• No results found

Acredito que as reflexões sobre as relações de gênero permitirão uma compreensão mais íntima acerca da vivência do evento do nascimento e da dor do parto, por fazerem parte da história da humanidade e estarem presentes nas relações que permeiam os papéis sociais e sexuais no mundo atual.

As discussões sobre as diferenças de gênero podem ser encontradas não somente nos estudos recentes das ciências humanas, mas também nas desigualdades e diferenças nos papéis sociais descritas na mitologia e no Livro Sagrado. Estes escritos podem não corresponder aos fatos históricos da humanidade, mas podem exercer forte influência no processo de subjetivação individual ou coletiva.

Voltando ao mito bíblico, assinalado na introdução deste trabalho, reporto-me à gênese do planeta e dos seres humanos onde a criação da mulher visa atender às necessidades do homem. E a primeira mulher, Eva (esposa de Adão), de acordo com o mito, rebela-se contra as determinações impostas por Deus e recebe como castigo o submetimento ao poder e domínio do homem (Leal, 2004) e a imputação dolorosa da prenhez e do parto. No trecho bíblico, que descreve o pecado original, encontramos: “Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará” (Gn 3,14-19).

Ribeiro (2004) também defende a inscrição da diferença entre gêneros e sua conseqüente imagem justificadora do feminino, presente no texto Sagrado:

Os textos relativos ao Pecado Original permitiram, de várias formas, a justificação da subordinação feminina. Em primeiro lugar, foi Deus que submeteu Eva à obediência ao seu marido, devido à Queda Original. Assim, a autoridade e o papel de dominação apenas podem ser exercidos pelo homem, sendo inacessíveis à mulher que Deus tornou subserviente ao homem como castigo pela sua desobediência, por ter sido ela a abandonar a lei divina (...). (p. 6)

Na concepção mitológica da Bíblia, compartilhada pela Igreja Católica, durante muitos anos, as mulheres tornaram-se, após esta passagem, seres degradados e amaldiçoados na esfera religiosa, pois Eva foi a grande responsável pela condição de miserabilidade humana, que repercutiu sobre todas suas “filhas” (descendentes). Verificamos também correspondências a este estereótipo bíblico feminino na mitologia grega: Pandora (Eva grega), Lilith (primeira mulher de Adão que não aceitou ser submissa a ele, e então foge e se transforma em demônio), além da maioria das figuras mitológicas, dadas à prática do mal, serem representadas pelo sexo feminino (sereias, Medusa, Hecate, Circe), como descreve Leal (2004).

O Velho Testamento noticia que, na sociedade israelita, esta relação de poder dos homens sobre as mulheres era justificada pela necessidade de se dominar o “demônio tentador do homem”. De igual forma, na História Antiga, de acordo com Leal (2004), há relatos da dominação masculina, onde, na Grécia antiga, as mulheres não tinham direitos políticos, não participavam de banquetes em eventos especiais, e eram proibidas de dormir no mesmo quarto do marido.

No momento em que a Igreja Católica ganha espaço definitivo na sociedade, associado à queda do Império Romano, o discurso misógino do Velho Testamento passou a ter força total, tratando as mulheres e a sexualidade como o grande mal da humanidade. Ainda hoje, presenciamos um enaltecimento da imagem da Virgem Maria, na expectativa de ser o estereótipo da mulher ideal em antítese à figura rebelde e maligna de Eva.

Este breve histórico que assinala as diferenças e desigualdades entre os gêneros, pode nos ser útil para compreender as relações de poder existentes na nossa cultura ocidental até os dias de hoje. Esta hierarquia mostra-se nitidamente nas relações entre os profissionais de saúde e as usuárias do sistema de saúde pública, principalmente no momento do parto, onde a parturiente apresenta pouco ou nenhum poder de decisão sobre seu corpo em processo de

parturição, e onde, muitas vezes parece aceitar essa situação de submissão, de violência e de dor dentro das hierarquias de gênero e de poder, de acordo com algumas falas retiradas do discurso de um pequeno grupo de gestantes, que justificaram o sofrimento feminino no momento do parto no hospital:

A gente tem que ficar quietinha, não gritar, se não os médicos não vão querer atender a gente, né? É melhor não gritar, sentir a dor, assim, bem quietinha. (Maria);

(...) então parirás com dor porque Eva pecou. (Francisca);

Pra mim é uma coisa necessária (a dor do parto) (...) acho que é uma dor que tem que existir mesmo. Inevitável. (Mônica);

Eu não queria que colocasse aquele soro para aumentar a dor, mas se eles (médicos) acharem que tem, então eu vou ter que aceitar... fazer o quê? Num tem jeito mesmo...

(Maria);

Eu já ouvir dizer que, quem tem parto cesária, num sabe o que é ser mãe de verdade.

(Mônica).

Estas falas parecem mostrar o quanto estes mitos podem reverberar sobre as crenças e valores entre a população feminina na nossa sociedade. Assim, buscar os sentidos destes mitos poderá nos auxiliar na compreensão do processo da luta feminista em favor de que se desfaça a associação do feminino com o pecador, o submisso e necessitando de controle. Uma luta que cinde com o modelo proposto pelo discurso oficial da Igreja de uma mulher idealizada, de uma iconografia que se assemelhe mais com Maria, Mãe de Deus e que se distancie de Eva, mulher pecadora que causou a queda da humanidade. Para então, finalmente, refletirmos sobre a estrutura hierárquica de poder e as desigualdades de gênero no âmbito da instituição médico-hospitalar.