendizagem, isto é , um plano de realidade superior (um plano T), que pressupõe a relação tensa entre o ensinar e o aprender. A complementação desses dois pólos se dá no nível da aprendizagem, em que professor e aluno, apesar de antagônicos, se complementam na busca do conhecimento. A partir desse exemplo podemos afirmar que a sacralidade da educação depende, entre outras coisas, da integração entre professor e aluno com vistas ao conhecimento.
Esses três princípios são fundamentais para o entendimento da transdisciplinaridade. Se a transdisciplinaridade, como afirma Nicolescu (2008),
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é o que está através, entre e além das disciplinas, o que irá caracterizá-la de modo mais marcante, no nosso entendimento, é a idéia de ir além das disciplinas, dando-lhe uma qualidade de verticalidade e de busca de campos semânticos cada vez mais abrangentes, sem, por outro lado, perder sua conexão com a complexidade. Ou seja, voltamos a insistir, a complementação de um antagonismo não é, necessariamente, a sua superação ou eliminação. Ou ainda, a complementação de uma polaridade num plano de realidade não elimina a realidade desse antagonismo num plano inferior. Isso significa que a transdisciplinaridade concebe a realidade como uma rede de inter-relações dialógicas e recursivas, não constituindo uma nova disciplina em que haja um corpo fechado de conhecimentos, mas uma maneira de olhar o conhecimento, sem a necessidade de fragmentá-lo ou limitá-lo a um plano específico da realidade. Por isso, a característica vertical da transdisciplinaridade, dada pelos planos de realidade, é fundamental e diferenciada das demais tendências, como a inter e a pluri, pois é pela verticalidade que a trans se define como uma concepção de busca da unidade, sem a perda da multiplicidade. Ela integra abarcando e não superando. Como afirma Moraes (2006):
Enquanto a interdisciplinaridade fica no nível disciplinar, a transdisciplinaridade procura transcender as disciplinas na tentativa de resolver o que está além das disciplinas. Assim, o conhecimento transdisciplinar irá complementar os conhecimentos disciplinares, multidisciplinares e interdisciplinares (Moraes, 2006, pg. 37).
Por isso a transdisciplinaridade tem a característica da abertura. Ela não se fecha numa disciplina, pois, por definição, ela procura algo que esteja além do que está sendo apresentado. O conceito de incerteza é importante no tratamento e condução de uma visão transdisciplinar, pois a certeza fecha a questão, enquanto a incerteza abre a possibilidade do novo, do diferente e do criativo, como coloca Saturnino de La Torre (1999).
Na concepção transdisciplinar é importante saber trabalhar com as polarizações ou, ainda, saber lidar com o conflito e com as tensões próprias da natureza e da vida. O jogo dos contrários está em toda parte, mas nem sempre temos consciência disso. Ou seja, as oposições e os conflitos precisam ser
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vividos para que surja a necessidade ou a vontade de buscarmos num outro plano de realidade uma resposta mais abrangente e integral.
É comum observamos nas reuniões de professores e nas discussões em sala de aula a tentativa de muitos em conciliar posições antagônicas e buscar o consenso diante da multiplicidade de opiniões e tendências. Todos nós apreciamos a unidade e a integração entre as pessoas e as idéias; no entanto, segundo a visão transdisciplinar, isso só é possível a partir dos planos de realidade e do terceiro incluído. A integração deve ser buscada em planos de realidade que sejam mais abrangentes e que quando realizada ilumine a diversidade, demonstrando sua razão de ser e de se apresentar como divergente. O consenso entre os sujeitos não precisa, necessariamente, anular cada sujeito em sua individualidade. Por isso Pitágoras afirma que a harmonia está no conjunto das diversidades e não na hegemonia e identidade de todas as partes.
Buscar o consenso no mesmo plano de realidade das divergências pode gerar autoritarismo de um lado e conformismo do outro. Amar o outro implica em amar a si mesmo. Quando amamos o outro não nos anulamos para ele, mas nos reconhecemos através dele. Entre o plano de realidade divergente do eu e do outro existe um plano abrangente que integra sem diferenciar, que é o plano do amor.